Steve Jobs


Por Alice Lapertosa

Quando interpretou o fundador da Apple em 2013, Ashton Kutcher impressionou pela semelhança física entre ambos. O Jobs de Michael Fassbender impressiona por outro tipo de semelhança, mais sutil: alguma coisa no ritmo da fala, do olhar. Do corpo magro enfiado na camisa preta de manga comprida e gola rolê, os óculos redondos de aro fino, seu jeito de andar, de parar. Kate Winslet está intrigante como a diretora de marketing Joanna Hoffman, uma profissional competente e necessariamente dura que também possui a capacidade de empatia da qual Jobs era totalmente desprovido. O resto do elenco também não faz feio: Seth Rogen como o co-fundador Steve Wozniak; Michael Stuhlobarg como o engenheiro Andy Hetzfield; e Jeff Daniels no papel do ex-CEO John Sculley.

Diante do excelente trabalho de atuação do elenco, ao sair do cinema, a sensação é de ter visto um filme ruim. Por quê?

Talvez seja o roteiro  que não empolga, não sai do lugar. Vemos Jobs como um arrogante inovador no lançamento do Macintosh em 1984, depois no NeXTcube em 1990 e, por fim, na apresentação do primeiro iMac  em 1998. A proposta do roteirista Aaron Sorkin (mesmo da “Rede Social”, sobre o Mark Zuckenbergh e o Facebook) é deslizar o personagem por essas três épocas importantes de sua vida. Ironicamente, não há movimento nem mudança, o Jobs de 84 poderia facilmente ser confundido com o de 98. Ele tem uma relação conflituosa com a filha Lisa, lida com seus empregados e apresenta um novo produto. E se repete, pelas três passagens. Como o foco da trama são os personagens e não a tecnologia e o protagonista não faz nada significante que seja bem explorado, depois de alguns minutos o longa fica bem chato.

Vale lembrar queas situações não têm compromisso com a realidade tangível, e sim com as personalidades históricas, recriando situações modificadas ou que poderiam ter acontecido. A idéia pode ser relacionada com a visão distorcida de Jobs acerca da realidade, várias vezes frisada pelo escritor Walter Isaacson na biografia “Steve Jobs” (2011). Na verdade, todos nós vivemos a interpretação dos fatos e não os fatos em si, mas ele era tão diferente que tal detalhe destoou a ponto de ser notado.

Estrutura de potencial interessante, não funcionou. Nem mesmo com as qualidades técnicas impecáveis. A melhor coisa do conjunto é a relação de Jobs com Joanna. E a pior é a redenção final. Aparentemente, deram cachaça estragada para toda a equipe de produção entre os últimos dez e cinco minutos do segundo tempo: Jobs começa a esquecer seu palco e brota um amor familiar discrepante do tom do filme, da coerência dos personagens, da própria paciência do espectador.

5/10

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