No Coração do Mar


Por Alice Lapertosa

Um jovem Herman Melville (Ben Whishaw) está em busca da inspiração para escrever sua futura obra-prima da literatura norte-americana, Moby Dick. Munido de um caderninho de anotações e uma quantia considerável em dinheiro, convence o velho bêbado Thomas Nickerson (Brendan Gleeson) a contar a história real do naufrágio do baleeiro Essex, do qual é o único sobrevivente ainda vivo.

Ilha de Nantucket, Massachusetts, 1820. A demanda por óleo de baleia move uma poderosa indústria em alta. Owen Chase (Chris Hemsworth), prestes a ser pai, aceita o cargo de 1º imediato num baleeiro, com a promessa de que será capitão na próxima viagem. Navegador competente e respeitado, sua tarefa real é garantir o sucesso da empreitada comandada pelo inexperiente e arrogante George Pollard (Benjamin Walker), cuja família rica lhe garantiu a posição. Na tripulação está nosso narrador, o jovem Thomas Nickerson (Tom Holland), na época com quatorze anos.

Nickerson começa seu relato dizendo que não é uma história sobre o naufrágio ou a suposta baleia, é uma “história de dois homens”. O atrito entre capitão e imediato começa bem antes da embarcação, com a cena forte e silenciosa de Pollard – através do vidro – presenciando a surpresa e revolta de Chase ao saber que a promessa de ter seu próprio navio seria atropelada pela incômoda presença do burguês.  Chase termina por ceder, numa inquieta aceitação justificada pela necessidade.

A cena instiga curiosidade, e seguimos ambos até alto mar. Porém, logo vem a primeira discordância – que leva o navio ao meio de uma tempestade – e o roteiro deixa claro que a relação será tratada superficialmente em situações repetitivas e resolvida sempre com muito descaso. Depois que o Essex atinge alto-mar, o melhor personagem da trama é a baleia. Após meses procurando-as, os homens estão cada vez mais desanimados. Estima-se que a caça excessiva espantou-as e ninguém consegue acertar exatamente pra onde foram.

Ao atracarem para repor suprimentos numa taverna, ouvem de um capitão maneta sobre um demônio, uma gigantesca baleia branca que naufragou seu navio. Pollard e Chase ficam extasiados pela possibilidade de milhares de barris de óleo e o retorno triunfante para casa. O Essex segue até perto do equador, onde encontram centenas de baleias e a cachalote manchada de branco que os ataca, persegue e dizima. Há algo incômodo na baleia: um senso de proteção e vingança. Sua violência direcionada e incansável remete aos seres humanos que a caçavam. Numa das cenas mais bonitas do longa, Chase, numa troca de olhares, finalmente parece perceber, com medo e admiração, que são semelhantes – e que ele é o mais fraco. A baleia desliza entre dois botes, sem esbarrar em nenhum.

“No Coração do Mar” foi dirigido por Ron Howard (de “Uma Mente Brilhante), que já havia trabalhado com Chris Hemsworth em “Rush – no limite da emoção”. O roteiro é baseado no livro homônimo lançado em 2000 pelo escritor Nathaniel Philbrick sobre o naufrágio do Essex no pacífico, mesmo fato que inspirou Melville a escrever Moby Dick no século XIX.

O roteiro, já apontado anteriormente, força a barra: em diálogos toscos, em conclusões instantâneas de meia frase sobre a tentativa do homem de subjugar a natureza como inferior (completamente sem texto, contexto, desenvolvimento ou sentido momentâneo). Salvam-se as cenas que a natureza protagoniza – tanto o mar quanto a baleia – duas situações cômicas de bêbados e a estranha sucessão de ações contrastantes que permite uma maior tridimensionalidade ao personagem de Pollard. O sensacionalismo de Nickerson atrapalha diversas vezes o impacto do relato, até seu fim. Hollywood parece que não aprende: quanto mais repete o quão horrível é algo, mais nos acostumamos, menos nos importamos.

7/10

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