Os Suspeitos

Do diretor de Incêndios (2010), o canadense Denis Villeneuve trás seu primeiro trabalho nos Estados Unidos, um suspense ímpar, carregado de simbolismos e uma atmosfera sufocante que te prende por 153 minutos nos dividindo entre a dor de duas famílias e o sofrimento de um possível culpado ou inocente.

No clima frio que toma Boston, Keller Dover (Hugh Jackman) e seu filho Ralph (Dylan Minnette) caçam um cervo da floresta com toda atenção e cuidado, fazendo daquele momento um ritual divino, a vítima é abatida, e colocada na caminhonete, vista por de trás do vidro embaçado do carro, o cervo está deitado enquanto é levado pelos dois caçadores até sua família que mais tarde irá celebrar o dia de ação de graças com seus melhores amigos. Assim, conhecemos a família de keller, sua esposa Grace Dover (Maria Bello) e a sua filha mais nova Anna Dover (Erin Gerasimovich) mostrada do mesmo ponto de vista do cervo, através do reflexo do carro embaçado pelo clima gelado do lugar.

Chegando até a casa de Franklin Birch (Terrence Howard) e sua esposa Nancy Birch (Viola Davis) conhecemos a filha mais velha, da mesma idade de Ralph, Zoe Borde (Eliza Birch) e a mais nova Joy Birch (Kyla Drew Simmons) cada par formado, e cada um no seu canto. Ralph acaba flagrando as garotas brincando próximo a um trailer misterioso- voltam para casa, e cada par é formado novamente até que Keller se dá conta do sumiço das garotas.

O roteiro pontual de Aaron Guzikowski Contrabando (2012) nos leva a uma história de detetive clássica, eliminado alguns clichês e fornecendo pistas para que o espectador possa solucionar o mistério antes do investigador: algo que poderia ser feito por qualquer outro diretor (o que realmente estava para acontecer, já que o roteiro do filme existe há anos e passou pelas mãos de vários possíveis diretores, até mesmo Bryan Singer), e passaria por uma simples narrativa facilmente ignorada, mas foi cair nas mãos de Villeneuve, que antes de se preocupar em contar uma história, preocupou-se em como transpassar uma atmosfera sufocante e fria como a trama pede. Encontrado o paradeiro do suspeito do sequestro das garotas, o detetive Loki (Jake Gyllenhaal) sai a sua procura, e o captura acuado dentro do trailer o possível sequestrador Alex Jones (Paul Dano) que logo mais é apontado como inocente, por ter o QI de um garoto de 10 anos e por demais falta de provas que o condenem. Não satisfeito com a decisão sobre Alex, Keller o sequestra, prende e começa a torturá-lo até que confesse a culpa.

A brilhante fotografia de Roger Deakins é a chave do filme, partindo do clima sombrio e melancólico evoluindo para fortes pancadas de chuva e uma nevasca, o cenário, às pessoas, tudo parece tão pálido e pequeno que as garotas podem estar tão próximas do que eles imaginam, mas as pistas continuam vagas e saída para tudo fica mais distante. O personagem de Gyllenhaal, Loki, se mostra um viciado em enigmas, sempre solitário é mostrado sozinho em um café, lendo sobre horóscopo chinês, em sua mão direita, tatuagens de símbolos em cada dedo.

O figurino de Renée April contribui para o tom desesperançoso, com suas cores escuras, às vezes beirando um luto, as únicas que usas cores destoante de todo o resto do elenco são Joy e Anna, que aparecem com um suéter branco e um casaco rosa sujos pela escuridão do clima. Lembrando muito o clima de filmes como Seven, Zodiaco e Memórias de um Assassino, Os Suspeitos (The Prisioners) bebe da fonte e sabe manejar o que têm em mãos. A começar pelas atuações, Maria Bello parece deteriorada a cada sequencia, pálida e solitária mal tem o apoio do marido ou do filho, Hugh Jackman está transformado, toda sua fúria está solta, mesmo quando tenta fingir estar no controle da situação, percebe-se o brilho de vingança em seus olhos. Viola e Terrence Howard – os que sabem dos atos de Keller-, permanecem sérios, numa linha tênue entre razão e loucura, suas atitudes e trejeitos mostram um casal tão danificado quanto os Dover, mas não totalmente fora de si.

Jake Gyllenhaal adotou um cacoete que o faz piscar constantemente, o que parece ter sido resultado de um passado conturbado, por isso ele tenta desvendar qualquer mistério insolucionável, mas em determinado momento do filme, se mostra perdido num belo plano da fotografia de Deakins, um plongée mostrando as mãos de Loki sobre sua cabeça, com as tatuagens de símbolo em foco, e no chão, um papel com o desenho de um labirinto inacabado, as mãos carregadas de simbologia agora são inúteis ao tentar desvendar um mistério.

Com um final que sem dúvida irá dividir opiniões Os suspeitos soube muito bem o que fazer com duas horas e meia de filme, trazer agonia e a sensação de cada minuto corrido, sem pistas falsas, sem nada gratuito, tudo está ligado e misturado e só há uma saída para tal labirinto.

8/10

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