O Célebre Desamparo por Trás de “O Grande Hotel Budapeste”

Depois de alcançar o que parecia ser seu máximo domínio técnico em “Moonrise Kingdom” (2011), o texano Wes Anderson (“Os Tenenbaums”, “Darjeeling Limited”) conclui seu majestoso e oitavo longa-metragem, “O Grande Hotel Budapeste”. Com o pai pertencente ao ramo da publicidade, a mãe arqueóloga e uma formação em filosofia, Anderson é por si só uma mistura que se resulta em um cinema caricato, equacionando, inclusive, uma variedade interessante de referências fílmicas e literárias. As características plásticas se preservam, como os cenários de cores particulares, os enquadramentos simétricos, a lente grande angular, os pontuais movimentos de câmera, a linguagem teatral cômica, a trupe pertencente a uma instituição sob uma nuvem negra e a presença do protagonista não ajustado ao mundo em que vive. Ainda assim, Wes consegue reciclar a fórmula de uma maneira a evidenciar a criatividade da obra. E, caso ainda não tenha assistido, não continue lendo esta revisão.

Inspirado nos escritos de Stefan Zweig, o filme possui algumas camadas temporais cavadas pela narrativa de forma metalinguística. Começamos em um contexto supostamente atual, em um cemitério de um lugar ficcional chamado de República de Zubrowka, onde uma garota faz uma visita respeitosa a um autor anônimo. Pode-se presumir que Wes não está meramente reverenciando a entidade emblemática da literatura, mas também resgatando memórias daquele templo que pretendem ser contadas a partir de então. A seguir, somos transportados a 1985, em uma tela ligeiramente menor, onde este mesmo personagem a pouco homenageado faz uma pequena declaração esclarecedora para os espectadores, fazendo uma citação direta a Zweig, do livro “Coração Impaciente”. A luz é redirecionada a ele, o olhar vai à câmera e em um irreverente take único, o prólogo está concluído. Em seguida, somos novamente transportados, desta vez à cidade de Nebelsbad, Hungria, “aos pés de Alpine Sudetenwaltz”, onde se encontra o famoso Hotel Budapeste, 1968. Mas nesse momento, o hotel está fora de moda e padece do vazio fantasmagórico da solidão, em que seus poucos habitantes mal se comunicam. Nesse contexto, encontramos o hóspede Junger Schriftsteller, interpretado por Jude Law, que carrega curiosidade suficiente para que o Sr. Zero Moustafa (F. Murray Abraham), atual, triste e misterioso proprietário, conte a ele a história do hotel. Recuando ainda mais no tempo, vamos a 1932, em uma tela 4:3, acompanhar a trajetória do excêntrico e exigente Sr. Gustave (Ralph Fiennes), concierge do célebre Budapeste no período em que o jovem Zero Moustafa (Tony Revolori) ingressava na instituição. Conseguimos então alguma estabilidade cronológica a partir dos dez minutos de filme, com exceção aos pequenos e rápidos espasmos do roteiro, que logo trata de retornar aos tempos áureos do grande hotel.

Ainda aprendendo sobre como ser um bom lobby boy, Sr. Gustave diz a Moustafa que é uma profissão em que se é invisível mas está em todo lugar e que alguns segredos vão consigo para o túmulo. Para Wes, talvez, este fúnebre local seja onde residem valiosos tesouros, histórias enterradas que são dignas de voltar à vida através da arte. Temos no centro da aventura um quadro renascentista, “Boy with Apple”, artigo pintado especificamente para o filme. E, para chegar até ele, a morte de uma velha senhora que deixa uma herança de valor inestimável. É quando os ambiciosos e ameaçadores familiares aparecem, dentre eles o ganancioso Dimitri (Adrien Brody) e o cruel capataz Jopling (Willem Dafoe), para disputar esse artefato com Sr. Gustave H., antigo amigo e amante da falecida condessa Desgoffe, interpretada por Tilda Swinton – que conta com uma maquiagem de envelhecimento impressionante. Quando Sr. Moustafa, inevitavelmente emocionado, introduz Agatha à história, dentre os primeiros itens que surgem ao seu redor são um livro que ganha de Zero e um caixão de tamanho infantil (não à toa, visto que perde o filho futuramente da mesma peste que a mata) com tulipas brancas.

Com a dimensão da morte tão presente nas vértebras da história, a cor roxa predomina na vestimenta da dupla de protagonistas – o concierge Sr. Gustave e seu lobby boy, Zero – cujo vínculo da amizade nasce diante das confidências de um pacto selado. A Segunda Guerra Mundial encontra os personagens na fronteira de Zubrowka, onde um oficial chamado Henckels (Edward Norton) aparece , que libera a passagem da dupla por ser um antigo conhecido de Gustave, o que demonstra um pouco do poder da influência de um concierge. Mais tarde, veremos Gustave utilizar da famosa “Occulta Claves Decussata Societatis”, O.C.D.S., ou ainda “The Society of the Cross Keys”, conexão existente entre 33 hotéis de 7 países consolidada em 1911 para favores internacionais.

Toda essa ideia de reputação se encaixa no luxuoso Budapeste, ainda em sua plena forma na década de 30, habituado a hospedar pessoas ilustres. Entretanto, o sofisticado hotel, algum tempo depois, se encontra em decadência em que seu mais notável hóspede é a solidão. Uma analogia ao próprio Sr. Zero Moustafa que mantinha as aparências frequentando os mais caros hotéis afora, mas por dentro era um homem profundamente triste e solitário. Agatha, que ganha de Gustave H. um pingente com um formato de chave, é tida para Zero como a personificação de uma válvula de escape a seu passado amargo. Devido a morte de Agatha, foi condenado à prisão de viver toda sua vida naquele hotel, sem poder fugir das próprias raras memórias que o hotel ainda preservava.

Quem sabe, toda essa plasticidade com sabor de sobremesa e o cerrado humor com seus trejeitos sirvam excepcionalmente como um mecanismo gracioso e artificial que Wes encontra para tratar de temas não tão felizes assim – como a guerra ou a perda – em instância existencial. Um disfarce tão superficial e atraente quanto um perfume. Vale ressaltar a presença insistente da fuga em seus filmes, flertando com a resistência aos conflitos de um mundo que não lhe adapta bem. Nesse universo criado tão minuciosamente por Wes, não só o Grande Budapeste, mas até mesmo a mais fortificada prisão medieval possui o que eles chamam de vulnerabilidade. Assim como o mais requintado concierge. Com o uso de chaves e a cooperação altruísta de outros presidiários, Gustave H. tem sucesso em se livrar das grades. Após a fuga, no momento do disfarce, Sr. Gustave pede perdão a Zero pelas palavras duras, pedindo desculpas em nome do hotel, como se representassem oficialmente e intrinsecamente um ao outro. Praticamente um discurso em luto, Gustave, que um dia já fora também paquete, é honrado no final com sua redenção, lutando bravamente em defesa de seu protegido Zero. “Ainda há lampejos de civilização no açougue bárbaro que já foi a humanidade. Ele – Sr. Gustave – foi um desses lampejos”, que se esforçava para se expressar recitando poemas desconcertadamente.

Recheado com um elenco infindável de grandes atores, resta mencionar as pontas de Bill Murray, Owen Wilson, Jason Schwartzman, Harvey Keitel, Mathieu Amalric, Saoirse Ronan, Jeff Goldblum, Bob Balaban, Tom Wilkinson e Léa Seydoux. Por essa via talvez esteja seu único pecado em que se tem um excesso na receita de personagens e informações. Pela montagem ágil, que se mostra perfeitamente apropriada ao timing do cômico que se propõe, exige um ritmo muito acelerado de assimilação e organização mental do espectador. Sendo assim, acaba sobrando muito pouco respiro para se refletir e assimilar, ainda durante a exibição, sobre as questões conceituais da obra ou até mesmo falta tempo para se relacionar afetivamente aos personagens.

Dividido em cinco capítulos, essa história contada por Sr. Moustafa se passa na Hungria, mas foi rodada na Alemanha. Os diálogos, em articulação com a narração, ganham um aspecto literário atribuindo uma atmosfera mágica e fabulesca ao filme. Das referências mais latentes, é pertinente citar Ernst Lubitsch, com suas comédias como “Ser ou Não Ser” (1942) e “A Loja da Esquina” (1940), ficando evidente a referência quando o hotel, em determinado momento, é tomado por ornamentações e soldados que carregam um símbolo que faz alusão ao nazismo. Algumas características de um cinema passado são resgatadas em uma linguagem fantasiosa e teatral, como por exemplo os escritos de bilhetes ou cartas fixados em quadros estáticos – quase didáticos – para a leitura do espectador. A iluminação, sem abusos, parece atender às vontades extradiegéticas do narrador, gerenciando suas percepções emocionais. A título de curiosidade, Anderson, em entrevista, confessa ter simulado locais sem ter estado lá efetivamente, auxiliado pelo recurso de mapas da Google. Os cenários são ricos não só pela beleza da paisagem equilibrada e suas cores pastéis, mas também pelo detalhamento de objetos que compõe simbolicamente o contexto da cena – como por exemplo o relógio parado ao lado de um pequeno cacto na dispensa da cozinha, logo após a dupla descobrir sobre a morte de Madame D. A trilha de muitas badaladas se encontra entre o épico e o singelo estabelecendo uma sincronia fenomenal com os acontecimentos, em que parece interagir com os cenários e personagens.

Uma aventura estonteante sobre amizade e boas pessoas em um palco trágico e encantador. Apesar dos traços brutos e das condições desfavoráveis, Agatha é “sem dúvidas, sem falhas, sempre e invariavelmente é adorável por causa de sua pureza”, descrição que pode caber também à obra agridoce de Anderson que, pode-se ainda dizer, “sustentou a ilusão com tremenda graça”. Uma homenagem excepcionalmente delicada, dinâmica e impecável com uma profundidade poética timidamente camuflada por um sorriso triste.

 10/10

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s