Spotlight – Segredos Revelados


Por Alice Lapertosa

Redação do Boston Globe – considerado o jornal americano de maior circulação no território de Massachusetts; – o novo diretor decide não publicar a reportagem sobre um padre pedófilo da cidade. Uma sábia e delicada decisão que evitou que essa história real caísse no esquecimento dos bodes expiatórios e da banalização cotidiana.

Com o objetivo de investigar a fundo se aquele era um caso isolado, uma competente equipe de repórteres que inclui Mike Rezendes (Mark Ruffalo), Sasha Pfeiffer (Rachel McAdams), Matt Carroll (Brian D’Arcy James) e Walter Robinson (Michael Keaton) tem como ponto de partida um advogado e seus clientes. Rapidamente, eles se vêem envolvidos numa enchurrada de informações – imparciais ou não – sobre a rede de vítimas, fraudes, mentiras, manipulação e impotência que impera no país.

Eles descobrem não cinco ou seis, mas cerca de noventa casos apenas na cidade de Boston, que foram encobertos pelos superiores da igreja, pelos advogados, pelos gestores de colégios, pela própria comunidade abusada. Os criminosos,  quando muito indiscretos, eram afastados “por motivos médicos” e posteriormente transferidos para outras igrejas. E as famílias, os amigos dessas vítimas sufocadas pela tradição? As próprias crianças? Geralmente pobres, com famílias problemáticas, elas têm a atenção momentânea da figura que os próprios adultos veneram. Como poderiam se defender?

Perigosas, todas essas questões que “Spotlight” vai tecendo até envolver por completo o espectador. Há algo de podre na imagem dos parquinhos com crianças brincando e as imponentes igrejas no quarteirão de trás. Uma instituição milenar profundamente cravada no dia-a-dia da sociedade. Mas o olhar sobre ela muda à medida em que essa estrutura engenhosa vai tomando forma e prosseguem as investigações.  A câmera nada mais faz do que ser apontada para a frente, e tinha merda espalhada por todo o quadro. Merda que já estava lá mas quase ninguém quis, conseguiu ou simplesmente olhou.

Inclusive o próprio jornal, que já havia recebido denúncias anteriormente ignoradas sem razão concreta. O longa-metragem alfineta todos os lados, assim como trata-os com respeito. Há cenas em que as pessoas precisam se deparar com a reportagem do que acontecia em suas esquinas, e a abordagem é delicada e respeitosa, assim como os apontamentos sobre pessoas comuns e seus erros.

Dentre muitas das cenas marcantes, há a situação em que os documentos da igreja relativos ao processo em andamento são declarados públicos, e ainda assim Mike quase não consegue copiá-los, porque, você entende, “é um assunto delicado”. O repórter precisa pedir autorização especial de um juiz e desembolsar uma graninha de propina para convencer o atendente a deixá-lo xerocar as pastas, seqüência forte que instiga a pergunta: que crença, força, que convenção invisível é essa que passa por cima das relações humanas e da própria lei?

A representação suprema dessa estrutura surge na figura de um padre que, quando questionado por Sasha, admite ter se aproveitado de crianças exercendo sua função. Ela pergunta se ele admite ter estuprado aqueles meninos e o padre responde, muito sereno: “Não, nunca estuprei nenhum deles, apenas tirávamos uns sarros”; “Você sabe a diferença?”, retruca a repórter, atônita. Claro que sabia, ele próprio havia sido estuprado.

O diretor Tom McCarty comanda a orquestra com competência e bom gosto, jamais forçando um sensacionalismo desnecessário. O desenrolar dos fatos é marcante por si só. Os personagens, cada um à sua maneira, enfrentam sentimentos de indignação, frustração, ou satisfação, sem sair do tom nem falar mais alto que os outros elementos da trama.

Spotlight é um filme muito bem encaixado, em todos os sentidos. Independente da preferência de gênero ou assunto, há de se admitir que esse relato ficcional da realidade amarra suas pontas sem cometer excessos nem faltas, trabalhando num território perigoso: a linha dos assuntos que incomodam. Seu resultado é brilhante.

 10/10

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