Cidades de Papel

Por Alice Lapertosa

Cidades de Papel são cidades falsas, inseridas entre lugares reais nos mapas. Elas não existem, são criadas pelas empresas de cartografia para verificar se as concorrentes estão copiando seus produtos. Porém, antes de desaparecer, Margo Roth Spiegelman deixa gravado na parede: “Você vai para as cidades de papel e nunca mais volta”.

Quentin é secretamente apaixonado por Margo. Eles costumavam andar de bicicleta bairro onde moravam, Jefferson Park, até que um dia, quando tinham nove anos, encontraram um homem morto no parquinho.  Anos depois, mesmo morando um na frente do outro e estudando no mesmo colégio, eles mal se falam.

Quentin (interpretado por Nat Wolff, o excelente amigo cego de Gus em “A culpa é das estrelas”) é uma espécie de nerd que sempre tira notas altas, nunca falta às aulas e fica até mais tarde na escola em companhia de seus amigos Radar – cujos pais têm uma enorme coleção de Papais Noéis negros – e Ben, ou Ben Mija-Sangue, como ficou conhecido após um fatídico incidente na quinta-série. O trio é responsável pelas passagens mais divertidas do longa, cantando Pokémon ou imitando as vozes dos filmes, se dando mal com as meninas que gostam e fazendo piadas entre si.

Já Margo (Cara Delevingne, incrível em sua interpretação sagaz do temperamento complexo e mutifacetado da personagem), cresceu e tornou-se a garota popular de quem todos gostam. Entretanto, mantém seus segredos: nunca deixa as pessoas entrarem em seu quarto, foge de casa esporadicamente e volta cercada de histórias das aventuras que viveu. Certa madrugada, Margo aparece na janela de Quentin e pede sua ajuda para realizar algumas coisas importantíssimas e inadiáveis, como sair por aí jogando peixes e pichando “M” de Margo em propriedades alheias.

Após a noite mais importante da vida de Quentin, ele se despede, imaginando como tudo seria diferente no dia seguinte. Durante as aulas, procura Margo, mas ela não foi à escola no dia seguinte. Nem no próximo. A polícia vai atrás de Quentin para obter informações, já que ele foi o último a ver Margo Roth Spiegelman antes dela desaparecer da face da terra. Os pais de Margo dizem que ela sempre deixa pistas para trás, e Quentin e seus amigos começam uma jornada para encontrá-la através de mapas, pôsteres pregados do lado de fora de persianas, mensagens em discos, livros e papeizinhos escondidos na dobradiça da porta.

“Cidades de Papel” tem um pequeno charme, mas revela-se bem mais fraco que seu anterior, “A Culpa é das Estrelas”, também adaptado do livro de John Green pelos roteiristas Scott Neustadter e Michael H. Weber. O longa peca principalmente em profundidade, suas seqüências são tão enxutas que pouca ou nenhuma emoção se destaca. Na cena em que Quentin chora, é gritante a falta de conexão com o personagem. Constatamos – pela lógica -, que escorrem lágrimas de seus olhos. Próxima cena.

Por mais que os amigos Radar e Ben forneçam bom suporte a Quentin ao longo da trama, ele ainda ocupa a maior parte do enredo, e é muito difícil gostarmos de uma história quando o personagem principal é insípido. Quentin é um garoto chato, mas não muito. Egoísta, mas não exageradamente. Normal, mas sua rotina e relação com os pais mal aparece. Em resumo, ele é sem sal, e temos que suportá-lo enquanto nos conduz pela trama.

Longe de querer entrar na velha e tediosa discussão “quem é melhor, o livro ou o filme?”, o fato é que “Cidades de Papel” tem várias faltas: falta o equilíbrio sutil de tempo e relevância entre a leveza que dá o tom da história e os complexos e marcantes episódios que os permeiam: a morte do homem no parque, a profundidade de uma Margo impulsiva e aventureira que sempre teve muitos meio amigos mas não deixa nenhum entrar em seu quarto e compartilhar seus pensamentos sobre a falta de sentido e solidão.

Faltam características, trejeitos, especificidades que tornam os personagens mais interessantes e nos fazem sentir empatia. Falta ritmo em suas ações, Margo e Quentin parecem viver a noite mais divertida de suas vidas, nós não. Não entendemos nem sentimos o que é tão diferente, tão excitante, tão incrível. Tampouco parecem sentir os atores. A verossimilhança muitas vezes reside nos detalhes, e, num caso específico de adaptação, a falta deles talvez pudesse ser parcialmente preenchida pelas excentricidades deixadas pra trás nas páginas do livro de John Green.

6/10

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