Cães de Guerra

Por Cleiton Lopes

A mistura jovens prodígios e muito dinheiro já provou, na vida real e no cinema (e muitas vezes um é consequência do outro) é a formula perfeita para problema. Em 1941 Cidadão Kane revolucionava o cinema por diversas questões, incluindo técnicas, ao contar a história de uma figura que se torna muito cedo, ainda criança, dono de uma fortuna e, até o fim da vida, segue criando polêmica e até partindo corações. Em 2008 “A Rede Social” conta a história de Mark Zukeberg e sua criação, o Facebook, e como se tornou milionário de forma polêmica e, também, como partiu corações de ex-namoradas e colegas de faculdade. Salvo as devidas proporções (não quero ser acusado de sacrilégio, principalmente pelo primeiro), Cães de Guerra segue os mesmos parâmetros mas agora, em um novo cenário.

O filme se passa em meados de 2008 quando a guerra ao terrorismo estava em seu auge. David Packouz  (Miles Teller) que tenta se virar em negócios particulares e sem muito sucesso, acaba encontrando um antigo colega de escola, Efraim Diveroli (Jonah Hill) que vem lucrando algum dinheiro vendendo armas para o governo. Os dois fecham uma parceria e fundam uma empresa. Quanto mais dinheiro entra, mais os riscos aumentam e é perigoso chegar perto demais do sol. Principalmente com um amigo tão ganancioso e fora de controle como Diveroli.

Como nos dois primeiros filmes citados a amizade também é um dos elementos desse tipo de trama. Tanto Kane quanto Mark tinham amigos fieis que acabaram sofrendo as consequências de suas atitudes. A diferença em Cães de Guerra é que o protagonista do filme é David, que não é exatamente o “prodígio”, ele apenas é convidado a participar da jogada e, logo na primeira cena, já sabemos que as coisas vão desandar um pouco para ele.

Uma outra diferença é que em Cidadão Kane (talvez o primeiro a fazer isso) e em A Rede Social, fica a cargo do espectador julgar se os protagonistas são heróis ou vilões. Visto que os dois filmes trazem diferentes vozes de como diferentes personagens veem a mesma figura. Aqui, fica bem claro qual é a verdadeira face do expansivo Diveroli. Principalmente por que o filme é contada pelo ponto de vista de David, que é quem narra a história.

Os dois atores conseguem convencer bem em seus papeis. Miles Teller depois de sangrar os dedos tocando bateria e ser um super herói, consegue entregar um personagem carismático que é o lado mais consciente da dupla. O personagem também tem motivos mais sérios para ganhar dinheiro como esposa e um futuro filho. Jonah Hill, depois de um adolescente pervertido e trabalhar em Wall Street, aparece agora com mais “cara de adulto”. Parece abandonar a áurea adolescente que a maioria dos seus personagens apresentava e até arrisca roupas sociais e uma barba “por fazer”. A cereja do bolo é a marcante risada de seu personagem.

O diretor Todd Phillips também consegue cumprir bem sua função. Certamente muita gente vai achar que é um filme puramente de comédia visto que ele é o diretor, o que é salientado no trailers, da trilogia Se beber não case e de outros como Um Parto de Viagem e Escola de Idiotas. Inclusive, existe uma referencia à trilogia com a participação de um dos atores do filme em um cassino em Las Vegas. Até o Capitão América pegaria essa referência.

A forma que o diretor compõe os planos é bem interessante. Em uma em especial, os dois amigos estão nervosos para uma importante audiência para fechar um contrato. Diveroli então sugerem que eles fumem um pouco no carro para conseguirem relaxar. Phillips escolhe filmar isso colocando os dois fumando dentro de um carro vermelho e um grande reflexo de uma bandeira dos EUA em cima do carro. O plano resume basicamente o filme: uma dupla de amigos que decide tirar dinheiro para carros e drogas (e no caso de um deles, fraldas para o filho) em uma brecha do tão falado patriotismo Norte Americano (quer coisa mais patriota que uma bandeira dos EUA ao vento?).

A pesar de todos esses elementos em comum com Cidadão Kane e A Rede social, Cães de Guerra ainda não consegue ter o mesmo impacto que os dois. Temos cenas interessantes, personagens cativantes mas parece faltar um algo mais. Uma das razões pode ser o motivo de a história ser baseada em fatos reais o que dificulta um pouco o trabalho do diretor em criar situações e em consequência, cenas que complementem a história. Algo que talvez um diretor mais experiente teria conseguido. Mas, sem dúvida, é um filme que vale a pena de ser visto, sem o risco de acordar no outro dia sem lembrar de nada que aconteceu, com um tigre no banheiro e um bebe na sala.

8/10

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