Ghost in the Shell: A Vigilante do Amanhã

Ghost in the Shell – A Vigilante do Amanhã é baseado no mangá de mesmo nome (título original: 攻殻機動隊) escrito e ilustrador por Masamune Shirow, de 1989.

Em um futuro não muito distante, a distância entre homem e máquina está cada vez mais curta com a era da cibernética e a “ciberização“: A humanidade agora pode se aperfeiçoar com uso de implantes cibernéticos, criando uma nova realidade de interface homem-máquina e um novo modo de vida. Enquanto isto traz muitos benefícios, a tecnologia também pode ser usada para o mal, favorecendo criminosos e grupos terroristas.

Grandes corporações procuram controlar governos e o princípio de individualidade e caráter parece ser cada vez menos importante. O conglomerado Hanka Robotics e a federação japonesa criam em conjunto a união perfeita entre o robótico e o humano, o projeto 2571, um corpo completamente sintético com todas as super capacidades de uma máquina porém com um cérebro humano. Este corpo, esta casca (shell literalmente em inglês) promete ser a maior revolução da humanidade. Esta união é a Major, personagem vivida por Scarlett Johansson e protagonista do filme.

Baseado em um ambiente totalmente cyber punk, Ghost in the Shell conta a adaptação da Major em um mundo que não lhe parece pertencer. Enquanto transformada em um soldado perfeito, ela é integrada ao Setor 9, um grupo de controle nacional e investimento particular da Hanka Robotics com papel especializado em anti-terrorismo cibernético. Ao investigar o caso de uma série de assassinatos de pessoas importantes da Hanka, ela se depara com um hacker conhecido apenas por Kuze, e percebe que o mundo ao seu redor não é exatamente como lhe foi contado. Ao mesmo tempo que ela tem como prioridade derrotar Kuze e salvar pessoas inocentes de demais ataques, ela quer desvendar os mistérios dos erros em sua programação e a dificuldade de lembrar de seu passado.

Personagens

Para falar um pouco dos personagens, é pertinente falar do universo. Seguindo a mitologia da franquia, o Japão cyber punk se encontra multi-aculturado. Ele é um ponto foco de grandes conglomerados de todo o mundo que tentam sobreviver longe do controle do Império Norte Americano ao mesmo tempo que querem cada vez uma fatia maior do mercado e exercer mais e mais influência sobre as demais federações. O país se tornou absolutamente cosmopolita ainda que mantendo raízes, e isso fica bem aparente no casting do Setor 9. Aqui vão alguns dos personagens:

A Major
Resultado do projeto 2571, ela é considerada o primeiro salvamento cerebral. Seu corpo original não resistiu a um ataque terrorista, como descrito pela sua ficha, mas seu cérebro foi recuperado e transplantado para o primeiro corpo sintético criado. Desde então, ela foi incluída no Setor 9 para lutar contra terrorismo. A Major não tem muitas lembranças de sua vida antes do salvamento e tem questionamentos quanto a sua real humanidade, a sua alma (ghost), o que a diferencia de uma outra máquina qualquer. Ela começa a vivenciar erros visuais e sonoros que ela não consegue remeter à nada conhecido, até o momento que eles se coincidem com sua missão principal e todo seu ponto de vista muda. Ela é interpretada por Scarlett Johansson.

Batou
O segundo em comando depois da Major, Batou tem um humor afiado, gosta de armas grandes e vive para o trabalho. Ao mesmo tempo que ele não demonstra compaixão pelas pessoas em suas missões, tem um coração enorme para cuidar de animais e da Major. Interpretado pelo dinamarquês Pilou Asbæk.

Aramaki
O chefe do setor 9. Calmo, sério, saber dizer a coisa certa na hora certa. Ele tem seu mérito de ser o chefe do setor e o filme mostra bem isso. Encarnado pelo consagrado ator japonês Takeshi Kitano.

Togusa
O pai de família e detetive Togusa é o único humano puro , ou seja, sem nenhum aperfeiçoamento cibernético da Seção 9 e se orgulha muito disso. Ele é direto em suas falas e seu gosto clássico por revólveres permaneceu no filme. Ele é interpretado pelo cingapurense Chin Han, considerado um dos 25 melhores atores da Ásia pela CNNGo.

Ladriya
A nova personagem a entrar na franquia, aumentando o lado do time feminino, Ladriya é bem competente em campo. Ela aparenta um visual indiano, muito misturado. A atriz inclusive é londrina de origem curda e polonesa, Danusia Samal.

Ishikawa
Responsável por armamentos e irresponsável por bebida. Assim como a maioria dos personagens, ele também tem aperfeiçoamentos, incluindo um fígado cibernético para poder beber mais. Ele é interpretado pelo ator australiano Lasarus Ratuere, mudando bastante a aparência do personagem e tornando o ambiente ainda mais multi-aculturado.

Dra. Ouelet
Uma das principais responsáveis do projeto 2571, Dra. Ouelet supervisiona todos os dados e erros da Major, assim como resconstrução de seu corpo sintético, além de ter sempre uma palavra amiga. Ela trata a Major com muito carinho, quase maternal. Não se sabe se ela possui algum aperfeiçoamento. Interpretada pela também conhecida atriz francesa Juliette Binoche.

Dra. Dahlin
A romena atriz Anamaria Marinca interpreta a estressada Dra. Dahlin, também responsável pela equipe de construção do projeto 2571. Seu aperfeiçoamento cibernético a permite trabalhar mais rápido com análise de dados e recuperação de informações perdidas.

As bases do filme live action

O filme em algumas cenas é como uma representação ipsi literis da animação de 1995 dirigida por Mamoru Oshii, o que faz muito sentido já que o filme inteiro teve consultoria e participação do próprio. Desde a direção de cenas e trilha sonora à indumentárias, conceito de armas, itens e processos. É realmente incrível como é igual e bem executado. O interessante é que apesar da forte representatividade do longa animado, há conceitos e momentos muito ligados ao mangá original, o Arise e à série de tv Stand Alone Complex.

O design dos carros também é bem icônico, as linhas são bem claras do estilo estético do final dos anos 80. A ambientação da cidade permanece fiel à mitologia cyber punk eternizada por filmes como Blade Runner e o próprio mangá, mostrando grandes metrópolis cinzas, sujas, superpopuladas, com cartazes holográficos e muito consumismo em todo canto. Poderia se dizer até mesmo um futuro do pretérito, com telas mostrando fundos pretos com letras laranjas, a falta de telefones celulares e roupas exageradas, mas basta um olhar para ver como ainda assim eles conseguiram dar um ar contemporâneo para o conceito cyber punk.

E as diferenças entre o filme e os demais universos

Em entrevista para a IGN, o diretor do longa de 1995, Mamoru Oshii diz que “Se este é um remake do anime, eu não acho que é necessário se manter fiel às coisas que foram expressas no anime. O diretor deve exercer sua direção com a maior liberdade o possível. Se ele não o faz, não é o sentido em fazer um remake.

Na verdade, é assim que a franquia Ghost in the Shell funciona. Existem na verdade quatro tipos de mídias, o mangá original, o filme baseado no mangá, dirigido por Oshii de 1995, a série de TV Stand Alone Complex de 2002 e a última série lançada originalmente em mangá, Arise, de 2013. Em cada um, a história é diferente. E diferente desde a origem da personagem Major Motoko Kusanagi até sua personalidade e suas motivações. E não só dela, praticamente todos os personagens mudam de história para história. Para uma explicação melhor do manga, o ambiente cyber punk e seu relacionamento mais detalhado com as séries, acessem esse artigo que publiquei também nesta semana.



Cada mídia é um universo a parte, com suas propriedades mas que todos fazem parte de um consenso. Uma identidade. E nisto o filme de 2017 não fica nada diferente. Da mesma maneira que Oshii mudou a Motoko de Masamune Shirow à sua vontade (e que por ser uma animação clássica, acabou sendo a mais conhecida mundialmente), Kenji Kamiyama criou uma terceira Motoko em Stand Alone Complex, Junichi Fujisaku foi ainda mais além com uma história extremamente diferente em Arise, e Rupert Sanders também fez uma nova Motoko para se encaixar em uma nova narrativa e nova origem, enquanto mantendo sua essência e pertencimento ao universo.

Fazendo um comparativo mais despojado, é como comparar o Batman da série de Adam West, o de Michael Keaton, o de George Clooney, o de Christian Bale e o de Ben Affleck. Todos são Batmans distintos porém dentro da mitologia do personagem.

No filme lançado agora, há muitos momentos da Major que são referências de todas as outras Motokos, seja de um diálogo, uma ação e até indumentárias usadas, o que mostra um carinho e cuidado muito grande ao desenhar esta nova trama.

Como fã da franquia, não achei nem um pouco errado a escalação da atriz Scarlett Johansson. Vamos lá que eu explico.

Sobre a etnia da Major, um ponto altamente discutido, coloco aqui dados escritos pelo próprio autor no mangá: O nome apresentado por ela não é seu nome real. E isso serve mais de uma vez em muitos pedaços da história, seja qual for seu universo (mangá, animação, série de tv, etc). E o corpo cibernético dela é propositalmente não asiático por motivos descritos também no mangá, como facilidade em se infiltrar em missões em outros países e chamar menos atenção. Inclusive a origem da personagem e seu corpo no filme são um plot device muito interessante e totalmente pertinente ao universo da série que não mencionarei por simples spoiler.

Obviamente há o fator “Hollywood” em que é necessário uma estrela muito conhecida para justificar investimentos e ganhos líquidos de bilheteria. Mas sou realista também nesse quesito. Estamos em 2017 e ainda é muito difícil termos filmes de ação com protagonistas mulheres. Poderia mencionar por exemplo Angelina Jolie em seus papéis como Lara Croft e Salt, mas em comparação com o número de filmes com homens protagonizando, ainda é muito pequeno.

E não é algo fácil ainda neste mercado completamente dominado pela opinião pública masculina e principalmente americana. Scarlett é uma atriz com muito cacife para fazer o que quer e não quer, já é conhecida por papéis como Lucy e Viúva Negra e ela realmente se dedicou para o papel da Major, tanto em atuação quanto caráter físico. Sem mencionar que ela é fã. Para mim é uma vitória um filme como esse chegar de fato às telas, e acredito sinceramente que ele poderá ser um divisor e abrir muitas oportunidades futuras para muitas atrizes. Além do mundo inteiro poder conhecer a obra que já existe desde 1989. Como se diz na expressão, baby steps, ou seja, um passo de cada vez.

Complementando o assunto, o diretor do longa animado da série de 1995, Mamoru Oshii, é um grande defensor de Scarlett nesse papel. Na mesma entrevista acima citada, ele diz “Que problema poderia ter com o casting dela? A Major é uma ciborgue e sua forma física adotada é totalmente artificial. O nome Motoko Kusanagi e seu corpo atual não são seus nome e corpo originais, então não há uma base para dizer que uma atriz asiática deve fazer o papel dela. Se até seu corpo original (presumindo que existiu um) fosse japonês, isso ainda se aplicaria.” Inclusive, o famoso designer de games Hideo Kojima, conhecido por sua série Metal Gear, está muito contente em seu twitter quanto ao filme.

Dando os devidos créditos à atriz, ela encarnou bem a personagem referente de Oshii. Desde preparação física para chegar à imponente forma da Major, ao modo duro e brusco como ela se movimenta e as famosas cenas do filme de 95 com os olhares vazios. Não tem muito o que contestar, Scarlett Johansson fez a lição de casa e fez bem feita.

Ghost in the Shell – A Vigilante do Amanhã é um filme que faz sim justiça à franquia de onde veio. Demonstrar toda a riqueza de um universo em um filme de 107 minutos para um público completamente novo não é uma coisa fácil. O filme tem um ritmo bom, o elenco tem uma boa química, os personagens fazem sentido, o antagonismo combina com o roteiro e tudo representa bastante toda a diversidade criada pelo autor. Não há elementos filosóficos fortes como na animação de Oshii, mas segue o ritmo de ação e desenvolvimento de personagem bem parecido com o manga original. Seja conhecedor ou não da série, vale a pena para qualquer pessoa que quer curtir um bom filme de ficção científica e ação.

Única ressalva são os elementos dos trailers que foram cortados do filme final mas que certamente irão para uma versão doméstica.

9/10

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s