O Quarto de Jack


Por Alice Lapertosa

Uma história delicada em cada um de seus detalhes e, ainda assim, extremamente intensa. Baseado no livro homônimo, a escritora Emma Donoghue também assina o roteiro de “O Quarto de Jack”. Na história, Brie Larson e Jacob Tremblay são mãe e filho, trancados num porão. Ambos papéis dificílimos, interpretados com excelência por atores bem novos – na época das filmagens, Brie estava com 25 anos e Jacob com apenas 8.

“Ma”, como Jack a chama, foi raptada ainda adolescente e obrigada a viver enclausurada no depósito do Velho Nick (é assim que o chamam, ninguém sabe seu nome verdadeiro). Ela se lembra dos pais, da casa onde morava, das ruas e jardins e quer voltar. Jack nasceu ali, seu único contato com outro ser vivo é um ratinho que aparece no depósito e a voz do Velho Nick. Jack dá conversa com a cama, privada e cadeiras, fala como se fossem amigos e acha que as pessoas da TV não existem.

A fotografia claustrofóbica é cheia de closes, e intensifica o estado de alerta e nervosismo da primeira parte. Se você ainda não assistiu, recomendo que pule os próximos parágrafos sobre a trama, pois o diretor Lenny Abrahamson vai descascando tudo num ritmo sensorial que provoca experiências únicas –  quanto menos se souber delas, melhor.

Numa tentativa desesperada de salvar a própria vida e a do filho, “Ma” enrola Jack num tapete e o ensina a fingir de morto para que possa fugir e pedir ajuda. O plano funciona e, depois de sete anos, ela e o menino são libertados. O reencontro de “Ma” com sua mãe (Joan Allen, outra atuação encantadora) tem potencial para fazer muita gente chorar. Já com o pai (William H. Macy), eles enfrentam complicações interessantes que são talvez o único ponto de “O Quarto de Jack” que poderia ter sido melhor explorado – considerando aqui o filme em si, não comparando-o ao livro.

Em sua segunda metade, a história se transforma completamente. Antes, era sobre a relação entre mãe e filho, sempre juntos, numa situação extrema (no caso, o cárcere) da qual cada um tinha uma visão diferente. Fora do quarto, Jack se sente deslumbrado – e ao mesmo tempo confuso e intimidado pelas pessoas e coisas – por vezes quer voltar ao lugar onde esteve preso, à relação de proximidade com a mãe quando ambos existiam apenas um para o outro. Já “Ma”, tem que lidar com a dificuldade de adaptação agravada por uma depressão pós trauma. Logo que chegam, diante da preocupação se o filho conseguiria se adaptar bem, um médico lhe diz “que bom que você tirou ele de lá enquanto ainda está plástico”. As dificuldades vão surgir diante da questão da própria maleabilidade dela.

10/10

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