O Lobo do Deserto

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Por Alice Lapertosa

O “Lobo do Deserto” é um ritual de passagem longo e elegante. Elegante porque as escolhas estéticas são interessantes, notáveis para um diretor iniciante. Longo porque constrói cada uma de suas etapas vagarosamente, como a trilha de passos deixadas na areia do deserto.

Acompanhamos Theeb – que significa lobo -, um garoto que deixa a aldeia para seguir o irmão mais velho. Eles são os guias do “Inglês” Edward (Jack Fox, único ator profissional no elenco) através do deserto, e quase nada sabem sobre o que ele está fazendo por lá. Em plena Primeira Guerra Mundial, o território próximo à linha de trem foi ocupado, deflagrando os conflitos. Quando o grupo de Theeb é atacado, o menino se vê sozinho, tentando voltar.

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O descaso em nos contextualizar sobre o local em que se passa dá ao filme certo tom intimista, nos forçando a prestar atenção aos fatores humanos, deixando o histórico de pano de fundo amassado. Sua trilha sonora é marcante e pontual.

Quanto às entrelinhas da trama, “O Lobo do Deserto” é permeado por conflitos entre o tradicional e o novo: os povos que viviam em suas tendas na areia, trabalhando como guias por gerações e gerações; e os ingleses com seus costumes, seus cabelos loiros, sua língua estranha e suas moedas de pagamento. Theeb estava acostumado a grupos pequenos, nos quais existia a honra e a camaradagem, a palavra e seu valor. Há um choque muito grande quando a lei torna-se sobrevivência, cada um por si, confiar ou não no homem ao seu lado?

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Tais representações dão força ao longa-metragem, assim como a atuação de Jacir Eid Al-Hwietat, que se apresenta como uma criança curiosa de poucas palavras, cabelo bagunçado e roupas e pele sujas, os olhos assustadoramente grandes e penetrantes. Suas escolhas finais são intensas. É interessante também conhecer um pouco dessa cultura tão diferente da nossa, tão permeada pela violência (logo nas cenas iniciais, vemos o protagonista brincando com uma faca e aprendendo a atirar) e ao mesmo tempo tão nobre (os beduínos se recusam a abandonar companheiros para trás, mesmo que mal os conheçam). Uma obra simples, que tem força em sua autenticidade.

7/10

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