Filho de Saul

Por Alice Lapertosa

É revigorante encontrar uma obra sobre o holocausto cujo foco principal não é mostrar as barbaridades cometidas pelos nazistas. Em “Filho de Saul”, o diretor estreante László Nemes está muito mais interessada em acompanhar seu protagonista judeu num campo de concentração. E, através dele, propiciar questionamentos profundos sobre a natureza humana num ambiente horrível: a noção de sanidade, o que faz um homem desistir – ou não – diante da adversidade. Essa percepção de motivo precisa ser clara ou trata-se apenas de interpretação? O conceito de realidade sequer é pertinente num contexto tão extremo, tão distante do ambiente controlado da nossa “civilização”?

Saul (Géza Röhrig) é um membro da Sonderkommando, grupo de prisioneiros responsáveis por manter a ordem durante as sessões de extermínio dos outros prisioneiros. Nós o encontramos pela primeira vez enquanto levava dezenas de homens e mulheres para a câmara de gás. Seu semblante é neutro, não esboça reação, apenas reage mecanicamente às ordens recebidas. Quando o local é aberto para retirada dos corpos e limpeza, eles descobrem um menino ainda vivo. O médico examina e em seguida o asfixia. Saul se oferece para levá-lo para autópsia, e revela ao médico seu desejo de enterrar o filho.

A idéia torna-se fixação e Saul percorre o campo de concentração à procura de um rabino, vagando dia e noite feito um zumbi. Pela causa, arrisca a própria vida trocando de setor e se infiltrando em meio ao novo carregamento de prisioneiros que estão sendo massacrados. Suas ações interferirem na tentativa de fuga que está sendo planejada pelos colegas e coloca a vida de todos em risco ao esconder o rabino no alojamento e descuidar de sua função na rebelião.

No início, somos simpáticos à causa de Saul, afinal, é um homem torturado pelas condições desumanas nas quais está preso – a morte é futuro certo, e ele sabe disso – só quer enterrar o corpo do filho de acordo com suas tradições. Mas quando a jornada baseada numa crença começa a pôr em risco a vida das pessoas que ainda estão lá – “Você vai trocar os vivos pelos mortos?!”, questionam-no – ; nesse ponto, cresce a indignação pelo personagem. Ao final, Saul parece mais que louco. Enigmático como alguns aspectos da trama, o sorriso final de Saul é sádico, irônico, satisfeito, até. E a respeito de seu significado, só pode dizer o espectador.

O longa-metragem foi todo filmado no formato 4×3, o quê causa uma sensação claustrofóbica acentuada pelos sons crus de gritos e todo tipo de violência borrada ao fundo, com muita movimentação de câmera. Saul está sempre em primeiro plano, parcialmente tampando as ações – na maioria vezes de costas, com o “X” vermelho marcado no casaco, feito um animal caminhando para o abatedouro. Os crimes estão na periferia, em segundo plano. O que se mostra aqui é o ser humano.

“Filho de Saul” não se enquadra em cinema de entretenimento. Ao sair da sala, a impressão é de estranheza; toda vez que reflito sobre seus os detalhes, gosto mais dela.

9/10

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