Expresso do Amanhã

Por Alice Lapertosa

Uma locomotiva auto-sustentável circunda o planeta Terra, todo congelado após uma tentativa fracassada de impedir o aquecimento global. Separado por vagões, o que restou da humanidade mantém rígidos sistemas de classes: na frente, os ricos esbanjam conforto. Na traseira, a população amontoada apodrece, confinada.

Os pesados portões se abrem e guardas armados iniciam a contagem e distribuição de barras de proteínas. “Temos algum violinista aqui?!”, os guardas anunciam. Detrás da multidão, um senhor e uma senhora idosa respondem timidamente. “Qual dos dois?”, os guardas perguntam. “Os dois.” Mas só necessitam de um violinista. Brutalmente, a mulher é espancada e o homem arrastado para fora do vagão.

Edgar (Jamie Bell, de “Billy Elliot”), revoltado, pretende revidar. Curtis (Chris Evans, de “Capitão América”), o impede. Sério e frio, diz que ainda não chegou a hora. O vagão tem pouco espaço para seus habitantes e nenhuma janela. É sujo, desesperador. Em meio à pessoas mutiladas e bebês que dormem em galões, Curtis e Edgar planejam tomar todo o trem e chegar à sala de controle da locomotiva.

Eles recebem ajuda do velho Gilliam (John Hurt), uma espécie de mentor cujo braço e perna direitos são pedaços de ferro, e de Tanya e Andrew. Ambos tiveram os filhos pequenos levados pelos guardas. Após resgatarem o engenheiro que criou os portões de segurança do trem (Kang-Ho Song, o detetive de “Memórias de um assassino”) e sua filha Yona (interpretada pela coreana Ah-sung Ko, encantadora), o grupo começa a rebelião. Destaque também para Tilda Swinton, incrível, divertida e esquisita no papel de Mason.

Dirigido pelo coreano Joon-Ho Bong, “Expresso do Amanhã” é cheio de detalhes curiosos. No meio de uma cena violenta num dos vagões, há uma seqüência em câmera lenta com closes de olhares. O ritmo e a brutalidade com que o trem avança pela neve em trilhos pequenos e finíssimos parece refletir a atmosfera de seu interior. Pouco se sabe sobre os personagens além do que se extrai dos gestos e ações. Em meio a esse silêncio pessoal, as poucas frases sobre si mesmos são extremamente impactantes.

“Expresso do Amanhã” parece ter um pé no cinema e outro nos games e quadrinhos, nos quais é mais comum essa estrutura rápida e narrativa focada na ação que conta histórias. Sem perder tempo com retórica, as explicações ficam a cargo do espectador. O longa-metragem pode ser visto como uma sucessão de lutas ou pode-se interpretar as entrelinhas, a crítica direta e econômica à natureza humana, suas crenças e estruturas. O nível de interpretação fica à deriva, sem pressões ou apontamentos redundantes, prática excitante e incomum na grande maioria dos filmes em circuito comercial atualmente.

9/10

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