Peter Pan


Por Alice Lapertosa

“Peter Pan” começa bem antes de Wendy, da Sininho e do crocodilo que comeu a mão do Capitão Gancho. Abandonado pela mãe (Amanda Seyfried), Peter (Levi Miller) vive num orfanato inglês perdido em meio à II Guerra. Menino teimoso de gênio forte, está sempre em conflito com as freiras que tomam conta do lugar, todas rígidas e mesquinhas. Certo dia, ele começa a notar que alguns de seus colegas estavam sumindo e descobre que as freiras estão se livrando dos órfãos. No meio da madrugada, a bandeira pirata é hasteada por elas e logo aparecem navios voadores para levá-los à Terra do Nunca.

A primeira impressão da Terra do Nunca é no mínimo interessante: os órfãos estão sendo seqüestrados para trabalharem em minas subterrâneas controladas pelo bizarro Barba Negra (interpretado por Hugh Jackman, o Wolverine da franquia “X-Men”). Logo que chega, Peter se depara com uma multidão de escravos com picaretas cantando “Smells Like Teen Spirit”, guiados pelo pirata. Durante o trabalho nas minas, o garoto conhece o carcereiro Sam (Adeel Akhtar) e Gancho (Garrett Hedlund, de “Na Estrada”), que também é prisioneiro e planeja fugir roubando um dos navios voadores. Gancho quer voltar para casa; Peter precisa encontrar a mãe, que ele acredita estar viva esperando-o no Reino das Fadas; Sam não sabe o que quer, e juntos eles partem em busca dos nativos enquanto tentam se livrar dos piratas.

O universo de Peter Pan foi criada no início do século 20 por J.M. Barrie com a peça “Peter e Wendy”, sendo posteriormente publicado um livro homônimo. Teve inúmeras adaptações para cinema. Outras tantas para musical, com o papel de Peter curiosamente interpretado pelas atrizes Mia Farrow (em 1976) e Allison Williams (em 2014). Rendeu a famosa animação da Disney de 1953, além de releituras como “A Volta do Capitão Gancho” – dirigido por Spielberg e estrelado por Robin Williams – que conta a vida de Peter adulto e casado com a filha de Wendy, e “Em Busca da Terra do Nunca”, sobre os bastidores da peça original com Johnny Depp no papel de J.M. Barrie. Entre 1990 a 2004, o quadrinista francês Loisel publicou sua versão adulta sobre o menino que não queria crescer (extremamente recomendado, saiu no Brasil em três edições de capa dura pela Editora Nemo). Em 2015, cerca de cem anos após a criação do personagem, a Warner lança seu longa-metragem em 3d, dirigido por Joe Wright (“Hanna” e “Orgulho e Preconceito”), com roteiro de Jason Fuchs (“A Era do Gelo 4”).

A atuação de Jackman como Barba Negra é excêntrica e engraçada. Já Gancho é uma versão bem humorada do Indiana Jones – que surpreendentemente combina com o contexto; Levi Miller também não fica pra trás. Só Rooney Mara (“Millennium: os homens que não amavam as mulheres”) ficou com o papel sem graça da Princesa Tigrinha, uma guerreira que aparece para salvá-los e acaba sem ter muito o que fazer além de acompanhar Peter e servir de par insosso para um romance sem espaço nem significado com Gancho. De fato, após o encontro dos piratas com os selvagens, o longa-metragem perde bastante o ritmo. Afundamos num mundo de fadas minúsculas cuja participação é cair em volta dos inimigos feito areia e projetar no ar uma versão grotesca da mãe de Peter.

Outro incômodo da produção é que ela errou a mão em pequenos detalhes que distinguem o que é de mau gosto do que é inovador. Certa vez, um sábio professor de fotografia fez analogia entre as ferramentas criativas disponíveis e potes de tempero. Alguns temperos se misturam, outros não. A quantidade também é crucial: uma pequena pitada de sal faz de um doce menos enjoativo ou pode estragá-lo completamente, a diferença é sutil entre a aldeia colorida combinando com o cenário lindo da Terra do Nunca (beleza acentuada pelo 3D) e um grupo que parece saído do último bloco de carnaval. Quando Cara Delevingne (“Cidades de Papel”) faz uma pequena aparição creditada como “sereias”, o olho humano rejeita a estranheza de uma mesma pessoa duplicada na tela; até gêmeos têm pintas, cabelo, roupas ou modos diferentes. As sereias de “Peter Pan” parecem bonecas artificiais. Assim como a multidão das minas cantando. A idéia é muito boa, poderia ilustrar a despersonificação dos escravos, reduzidos a robôs trabalhadores. No entanto, eles parecem radiantes ao cantar, como se estivessem de férias!

Caso o espectador consiga não se ater a tais detalhes, Peter Pan rende uma certa dose de entretenimento. Há dúvidas se irá funcionar para as crianças, já que o roteiro fica pulando meio desajeitado entre seriedade e fantasia, sem conseguir achar seu meio-tom.

6/10

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s