O Roubo da Taça

Por Cleiton Lopes

O cinema nacional (ao menos o mainstream) a tempos não demonstra alguma identidade nacional. O que diferencia o cinema feito no país do futebol para o feito na terra do Tio Sam ou “nas europa” pra além de ter Wagner Moura no elenco? É uma pergunta difícil de responder e talvez até sem resposta. Visto que a maioria dos filmes que tem ampla exibição pelo país é da Globo Filmes que não se cansa de copiar fórmulas de filmes americanos ou como uma extensão de algum sucesso da televisão.

A produção nacional da Netflix O Roubo da Taça faz uma aposta, ao menos um pouco, diferente. Na verdade, o filme dá uma “abrasileirada” em “padrões Hollywood”. A impressão é que pegaram tudo que é marca registrada do Brasil e preencheram na tela: samba, futebol e mulheres. Mas, de uma forma, digamos, equilibrada, sem chegar ao caricato.

A premissa é o futebol. O misterioso roubo da Taça Jules Rimet do tricampeonato mundial de futebol Brasileiro que ocorreu de verdade e até hoje é cercado de mistérios. Na versão do filme, o responsável pelo mesmo é o famoso personagem popular: o malandro. Nesse caso o seu nome é Peralta (Paulo Tiefenthaler)  que é cheio do “jeitinho brasileiro” e que tá sempre envolvido com baralho e jogo de bicho. A parte “mulheres” fica por conta de Taís Araújo e sua personagem Dolores que é a “mulher do malandro” e também cheia dos jeitinhos para resolver seus problemas mas, com mais responsabilidade que o marido. O tempero para isso tudo é o samba que faz parte da trilha sonora do filme tanto diegética quanto extra diegética com clássicos populares como Pecado Capital de Paulinho da viola e seu famoso refrão “dinheiro na mão é vendaval” que ilustra muito bem um determinado momento do filme.

Isso são os elementos que compõe um roteiro com várias referencias à Pulp Fiction – Tempo de Violência de Quentin Tarantino. Com cenas como a difícil tarefa de escolher uma arma para uma missão (incluindo um tchaco), uma ida ao banheiro num momento não apropriado e até um encontro inesperado durante uma fuga seguido de um atropelamento. Ah, e claro precisávamos de um gangster que, nesse caso, é um dono de uma “casa de apostas” conhecido como Bispo.

O filme se passa em 1983 e tudo é construído para que não tenhamos dúvida de que estamos nesta época. Desde os figurinos bem bregas, óculos espalhafatosos, a TV colorida como uma grande novidade e até os programas de TV são usados como localização. Uma pequena mostra de miscelânea de sotaques é vista no braço direito do bispo que é bem nordestino.

Num geral todos os personagens são, digamos, feios. Ou muito magros ou muito gordos, o que dá uma atenção maior à personagem de Taís Araújo que parece ter um pouco mais de consciência (só um pouco) que os demais. Isso principalmente para os “finalmentes” do filme (que claro não será contado aqui). Taís também é um dos poucos nomes, se não o mais, conhecidos do elenco do longa chegando até a ser a figura central dos posteres certamente como chamariz de público.

Ah, o famoso “calor tropical” do Brasil, também está marcado no filme. Os personagens estão o tempo todo suados e com marcas na roupa. E também, estão constantemente enxugando os excessos que escorrem pela testa.

No geral, o filme parece entender bem o “espirito brasileiro” mais o famoso “jeitinho brasileiro”, a malandragem tão característica do nosso povo. Claro que vai ter muita gente que vai reclamar e dizer coisas do tipo “Pra que tanto palavrão?”, “o país tem tanta coisa para mostrar, pra que mostrar isso?”. Concordemos que o Brasil realmente tem muita coisa bonita mas o que é visto no filme também não deixa de ser Brasil.

Em compensação, o filme não chega a espetacularizar e encher de glamour a violência e a pobreza como outros como Cidade de Deus fizeram. O roubo da Taça pode não ser o filme que vai “salvar o cinema nacional” ou “fazer todos refletirem” (o que não é, nem de longe a proposta dele) mas serve como bom entretenimento sem apelar para continuações de executivos trocando de corpo com a mulher ou um comediante da TV fazendo papel de mãe exagerada. Ao menos isso.

7/10

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