Pegando Fogo

Por Alice Lapertosa

Adam Jones (Bradley Cooper) é um ex-chef problemático que afundou nas drogas e arruinou sua carreira e a relação com todos os amigos e namorada. Tempos depois, sóbrio e arrependido, viaja a Londres para convencer Tony (Daniel Brühl) a lhe ceder a liderança do restaurante de seu hotel. Ele está determinado a conseguir a terceira estrela do Michelin, melhor classificação possível no guia mundialmente respeitado.

Após uma “ajudinha” da amiga repórter Simone (Uma Thurman, em participação relâmpago), consegue o cargo e sai pela cidade recrutando sua equipe: David, um jovem iniciante que lhe empresta a casa para dormir enquanto Adam está sem um centavo; Max (Riccardo Scamarcio), antigo amigo que acaba de sair da prisão; Helene, promissora sub-chefe de outro restaurante; e Michel (Omar Sky), antigo colega de trabalho a quem Adam prejudicou seriamente enquanto estava sob efeito das drogas e sequer se lembra.

Com todos eles devidamente trabalhando na cozinha de Adam, o restaurante abre suas portas, numa estréia deveras fraca. Ele precisa dar um jeito de melhorar a situação gastronômica e ao mesmo tempo fugir dos traficantes a quem deve uma grande quantia de dinheiro, fazer exames de sangue semanais para provar que permanece limpo, tentar se reaproximar das pessoas através de um romance com Helene e provocar Reece, antigo chefe rival e líder de um restaurante que já possui as almejadas três estrelas.

“Pegando Fogo” tem algumas peculiaridades interessantes, como a punição que Adam impõe a si mesmo – que não fica exatamente clara, mas a contagem no caderninho intriga. Assim como o não-tão-secreto-assim amor platônico de Tony e como Adam retribui com outro tipo de carinho, a oferta de café-da-manhã e o selinho mais atrapalhado ainda. Para quem não conhece o dia-a-dia da culinária sofisticada, o longa retrata a forte pressão dentro das cozinhas, a rotina exaustiva, o espaço nulo para erros.

Já os personagens – principalmente o principal – são carismáticos e queremos acompanhá-los, mas a relação entre eles e suas ações é muito artificial. Adam é inescrupuloso, pressiona as pessoas à sua volta para fazerem o que quer e usa de meios duvidosos para convencê-las quando não consegue. Até aí tudo bem, quem não gosta de um bom personagem moralmente duvidoso? Só que o resto do mundo se dobra a ele muito fácil. Não importa se Adam gritar, ofender, sabotar, roubar… sabemos que instantaneamente será perdoado. Com a exceção do conflito que antecede o fim do longa – situação quase óbvia devido à falta de motivos aparentes do personagem estar ali – ainda assim, somos pegos de surpresa, pois acostumados com a falta de motivação plausível das ações, não desconfiamos.

O dinheiro do patrocínio cai do céu junto com a personagem de Emma Thompson – e fica na tela tempo o suficiente para sabermos que existe e não nos importarmos. Tony e Helene discutem a dívida de Adam. Tony lhe diz que tentou emprestar o dinheiro, mas ele não quer. Fomos informados que Adam possui orgulho e certa honra, que não é sempre que vai se aproveitar dos amigos. Mas isso é entregue como informação engessada, nada é mostrado ou sentido.

Tampouco temos medo dos traficantes que o ameaçam, estamos muito longe da situação. Adam não discute, não sente medo. Os homens – nada – ameaçadores aparecem na porta e vão embora sem causar reação alguma, nem em Adam, nem no espectador. Na única vez em que apanha, parecem ser  machucados de brincadeira que resultam no terrível clichê romântico “tire sua camisa, pois eu, pessoa que já não sou nem um pouco ocupada ficarei aqui passando algodão na sua barriga, já que não sou enfermeira e não sei fazer curativos mesmo. De fato, não há nada que eu possa fazer por você além de usar essa situação ridícula de desculpa para demonstrar nossa atração.” Vale apontar que a própria presença de Helene lá não faz sentido. Ela se mostra uma mulher independente e talentosa que recusou o convite e, de repente, seu ex-chefe resolve cedê-la – novamente por adoração inexplicável à Adam.

Fiquei torcendo para que o conflito final fosse verdadeiro, algo que soasse crível.

6/10

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s