O Doador de Memórias

Na expectativa de adentrar ao campo das adaptações adolescentes de sucesso como “Harry Potter”, “Jogos Vorazes” e o mais recente “Divergente”: “O Doador de Memórias” de Phillip Noyce (Salt, 2010) chegou tarde demais ou cedo demais para o seu tempo, num romance que poderia se equiparar muito mais as obras de Aldous Huxley e George Orwell do que as populares escritoras contemporâneas.

Baseado no romance homônimo de Lois Lowry: o livro apresenta um futuro onde não há guerra, desigualdade social, inveja, dor ou qualquer outra situação ou sentimento que cause distúrbio no ser humano. Mas também é um mundo onde não existe alegria, compaixão, e quaisquer sentimentos que fazem a vida valer a pena – nem mesmo vida animal- todos são neutros, se respeitam, seguem regras e jamais dizem coisas confusas. Também, não conhecem o passado antes de sua vida, informações desse tipo são proibidas, e destinadas apenas há um membro da comunidade, que é responsável por manter dentro de si, uma compilação de memórias e sentimentos antigos, mas ainda vivos barrados por uma barreira que impede que isso se alastre entre os habitantes.

O responsável por guardar as memórias (Jeff Bridges) agora precisa passa-las a diante: o escolhido para recebê-las foi Jonas (Brenton Thwaites) o que faz de Bridges “O Doador”. Lois Lowry partiu da premissa do futuro utópico controlado, onde os habitantes não sofrem diretamente com com as brutas mudanças sociais. Eles não precisam fazer revoluções, vivem bem e de forma igualitária apesar de tudo. E nesse tom, o diretor acertou bem em transpassar tal experiência no filme. Deixando uma fotografia em preto e branco, roupas que não criam a sensação personalidade, móveis, objetos e imóveis simples e simétricos. Nada parece ser ousado sem um propósito preciso, e todos são vigiados. Cada consequência desses atos na população pode ser vista na frieza e arrogância com que os pais de Jonas (Katie Holmes e Alexander Skarsgård) o tratam.

Ao receber as primeiras memórias do doador, Jonas se vê confuso diante de tudo o que perdeu em sua vida, as cores vão aparecendo a medida em que ele experimenta cada sentimento, mesmo os piores contribuem para sua personalidade e noção de espaço e situações que antes lhe pareciam perfeitamente normais, ainda que para os providos de emoções, vejam nas como brutalidade.

Jonas sente vontade de compartilha-las com sua companheira mais próxima Fiona (Odeya Rush) no qual ele já nutria um sentimento indiferente dos outros, mas não sabia como explicar. Noyce transmite como muita facilidade a noção de que dentro de cada pessoa, ainda que encoberta por uma droga inibidora de sentimento, existe a inveja, o amor, avareza, culpa e as demais características que nos tornam o que somos. Mas falha na parte crucial da história, passar sentimentos, dá se entender que eles existem, e sua necessidade dentro daquela sociedade, mesmo que exista uma semente dentro de cada prestes a brotar. Jonas e o Doador armar um plano para quebrar a barreira invisível e mostrar a todos o que estão perdendo, o que é uma ameaça para a autoridade principal da comunidade Chief Elder ( Meryl Streep) que mantém cada cidadão sob vigilância.

O clímax do filme falha mizeravelmente, quase que jogando fora tudo o que havia conquistado de início, sendo uma obra que trata sobre emoções, mas falha ao nos transpassar isso, ainda que elementos chaves como a direção de produção e toda a banda sonora contribuam, a sensação que se cria é inversa: ao invés de liberarmos alegria, tristeza, raiva ou qualquer outra forma de reação, o clímax deixa uma sensação de que algo está incompleto naquilo tudo. Ou que os personagem tomaram as emoções que pertenciam aos espectadores, diante disso “O Doador de Memórias” poderá tornar-se um filme esquecível, ainda mais quando seus concorrentes tem o elemento da “ação” para se destacar. Ainda que falho, é um filme que apresenta uma discussão curiosa, e vale pena ver pelo menos os dois atos iniciais.

6/10

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s