O Regresso

Por Alice Lapertosa

Devido à sua natureza gigantesca e solitária, “O Regresso” talvez seja o filme menos diferente de Alejandro González Iñárritu. Lembra um pouco outras produções do gênero com seus heróis que tentam sobreviver num ambiente selvagem e hostil. Nem por isso deixa de ter personalidade, já que o diretor não filma nada à toa.

Adaptada do livro de Michael Punke, a trama se passa nos EUA em 1822 e acompanha Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), integrante de uma expedição de caça. O território de mata e montanhas congeladas no oeste do país é ocupado por grupos esparsos de americanos, franceses e indígenas que brigam pelas peles dos ursos, décadas antes da descoberta do ouro na Califórnia ou da popularização do lampião de gás.

Após serem atacados pelos índios, os americanos dispersam e Glass é atacado por um urso, sendo deixado à beira da morte. O Capitão Andrew Henry (Domhlaal Gleeson) pede três voluntários designados para ficar ao lado dele até sua morte iminente, enquanto o resto do grupo foge em retirada. Glass encontra-se semi-morto na companhia de John Fitzgerard – um mercenário que só se interessa pela recompensa – e dois garotos: o leal Bridger (Will Poulter), e Hawk (Forrest Goodluck), o filho mestiço que lhe sobrou de lembrança do ataque que dizimou a aldeia e matou sua mulher.

Tão logo os outros homens se afastam, Fitzgerard abandona Glass à própria sorte, retornando ao forte e mentindo sobre sua morte. Em meio às possibilidades mínimas, Hugh Glass tenta sobreviver o suficiente para se vingar, tirando força de vontade das lembranças vívidas da família.

O diferencial do longa-metragem é consolidado pelas atuações e aspectos técnicos. Emmanuel Lubezki – diretor de fotografia vencedor do Oscar pelos dois últimos anos consecutivos por “Gravidade” e “Birdman”, o último em parceria com Iñárritu – usou apenas luz natural, nenhuma das cenas foi feita em estúdio. Há movimentos de câmera e planos-sequência bastante complicados e de uma beleza estética que permeia a maioria dos quadros, alternando e sobrepondo as sensações de frio, dor, conforto, imensidão e intimidade. É o tipo de fotografia que não se deixa ser passiva e propicia uma profunda experiência de imersão, aliada à boa mixagem de som e trilha de Ryuichi Sakamoto (também vencedor do Oscar pela categoria em “O Último Imperador”) – intensa, porém em seu devido lugar ao fundo.

A excelência do elenco é testada em papéis duros, com poucas falas e camadas de maquiagem competente, formando lábios ressecados e cicatrizes grotescas. Leonardo DiCaprio tem apenas o cenário como parceiro de cena em grande parte do longa e segura com firmeza a atenção do espectador por duas horas e meia. Tom Hardy está incrível e praticamente irreconhecível.

“O Regresso” contrapõe a simplicidade primitiva de sua história – que foi o que lhe chamou a atenção, segundo o diretor – com a grandiosidade de seu cenário e equipe premiada. Talvez um pouco arrastado no final, com alguns flashbacks que beiram a alucinação e o místico – pinceladas que terminam por ficar deslocadas -, o filme ainda consegue se diferenciar de quase tudo já foi feito sobre o tema.

8/10

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