Anomalisa

anomalisa-098_0Por Alice Lapertosa

Há alguns anos atrás surgiu na área de pesquisa em animação digital um fenômeno curioso: o avanço de recursos permitiu aos desenvolvedores criar bonecos extremamente semelhantes ao ser humano, com movimento, textura de pele e expressões faciais. Isso criou um mal estar generalizado, pois não eram mais claramente desenhos ou apenas bonecos. De fato, pareciam protótipos bizarros de pessoas mecanizadas. Essa é a impressão – proposital – que causam os personagens de “Anomalisa”, ressaltada pela linha que corta seus rostos na altura dos olhos e desce lateralmente pela mandíbula, evocando visualmente máscaras sob os rostos. Quando enfileirados em mesas de escritório, parecem robôs numa linha de montagem.

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Na trama, Michael Stone (na voz de David Thewlis) é referência na área de atendimento ao cliente. Ele está viajando para dar uma palestra sobre seu último livro de sucesso. Ironias nem um pouco à parte, Michael é um sujeito nervoso, tem pesadelos ao dormir e se sente desconfortável perto de outras pessoas. Ele tenta interagir com a ex-namorada, mas lhe falta tato, paciência e talvez interesse. O mundo para Michael é entediante – uma mesmice representada metaforicamente pela voz de Tom Noonan, que dubla todos os outros personagens além dele e de Lisa (Jennifer Jason Leigh).

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Lisa é uma anomalia, uma voz diferente em meio à multidão amorfa. Quando a ouve, ao longe, Michael sai batendo de porta em porta do hotel até encontrar a jovem alegre e espontânea. Receosa no início, Lisa começa a estabelecer uma relação profunda com seu ídolo, que por sua vez experimenta alívio e contentamento ao vê-la cantando. A voz de Lisa é tão bonita… até o dia seguinte.

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Profundamente inspirado e crítico, o filme é escrito e dirigido por Charles Kaufman (roteirista de “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, “Quero ser John Malkovich” e “Adaptação”). É doce e delicado, ao mesmo tempo esquisito, sem nunca deixar de lado a crueza nos diálogos e ações – os personagens falam de amor, de auto-conhecimento, de solidão; há uma cena inteira de sexo cujo andamento foge do tempo cinematográfico. As relações com a vida parecem velcro procurando a cola da realidade e se “Anomalisa” tivesse cheiros, seriam naturalmente semelhantes aos do ser humano. E com direito às inúmeras possibilidades de um não-final.

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Curiosidades: Uma das parcerias do projeto é entre Kaufman e Dan Harmon – criador da série Community -, e foi financiado através de crowdfunding.

10/10

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