Vício Inerente

por Fábio de Carvalho

O cinema de Paul Thomas Anderson tomou com o passar dos anos um teor progressivamente abstrato de narrativa. Filmes como Sangue Negro e O Mestre revelam um diretor extremamente capaz e seguro da condução de suas cenas, além de uma habilidade notável de explorar a psique de alguns dos personagens mais profundos do cinema contemporâneo. A decisão de transportar a tela do cinema a obra de um autor como Thomas Pynchon é de uma ambição imensa, e sou levado a crer que o filme que conseguimos, embora não seja perfeito, é uma realização notável.

Para início de conversa, Vício Inerente não se assemelha tanto ao estilo dos últimos filmes de Paul Thomas Anderson quanto a seus filmes dos anos noventa, como Boogie Nights. Aqui, o tom da narrativa é consideravelmente mais leve, e as abstrações presentes em O Mestre, dão espaço a uma aparente descontração. Porém, estamos falando de um filme cujo diretor preza muito mais por atmosfera, e construção de personagem, do que pela trama. Personagens, em Vício Inerente, são como formigas, estão por toda parte. Somos constantemente introduzidos a personagens que falam demais, confundem demais.

O protagonista Doc, um detetive particular interpretado por Joaquim Phoenix, passa grande parte do filme indo de ponto A para ponto B, cercando figuras excêntricas atrás de mais informações acerca do caso que busca resolver. Alguns lhe fornecem informações que se contradizem com outras previamente obtidas. Mas isso parece não abalar Doc. Quanto mais adentramos na trama, percebemos que o protagonista se enquadra perfeitamente em uma espécie de estereótipo de hippie paranoico, que constantemente se utiliza de drogas variadas. Ele é um “doper”, e essa característica é sem dúvida responsável por proporcionar o tom alucinado dos diálogos e sequências. Até porque a maioria dos personagens dentro do filme, estão sobre influência de drogas também. Existem momentos em que um caos absoluto reina. E é aí que Vício Inerente consegue brilhar. Paul Thomas Anderson se mostra, sem dúvida, um mestre da narrativa absurda, ao permitir que o espectador aprecie e se entretenha, embora absolutamente confuso quando os créditos finais sobem.

Doc é um personagem universal dentro do que o pequeno universo da Califórnia, dos anos sessenta e setenta, representa. A atmosfera é como uma neblina constante de maconha e olhares paranoicos. O relacionamento que o protagonista têm com Shasta, responsável por dar início a toda a trama de Vício Inerente, é sem dúvida, uma metonímia para toda a contracultura e conceitos de amor livre. Os fragmentos do laço romântico que existia nos são apresentados como representantes de um momento melhor, não só entre as duas personagens, mas também ao redor deles. Mesmo em um momento de fissura e dependência química de drogas, Doc e Shasta são capazes de viver momentos felizes juntos um do outro. Porém, no perídio em que a trama se passa, as coisas estão claramente diferentes. Doc se esconde atrás de suas drogas e procura acompanhar a rede de conspirações que lhe é apresentada com euforia e insegurança. Resta questionar se grande parte não seria puramente paranoia. E essa talvez seja a grande questão do filme.

A obra literária de Thomas Pynchon é marcada por essa ênfase no caráter informacional da contemporaneidade. Há informação constante, em excesso. Opiniões são tomadas e reforçadas como fatos, não havendo espaço para investigação crítica. Somos levados a ingerir tudo e nos dar por satisfeitos. Se perder na trama de Vício Inerente é precisamente o objetivo do diretor, porque assim também se sentem, sem sombra de dúvida, todas as personagens.  A urgência de encontrar respostas leva a uma euforia coletiva, em que já não basta encontrar a verdade, mas encontrar AS verdades. Não existem mentiras comprovadas, logo tudo pode ser realmente aquilo que Doc acredita ser: uma rede infinita de conspirações que envolvem o governo do Estados Unidos, tráfico internacional, o departamento da polícia, redes imobiliárias e, seu antigo romance, Shasta. Talvez isso seja o que Doc quer crer. Porque, nos é apresentado de forma bem clara – na primeira cena, precisamente – que a vida do personagem Larry “Doc” Sportello, não possui muito significado naquele momento. E ele se agarra desesperadamente a tudo aquilo que pode, para não cair em uma espécie de vazio pós-hippie, que seria o que, se não, o grande medo de toda uma geração de “dopers”.

8/10

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