Rua Cloverfield, 10

Por Fábio de Carvalho

A possibilidade de uma sequência para Cloverfield (2008) sempre esteve em especulação desde o sucesso, tanto de público quanto de crítica, do filme. Porém, é conhecido o fato de que sequências de filmes found footage não costumam vingar, nunca alcançando os patamares prévios. Se filmes nesse modelo já possuem diversos exemplos de qualidade duvidosa, Cloverfield é um exemplo à parte, e merece ser louvado pelo seu puro valor de entretenimento.

A coincidência de que a maioria dos found footage são do gênero de terror ou suspense não se revela como nenhuma surpresa. A ideia de não ver – ou ver brevemente – aquilo que aterroriza, é um conceito extensivamente explorado no cinema, e entra em diálogo contemporaneamente com os desenvolvimentos tecnológicos de registro portátil. As diversas fases de pré-produção de Rua Cloverfield, 10 envolveram essa mudança conceitual da forma como os envolvidos no projeto iriam abordar a história. E é curioso como agora, de muitas formas, o mistério acerca do que exatamente ocorre de catastrófico na trama, continua vivo.

A história de Michele, Mary Elizabeth Winstead, é muito simples. Se trata de confiar, ou não, em um homem que diz, e apresenta evidências, de ter salvo sua vida. Esse homem, Howard, interpretado por John Goodman, é um especialista em teorias de conspiração, e afirma a procedência de uma invasão terrorista, ou de um ataque alienígena. A primeira conclusão de Michele, ao constatar que foi raptada por Howard, nos parece a princípio muito crível, mas com o desenrolar da história o espectador passa a conhecer facetas das personagens e do mundo que os cerca. O passado sombrio de Howard é um tema explorado de forma a construir uma instabilidade em sua figura. Ele é severo, e passa segurança, mas esconde segredos e desejos de Michele que se revelam aterrorizantes. A pergunta é: como sobreviver ao apocalipse se seus desejos da vida prévia assombram não só a você, mas aos demais sobreviventes? John Goodman interpreta um papel que eu sempre desejei testemunhar, alguma coisa entre Stephen KingVincent Price. Sua figura enorme caminha pelo pequeno bunker, e sua presença dá um gosto campy pra experiência.

Talvez a maior qualidade de Rua Cloverfield, 10 seja sua construção de tensão. O filme não se utiliza de meios não convencionais, mas é muito eficiente na sua disposição de temas agressivos em momentos de terror, e temas que causam uma constantemente sensação de estranhamento e mal estar. Enquanto ficção científica o filme cumpre seu papel no âmbito de construção identitária. Sendo o sucessor espiritual de Cloverfield o filme, porém, se passa em um universo distinto, com ameaças distintas. Mas não deixa de ser primoroso o trabalho dos diretores de entreterem o espectador com a sensação do estranho, do inóspito, do que está obtuso.

Os celulares e demais aparelhos tecnológicos das personagens não se tornam ferramenta alguma dessa vez. Em Cloverfield, o desespero passava pelas lentes de celulares ou câmeras portáteis, em uma tentativa desesperada de domar  e conter aquilo que ocorria sob a irrealização desses atos na filmagem. O horror em Rua Cloverfield, 10 está agora também na ausência dessa meio de recepção e tradução. Não existe um mundo externo, não existe mais um meio de socialização, exceto por aquelas três pessoas em um bunker. A palavra humana é tudo que conta, é tudo que resta. E através desse timbre o filme adquire a mesma harmonia de seu antecessor, sendo um comentário sobre a relação do ser humano com a tecnologia. Sob uma boa dose de entretenimento à la filmes de ficção científica B.

8/10

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