Whiplash: Em Busca da Perfeição

De M. Basílio

Da juventude para a fase adulta, no instante que se larga o colégio e ingressa na faculdade, é um momento de difícil transição. Não se pode mais dar ao luxo de tomar uma postura irresponsável, infantil, e ao mesmo tempo não possuímos maturidade o suficiente para gozar de uma plena autonomia sobre nossas decisões. Só se sabe que os anos seguintes serão os anos em que se escolhe a pessoa que será pelo resto da vida, e é normal se sentir perdido quanto a essa escolha.

Andrew Neiman (Milles Teller) não está perdido. Ele sabe o que quer e está focado em sua meta, ser um dos “grandes” bateristas de jazz na história. Ambicioso, o jovem está obcecado em atingir a perfeição. E está disposto a tudo, nem que para isso tenha que se submeter aos abusos de seu condutor Terence Fletcher (J. K. Simmons), chegando ao cúmulo do auto martírio.

Este é o ponto de partida de Whiplash – Em Busca da Perfeição, ovacionado no Festival de Toronto, Sundance e grande potencial a indicações ao Oscar deste ano.

Aos 19 anos, Andrew é aceito no Conservatório Shaffer, a melhor escola de música dos EUA, e divide seu tempo entre ensaios, estudos e idas ao cinema com seu pai (Paul Reiser), sem tempo para farra. Andrew observa, com olhar voyeurístico os jovens a sua volta com uma mistura de desdém e inveja. Ao mesmo tempo em que acompanha com cobiça o contato físico dos jovens de sua idade ele sabe (ou ao menos pensa) que seu destino é maior do que aquilo. E que beijos e caricias são apenas distrações em seu caminho. E com o mesmo olhar voyeurístico Andrew é observado por seu algoz — o filme começa com um travelling in, como se acompanhássemos discretamente os esforços de Andrew na bateria. Ao final, o plano se revela uma subjetiva do olhar de Terence. Deste momento nasce uma conexão. Um enxerga no outro o mesmo esforço e obsessão e um objetivo que é atingir a perfeição.

O tema obsessão, e a vontade de se obter a perfeição já foram por muitas vezes abordado no cinema (a obsessão permeia toda a filmografia de Daren Aronofsky, que agrega o tema da perfeição em seu penúltimo filme “Cisne Negro”) mas nunca de maneira tão emocionante quanto Whiplash. O jovem diretor e roteirista Damien Chazelle, que escreveu os primeiros rascunhos do roteiro ainda no colégio, filma com maestria, como se seguisse o compasso da música. A fotografia escura e os planos fechados dão ao espectador uma sensação claustrofóbica que cresce a medida que o drama avança.

O diretor nos guia por aquele mundo competitivo através dos olhos de Andrew e mesmo assim, ao fim do longa, é possível entender  os métodos nada ortodoxos de Fletcher  — que progridem do abuso verbal, fisico, até o psicológico. Fletcher não acredita na evolução através de elogios e tapinhas nas costas – “não há palavras mais danosas no nosso vocabulário que ‘bom trabalho’”, diz o personagem em certo momento. Para ele, a perfeição é atingida através de um esforço hercúleo e fisicamente doloroso que Andrew aceita como se abrasasse a auto penitência . E o roteiro nos lembra a todo instante que sua via-crúcis é análoga ao contexto do filme: Whiplash, música ensaiada até a exaustão pelo personagem e título do filme também se refere a correia de um chicote no inglês.

As atuações merecem um parágrafo a parte. Milles Teller, jovem revelação da franquia Divergente e que em breve será o novo Sr. Fantástico no reboot de Quarteto Fantástico, se entrega totalmente ao personagem. O ator expressa de forma sincera todos os sentimentos de um personagem que possui uma arrogância misturada à indiferença de um jovem que, como a maioria nós, vê seus sonhos e ambições como algo maior que as pessoas que o cercam (a cena do jantar em família é ótima!).  J. K. Simmons por outro lado encara o personagem de sua vida. Seu Terence Fletcher é assustador e impiedoso, ao mesmo tempo que carismático. Muito diferente dos muitos personagens cômicos que Simmons costuma viver.

Ao fim, Whiplash nos surpreende como a saga de dois homens em busca da excelência e, acima de tudo, da genialidade. No clímax, um ultimo olhar e aceno são suficientes para nos lembrar da seguinte mensagem: gênios não nascem. Eles são forjados. Através de esforço, sangue suor e lágrimas.

9/10

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