Boyhood e o Fenômeno do Irreproduzível

Muitas vezes já me deparei com fotografias de família em alguns filmes e pensei “seria fantástico se eles tivessem fotografado alguns anos antes. Os atores estariam mais novos”. Não é de hoje que o cinema falseia seus atores para parecerem mais novos ou mais velhos utilizando de recursos como a maquiagem ou, mais recentemente, a computação gráfica. Mas quando fiquei sabendo que Richard Linklater estava terminando um filme que gravava há 12 anos, eu pensei, “isso será interessante”. Para quem conhece o diretor e escritor, principalmente através de sua trilogia “Before”, sabe de sua habilidade incrível de sensibilizar o banal, de extrair magia do cotidiano, seja pelo colapso de intimidade nos olhares ou pela naturalidade honesta dos diálogos. Sempre em contato com o possível, Linklater tem um jeito particular de conseguir o seu elemento extraordinário, explorando reflexões sobre a vida e, mais precisamente, o modo como vivemos. Boyhood, sem dúvida, é essa oportunidade.

Para isso, antes de qualquer coisa, Richard pontua o filme com uma série de elementos da cultura pop, contextualizando o período em que vive a família texana a todo momento, de acordo com o atravessar dos anos. Coldplay, Britney Spears, Blink 182, Phoenix, Lady Gaga, Soulja Boy, são alguns exemplos da trilha sonora do filme que pertencem a uma época marcada em nossas memórias. E, em uma jogada esperta, Linklater insere os personagens em eventos singulares, como o lançamento de um dos filmes da franquia Harry Potter, ou em outros sujeitos ao acaso, como em um estádio de futebol americano em dia de jogo. São eventos que marcam datas específicas e foi preciso enfatizar que aqueles personagens estiveram lá. Uma conexão feita fundamentalmente de verdade entre a ficção cinematográfica e o mundo que em que sabemos existir, que chamamos de real. Por mais que exista um planejamento de filmagem, existe um campo do irreproduzível que a história esbarra, coletando situações em que não se pode voltar atrás. O momento se torna um pertence exclusivo de quem o vivenciou, o que atribui camadas sólidas de experiência dos atores enquanto ilusões em forma de personagens. Sempre gosto de mencionar o comentário de Ethan Hawke sobre “Before Midnight” (2013) da trilogia gravada a cada 10 anos: “Eu não precisava criar uma situação imaginária em que eu a conheci – se referindo ao personagem de Julie Delpy – eu simplesmente posso me lembrar desse dia. Nós estávamos lá, de fato.”

Com 39 dias de filmagem e 2,4 milhões investidos, a narrativa é dada pela perspectiva de Mason, um garoto de inicialmente 6 anos, cercado de situações que sintetizam o que foram seus anos de menino até a ida para a faculdade, já com 18. Acompanhamos não só a transformação física do protagonista, mas também é possível enxergar uma progressão de sentimentos gerados pelas ocasiões que formaram sua personalidade, dada pelo afastamento daquilo que rejeitava e pela aproximação do que o influenciava. O comportamento de Mason, em seus primeiros anos abordados, é caracterizado principalmente pela impotência, o não controle sobre sua própria vida, em que se tem uma dependência radicalmente passiva aos pais – com pequenos lampejos introspectivos de rebeldias. É obrigado a se mudar com a família, ingressa em uma nova escola abandonando seus amigos, sofre a intervenção de novos membros na família e, finalmente, lhe cortam o cabelo. Esse é o estágio domiciliar de nossas impossibilidades que nos apontam diretamente ao estágio áspero da idade adulta, com normas consolidadas, trajetórias formalizadas, faculdade, trabalho. Mason ganha de aniversário de 15 anos um terno, uma bíblia e herda uma espingarda. Se todos estão sempre dizendo como devemos agir, como podemos saber quem queremos ser?

Mason parece não se adequar corretamente a isso e se sente despregado da normalidade. Sua busca vai além da mera identidade, ele procura, de alguma forma, a essência da distinção. Considerando toda a trajetória percorrida até então, torna-se fotógrafo, o que é em potencial uma maneira de lidar com o mundo. Mason é inevitavelmente produto de seu passado, de suas experiências, mas a partir de agora ele colecionará os momentos que ele escolher eternizar. “- Estou cansado de me mudar. – Tenho certeza que está.”, conversam antes de se jogarem em um lago. Uma maneira de incluir a sua vontade no conjunto de eventualidades da vida, uma forma possível de negociação com o espaço em que vive.

O filme é recheado de situações corriqueiras em que se tem uma abordagem sensível ou comporta uma problemática interessante em que, muitas vezes, os espectadores podem se identificar com os personagens e as relações que se dão. Assistir Dragon Ball Z na TV da sala, brigas com irmãos, pichar ao som de The Hives, andar de bicicleta pelo bairro, viver o divórcio conturbado dos pais, ver mulheres seminuas em revistas femininas, compactuar para os boatos de colégio, ouvir a briga de sua mãe com seu padrasto, jogar vídeo-game ou mímica, aprender boliche ou golf, brincar de pique-esconde ou pega-pega, ouvir sua mãe pedir para lavar o prato usado, sofrer bullying, o primeiro beijo, a mudança no cabelo, o deboche adolescente, o primeiro término, a formatura, receber a primeira cantada estranha, a primeira fotografia, a saída de casa. Muitas dessas experiências de Mason me contemplaram e me transformaram durante os 160 minutos de projeção, com destaque valioso à sequência do acampamento com meninos mais velhos que pressionam os mais novos aos assuntos sexuais.

Em uma cena que antecede a mudança da família, estão pintando a casa e Mason passa a tinta branca por cima das linhas que mediam o seu crescimento no vão da porta. Essa não é apenas uma tomada única, daquelas que não há como desfazer o feito em cena, como também representa um abandono involuntário do próprio tempo que nos concerne. Cada episódio se encerra em uma mistura de adeus e novas perspectivas, componentes do atrito existente entre nós e a nossa natureza migratória. Linklater carregou o personagem no colo até a admissão da faculdade numa espécie de “missão cumprida”, quando, nos EUA, os jovens saem de casa para iniciar a carreira universitária. Quando o filme termina, a sensação é de que ainda há uma longa estrada pela frente, com altos e baixos, conflitos e respostas, saudades e conquistas. A vida continua em sua tímida magnificência, agora com a consciência de que não somos tão especiais quanto acreditamos ser, e que será preciso continuar a salvar dos tigres os seus amados das cavernas.

Alguns espectadores podem se fazer a mesma pergunta que Mason, “- Então, qual é o ponto de tudo isso?” e alguém responderia como seu pai faz, “- De tudo? Não faço ideia. Estamos só vivendo, sabe? Pelo menos sentindo algo.” E retrucaria como faz sua mãe, “- Eu só achei que haveria mais”. Alguns podem até dizer que sua principal atração e aposta é a fórmula curiosa de gravar de tempos em tempos, evidenciando as etapas de crescimento dos atores. É empolgante ver as transformações de Lorelei Linklater a cada episódio, filha do diretor que interpreta Samantha, a irmã, e do próprio Ellar Coltrane que curiosamente acaba revelando traços físicos em comum com seus pais interpretados por Patricia Arquette e Ethan Hawke. Um método interessante que gera um contato curioso entre os personagens e a realidade, mas que na história mesmo não teria nada demais, esse espectador diria. Mas se uma estrela cadente fosse gravada atravessando o céu, essa imagem não seria considerada um fenômeno único e memorável, digno de ser captado por nossas lentes e olhares? Eu acredito que Boyhood consegue se fascinar com o milagre da vida atravessando a formação de um ser humano que se esforça para emergir de encontro ao mundo. E é com satisfação e gratidão à obra que encerro a análise resgatando um diálogo que ilustra bem o que quero dizer.

-Pai, não existe mágica de verdade no mundo, não é?
– O que você quer dizer?
– Tipo elfos e coisas assim. As pessoas simplesmente inventaram isso.
– Não sei. O que te faz pensar que elfos são mais mágicos que uma baleia? Entende? E se eu contasse uma história de que dentro do oceano há um gigantesco mamífero marinho que usa um sonar, que canta canções, e é tão grande que seu coração tem um tamanho de um carro e você poderia engatinhar pelas suas artérias. Pareceria bem mágico, não?

9/10

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