Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo

Por Fábio de Carvalho P.

Foxcatcher fala sobre muitas coisas. Luta olímpica, cavalos, armas, individuação jungiana, patriotismo e os Estados Unidos da América. Seu grande sucesso está em saber condensar e conduzir todos esses temas em uma perspectiva bastante sóbria de filmagem e atuação, dando espaço para as verdadeiras estrelas da obra brilharem: seus personagens. O diretor Bennett Miller (Capote; Moneyball) obtêm de Steve Carell, Channing Tatum e Mark Ruffalo performances de grande peso emocional e nuance. Os atores retratam humanos perdidos, partidos, orgulhosos, que buscam incessantemente se individualizar em relação aqueles que os cercam.

Afirmar que Foxcatcher é um filme que trata de John Du Pont, interpretado por Carell, é menosprezar toda a infinidade da obra. E de forma alguma isso indica um desmerecimento do primeiro desempenho verdadeiramente dramática do ator. Dave e Mark Schultz, interpretados por Ruffalo e Tatum respectivamente, são integrais para a construção de significado da história. Foxcatcher é um retrato da desilusão do sonho americano e da consequente desconstrução da imagem de “nação unida” vinda dessa constatação. O sentimento que emana das cenas é de constante isolamento e alienação. Mark Schultz é um homem extremamente ligado a seu irmão Dave, mas ao mesmo tempo vibra por uma chance de mostrar seu valor individual, sentindo que vive na sombra do último a todo momento. Sobrevivendo de palestras motivacionais, conduzindo uma vida monótona em busca da glória da luta no futuro próximo, sua relação com Dave é uma espécie de ódio-amor que gera grande tensão e violência. Ambos os irmãos vivem num momento em que descobrem os falsos ídolos que carregavam suas vidas. A grande questão é que lidam de formas diferentes com essa verdade. Dave têm uma família, recebeu uma oportunidade de trabalho, está relativamente feliz agora que tem algo mais importante que a luta olímpica na sua vida. Mark está preso em suas conquistas passadas e na busca pela glória, utilizando-se de um discurso patriota que esconde sua sede por ser simplesmente aceito.

E eis que surge uma oportunidade de Mark mostrar todo seu talento para o país que tanto ama. Ao conhecer John Eleuthère Du Pont, Mark encontra um homem que compartilha de seus ideais nacionalistas (obsessivos) e que lhe oferece uma chance de disputar o Campeonato Mundial e as olimpíadas de Beijin, treinando em sua casa, a fazenda Foxcatcher. O ambiente de Foxcatcher é precisamente esta reclusão à qual me refiro por ser tão recorrente no filme. A figura da mãe de John Du Pont é como uma assombração para seu filho, que vê nela uma mão que julga e reprime, que se decepciona e não aceita seus interesses ao considerar a luta Greco-romana algo inferior e animalesco. Seu amor por ela está enraizado em uma necessidade de empatia e compreensão que não é suprida. Nesse ponto, os personagens de Mark e John têm mais em comum do que parece.

A performance de Carell é, no mínimo, peculiar. Seu personagem tem carisma, integridade, respeito, uma conduta irrepreensível. A medida que o filme progride e suas metas e ambições não são exatamente alcançadas, John Du Pont rapidamente entra em uma espiral, um colapso psíquico em que ele se perde profundamente e comete atos que em sã consciência nunca cometeria, culminando na tragédia que marca o final da história. O assassinato de Dave nada mais é do que uma explosão de John frente a tudo que lhe afligia secretamente. Foxcatcher era o mundo de John, e quando esse mundo entra em colapso, ele também entra.

Mark, assim como John, busca ser aceito e valorizado em seu mundo. Quando se muda para Foxcatcher entra em choque com seus valores morais e passa a questionar o verdadeiro valor da luta Greco-romana, e do caminho rígido que ele procurou seguir durante toda a sua vida – vide sua iniciação nas drogas. Mark se revela um ser humano confuso, com sentimentos contraditórios e apresenta dificuldades de acreditar em si mesmo quando seu irmão não está presente. O diretor Benett Miller realiza um primoroso trabalho ao representar a relação profunda que os dois irmãos possuíam, mais eficientemente exposta nas cenas de treinamento em que Mark e Dave lutam, por prática, mas revelam de ambas as partes certo ressentimento e fogo um contra o outro. Ângulos de câmera íntimos, focando nos gestos e toques entre as personagens, sugerem sentimentos que não estão sendo diretamente expressados, sendo eles amor ou ódio.

Há uma atmosfera etérea durante todo o decorrer da película. A fazenda Foxcatcher representa um pedaço da história e legado de uma das grandes famílias dos Estados Unidos da América. O isolamento da fazenda, somado ao aspecto decadente de alguns de seus espaços, e as salas repletas de troféus e cavalos graciosos, exprimem um desejo de relembrar o passado e revive-lo no futuro. Reviver um momento em que honra e legado significavam algo. Mas esses valores não condizem com a realidade do momento, vide o desespero em que as personagens principais se encontram.

Todos em Foxcatcher estão em busca de alguma coisa. No final, é seguro dizer que nenhum deles encontra exatamente o que procurava. Mesmo Mark, que se entrega a um esporte sem nuances e moldado para agradar as sensibilidades supérfluas de um povo que se perdeu em sua própria história.

9/10

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