Sniper Americano

Por Fábio de Carvalho P.

Sniper Americano é um filme devastador. A experiência que o filme provoca é física. O drama é íntimo e ao mesmo tempo barulhento e desesperado. O personagem de Chris Kyle não é um herói, não existem heróis na guerra. Existem seres humanos, sem maniqueísmos. A obra de Clint Eastwood foi montada como uma homenagem, mas eu me recuso a aceitar essa faceta, não me parece justo. Eu assisti outro filme. O filme que eu assisti me fez sair tremendo e sem ar do cinema, me tocou de forma profunda e me levou a uma reflexão essencial sobre a condição humana.

As motivações das personagens de Sniper Americano são talvez o objeto mais interessante de estudo dentro da trama do filme, visto que são um fluxo constante. Afirmar que Chris Kyle matava por ódio, por medo, é só parte da história. Honra, fidelidade, patriotismo entram em jogo também, mas de uma forma quase doentia. É importante observar o absurdo que a guerra representa na existência humana. E na vida de Chris Kyle, por um certo tempo, é tudo que ele têm. Enquanto nos campos de batalha ele se esforça para cumprir seu dever oficial, seu coração inicialmente se encontra em casa, em sua mulher, seu filho. Mas a medida que o filme progride, cada vez mais ele se encontra preso àqueles prédios abandonados e imagens perturbadoras que o confrontam. Suas motivações passam a ser garantir a honra de seus companheiros dentro e fora do campo de batalha, e com isso sua relação familiar vai caindo aos pedaços.

A ambientação do filme transita entre paisagens tipicamente americanas – mais especificamente Sul/Centro-Oeste estadunidenses – e a aridez do Oriente Médio. Ambas são como metáforas para o estado de mente de Kyle. É um filme muito sóbrio, como a maioria da obra de Clint Eastwood. Essa sobriedade serve ao propósito de transmitir o psicológico da personagem principal, fragmentado, mas ainda assim disciplinado. Mas nem toda a disciplina permite que Kyle permaneça coerente durante toda a história. Seu ego têm um papel importante nessa questão. Seus assassinatos são celebrados e admirados. “A Lenda” seus companheiros o chamam.

Bradley Cooper oferece uma atuação competente, talvez sua melhor. E o ritmo do filme é bem compensado, dividindo as partes de acordo com os “tours” que Kyle realizou no Iraque. É cinema dirigido por um homem experiente, com seu próprio senso artístico, que não apresenta nada fora do comum, mas não necessariamente medíocre. É Clint Eastwood, como nós conhecemos Clint Eastwood. A forma estranha com que o filme lida com o tema do patriotismo é o que mais me intriga. Como pode um filme com uma mensagem tão nojenta e homogênea emocionar tanto? Não sei. Mas de certa forma me sinto manipulado. Não há como negar, que assistir Sniper Americano foi uma experiência intensa. Parcial ao extremo. Mas intensa.

8/10

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