Um Estado de Liberdade

“Um Estado de Liberdade” (Free State of Jones) é um filme baseado em fatos reais, tendo como cenário a Guerra Civil americana pela abolição da escravidão. O protagonista Newton Knight, interpretado por Matthew McConaughey, é um soldado do Mississipi que não acredita nos ideias pelos quais a guerra está ocorrendo e que deserta após a morte de seu sobrinho Daniel (Jacob Lofland) em batalha. Ao retornar para seu vilarejo, Newton decide ajudar os aldeões que eram extorquidos com impostos abusivos cobrados pelo governo separatista. Para cobrir gastos de guerra, os soldados levavam supostamente 10% de todos os bens de cada família. Indignado com tanta injustiça, e após criar amizade com um grupo de escravos foragidos que salvam sua vida depois de uma eventualidade, Newton decide treinar os aldeões para que possam proteger seus territórios, e assim criar um estado independente, enfrentando os escravagistas, os tribunais e até a Ku Klux Klan.

Bem no início, o filme já apresenta um cenário de guerra totalmente caótico. A todo o momento, a história leva-nos a entender que Newton sente-se deslocado, não conseguindo encontrar sentido em lutar uma batalha que não lhe pertence, e para variar, seu sobrinho Daniel também é designado. Uma trilha sonora bem moderada e câmeras com recurso “traveling” deram à cena em que Daniel foi atingido uma originalidade comovente, levando o telespectador sentir a frustração de seu tio que tenta salvar sua vida de todas as formas. Posso dizer que esta é a primeira de três cenas marcantes que tomei a liberdade de selecionar.

No desenrolar da trama, a temática do preconceito é abordada de uma forma surpreendentemente incomum, levando-se em conta que estamos acostumados a assistir filmes sobre escravidão onde unicamente os negros são alvos de represália. Neste filme, Newton, ao desertar após a morte de seu sobrinho, torna-se a escória do exercito americano. Tal fato leva-o a entender o mundo visto do ponto de vista dos excluídos, tanto os pobres quanto os escravos.

Ao sentir-se frustrado em ver os soldados americanos extorquirem os aldeões de seu refugio, ele decide ajudá-los a afugentar o exercito armando-os. Isso incita o ódio de um dos comandantes, que ordena que os capitães do mato o cacem. Após ser ferido e conseguir se safar, Newton é levado para ser tratado medicinalmente por um grupo de escravos fugitivos que se abrigavam em um pântano, liderados por Moses Washington (Mahershala Ali). Neste momento podemos sentir claramente a apreensão do grupo em prestar apoio, julgando o requerente pela cor da pele, como uma questão de precaução e medo. Com a convivência e o conhecimento de seus relatos, Newton passa a admirar os fugitivos, e encontra ali uma nova motivação para continuar lutando.

Além das abordagens clássicas que todos já estão cansados de conhecer, mais alguns temas polêmicos devem ser esclarecidos: A Bigamia e o relacionamento inter-racial. Newton tivera um filho com uma das residentes do vilarejo, Serena Knight (Keri Russell), e ao longo do filme ele se apaixona por uma escrava chamada Rachel (Gugu Mbatha-Raw), demonstrando total desprezo pela separação matrimonial por fatores raciais.

A todo o momento, cenas de um julgamento que acontece paralelo à história principal são exibidas, onde o filho de Newton e Rachel é acusado de enganar a corte ao casar-se no civil com uma mulher branca, após os investigadores descobrirem que havia sangue negro em seu DNA. Esta é a terceira cena marcante.

Infelizmente, para não roubar o encanto do leitor que pretende embarcar neste envolvente drama, devo informar que a segunda cena marcante não poderá ser revelada, mas, posso dizer que os responsáveis pelo sentimento de frustração é nada menos que a temida Ku Klux Klan, revoltosos escravagistas contrários à abolição decretada pelo presidente Abraham Lincoln.

Como veredicto final, em minha concepção “Estado de Liberdade” é um dos filmes mais complexos que relatam o cenário da guerra civil americana, levando o telespectador a sentir-se como seus personagens, engenhosos e estratégicos, pessoas simples desprezadas pela sociedade e com um potencial extraordinário. Todos os temas polêmicos são abordados com extrema delicadeza e precisão de detalhes. O roteiro demonstra claramente o desprezo do autor pela classificação racial, e pela prisão moral estabelecida pela sociedade, levando o telespectador a pensar se estaria correto ou não aquilo que está acontecendo, e em um momento de reflexão, conseguir até espelhar na atual sociedade.

8/10

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