As Sufragistas

Por Alice Lapertosa

Inglaterra, início do século XX. Os apelos pacíficos em prol dos direitos das mulheres – principalmente ao voto – são relevados pela sociedade, que acredita não possuírem equilíbrio emocional necessário para tomar decisões importantes para o país. Um pequeno grupo liderado por Emmeline Pankhurst (Meryl Streep) começa a jogar pedras em vitrines e cometer outros atos de vandalismo na tentativa de chamar atenção. Severamente repreendidas, elas são espancadas, presas e largadas nas portas de casa para que todos as vissem chegando com a polícia. Ser uma “Sufragista” significava não respeitar o marido, não cumprir os deveres como mãe e dona de casa e ser vista pelas outras mulheres, pelos vizinhos e pelos patrões como estorvo, digno de vergonha.

Maud Watts (Carey Mulligan) é uma mulher sem nenhuma orientação política que trabalhou a vida inteira na mesma lavanderia ganhando menos que o marido e tendo sofrido abusos do patrão durante a adolescência. Ao acompanhar uma de suas colegas, termina depondo sobre as condições de trabalho das mulheres e começa a pensar sobre sua situação. “O que aconteceria se tivéssemos uma filha?”, pergunta ao marido antes de dormir. “Ela teria a mesma vida que a sua.”, ele responde, óbvio.

Maud começa a imaginar uma perspectiva melhor, embalada pelas idéias de outras ativistas como Edith Ellyn (Helena Bonhan Carter), farmacêutica que sempre quis ser médica e preside as reuniões das mulheres com a cobertura do marido. Ela junta-se ao movimento e logo quase imediatamente começa a sofrer as conseqüências sociais e pessoais de sua escolha.

A Inglaterra escura e desbotada da época está muito bem representada nos cenários, nas roupas e na fotografia. O elenco entrega excelentes atuações – principalmente Carey Mulligan, cujos olhos brilhantes e silenciosos são de emocionar em cenas mais duras. Toda a apresentação do contexto histórico é tecida ao redor do drama dela. Por isso, às vezes, temos informações muito fragmentadas e distantes: a própria Emmeline Pankhurst, figura que inspira a todas, aparece rapidamente e não entendemos o porquê de tanto alvoroço ao redor dessa mulher.

Mas a pouca profundidade a que nos leva os eventos é atropelada pela força do tema. É indignante tomar consciência de que, em algum tempo-espaço, um ser humano teve que brigar para ser considerado como tal. Intragável é saber que a situação persiste, mudando apenas os grupos e as causas. Longe de querer discutir se as pessoas votam ou não, o longa-metragem abraça um tema de muito mais impacto ao mostrar que um senso comum engessado é perigoso quando valida a importância de indivíduos pelos diferentes grupos aos quais pertencem. As pessoas tomam consciência. E revidam, como vemos acontecer repetidamente ao longo da história.

Como filme, “As Sufragistas” é apenas regular. Como discussão de relevância social, é indispensável.

7/10

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