A Grande Aposta

Por Alice Lapertosa

“A Grande Aposta” é um dos filmes mais complicados que já assisti. Encorajador, né? Também é um dos mais inteligentes. Então a menos que você trabalhe em Wall Street, seja um expert em economia e/ou pesquisador-abutre de crises financeiras, aconselho umas horinhas de pesquisa no Google (divirta-se!) ou assistir do lado de um coleguinha paciente que seja bem mais informado sobre o assunto que você (eu escolhi a segunda opção). É sério. Você vai querer se preparar para esse filme. Vamos lá?

EUA, segunda metade da última metade do século XX. Bancos não eram um negócio lá muito rentável, trabalhavam com opções de baixo risco e baixo retorno, como as hipotecas imobiliárias. E como elas funcionam? Bem, você quer comprar uma casa mas não tem dinheiro, então alguém compra essa casa e te deixa usar por um valor pagável em váaaarias prestações, geralmente com correção. No final de todas elas, a casa passa a ser sua (aqui no Brasil isso é proibido, você pode fazer um empréstimo para pagar um imóvel, mas ele é seu, e não do banco).

Milhares de pessoas comuns pagando prestações baixas ao longo de muitos anos. Entediante aos olhos dos investidores, certo? Até perceberem que, em grande escala, era lucrativo. Afinal, quem não precisa de um lugar pra morar? E quem vai deixar de pagar a hipoteca e perder esse lugar, além de todo o dinheiro já investido? Genial e estável. De repente um banco podia ser muito rentável. Começaram a negociar essas hipotecas agrupadas em títulos imobiliários (conjuntos de várias hipotecas) e, como era um bom negócio, foram vendendo esses títulos, todo mundo queria comprar e os preços foram lá em cima.

Só que as casas não aumentaram, ficaram mais bonitas ou ganharam jardins. Só “valiam mais” na complicada lógica abstrata do mercado financeiro. E, por volta de 2007, em meio à um período político-social instável aliado ao reajuste das parcelas (a maioria não era fixa, lembra?), as pessoas começaram a não pagar a hipoteca. Então os bancos, para manter o mercado estável, venderam com menos exigências, pra quem precisava mais e tinha ao menos como pagar. Essas hipotecas menos seguras chamam-se sub-primes, e poderiam vir no meio de um título com outras hipotecas melhores. Esses títulos tinham uma agência responsável pela classificação do grau de risco e retorno, mas eram empresas privadas que se rendiam à competição. Além do mais, ninguém era louco de olhar hipoteca por hipoteca.

Exceto Michael Burry (Christian Bale), que, ao olhar caso por caso, percebeu a fragilidade do sistema e resolveu comprar swaps (a grosso modo, uma espécie de apólice de seguros) desses títulos. Todos os grandes bancos morreram de rir dele – assim como o diretor Adam McKay parece rir deles, e, num nível mais sutil e ácido, da humanidade em geral. De fato, as tais swaps nem existiam para títulos imobiliários, então os bancos criaram-nas especialmente para Burry, o lunático que vai apostar contra um negócio garantido.

Somente um funcionário chamado Jared Vennett (Ryan Gosling) parece ter entendido o raciocínio, e vai em busca de novos compradores para suas swaps. Por acaso, encontra Mark Baum (Steve Carell) e sua equipe, que começa a fazer o mesmo que Burry. Pouco depois, dois jovens – Jamie (Finn Wittrock) e Charlie (John Magaro)-, pedem ajuda ao envelhecido e cansado Ben Rickert (Brad Pitt), ex-especialista. Eles leram a respeito e também decidem apostar no negócio.

A partir daí, acompanhamos os três grupos de investidores com as histórias intercaladas, camadas e camadas de interpretações visuais e sonoras: clipes de artistas famosos, outdoors de comediantes no fundo do quadro, uma pessoa ou objeto sempre atrapalhando, muito ruído. Ouvimos uma voz fraca da TV no fundo, o diálogo de Jamie e Charlie, depois a voz da TV tão alta quanto eles, dando a notícia da crise iminente. Zooms, cortes, granulado, todos os recursos de montagem e finalização utilizados de forma incrível, criativa e competente. Tudo em “A Grande Aposta” grita “estranho” e “real”.

E o melhor: é permeado por humor, até nas explicações mais cabeludas sobre CDO (quando o pacote de títulos não vende, é destrinchado e vendido com “nova embalagem”), synthetic CDO (quando alguém está ganhando sem parar numa mesa de cassino por exemplo, as pessoas de fora começam a apostar no palpite dessa pessoa que pode ganhar ou não, ao invés de jogarem elas mesmas), I.S.D.A (um acordo quase impossível para que pequenos investidores possam fazer negociações de grande porte) e SEC (a agência que regula e investiga o mercado financeiro americano). Uma obra-prima.

10/10

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