Gravidade

Aclamado pela crítica e com uma bilheteria de estréia arrasadora, Gravidade é um dos filmes mais esperados do ano para muitos cinéfilos. Além de uma grande obra, ele parecia simbolizar o retorno de muitos aspectos perdidos nos últimos tempos.

Representaria, especialmente, o retorno de Alfonso Cuarón – que filmara Filhos da Esperança sete anos atrás e que estivera, desde então, ocupado com a produção desta obra. O retorno das tomadas longas e da fotografia inspirada. E, principalmente, representaria o retorno dos filmes de espaço que não são reféns de franquias pré-estabelecidas ou de explosões sem sentido. Para muitos – justificados ou não – representaria  o renascimento do cinema ou, no mínimo, a volta da criatividade no meio.

Contando a história de dois astronautas que, após um acidente, encontram-se a deriva a muitos quilômetros de altura, Gravidade poderia ser somente mais um blockbuster. Nas mãos de um diretor menor, apenas outro entre inúmeros filmes de orçamentos imensos e qualidade duvidosa. Cuarón, porém, consegue fazer um filme interessantíssimo, grandioso quando necessário mas que nunca abandona o espírito autoral de seus outros trabalhos.

Desde sua primeira cena – um impressionante único take de 12 minutos “ininterruptos” – percebe-se que Gravidade é uma experiência única. Armado com a fenomenal fotografia de Emmanuel Lubezki, é um dos filmes mais bonitos que já vi. Mais que isso, é de uma perícia técnica incrível. Percebe-se, em cada plano, o cuidado em reproduzir o mais fielmente possível a realidade do espaço, seja no movimento dos astronautas, seja no silêncio eterno do vácuo.

De um ponto de vista físico, a história proposta é simplesmente impossível. O telescópio Hubble, a Estação Espacial Internacional e a Estação Chinesa (que não passa perto das dimensões daquela do filme) estão em órbitas de inclinações completamente distintas, e o trajeto de Ryan Stone seria inviável até mesmo se ela tivesse acesso a veículos com uma melhor eficiência propulsiva que um extintor de incêndio. E sim, cabelos não flutuam como deveriam, a terceira lei de Newton é esquecida em alguns momentos, satélites de comunicação não estariam naquela órbita… Os erros – ou exageros – existem, e foram expostos em diversas publicações.

Gravidade, porém, é maior que simplesmente sua premissa. É a elevação da técnica a extremos nunca antes vistos. É a superação de obstáculos inimagináveis e a invenção de novas tecnologias capazes de nos convencer que, por mais que insistam no contrário, Sandra Bullock só poderia ter filmado aquelas cenas na ISS.

No papel de sua vida, a atriz surpreende ao criar uma Ryan Stone que foge da cientista fria e estoica que nos habituamos a ver neste gênero. A personagem, que em Terra passava a vida em uma inércia eterna, dirigindo por seu passado em uma metáfora um pouco mais pesada do que eu gostaria, ganha tons interessantes em sua catarse final.

Ainda que o desenvolvimento de seu arco pessoal pudesse ser melhor explorado, o objetivo de Gravidade nunca pareceu ser grandes reflexões filosóficas. O interesse está na exploração da capacidade de sobrevivência inerente a todos os seres humanos. Afinal, o que você faria caso se estivesse perdido no espaço, com chances remotas de voltar para casa? E, mais que isso, como reagiria se não houvesse nada que julgasse realmente digno de volta?

A sensação de isolamento e desespero sofrida pela protagonista é visceralmente transferida ao público, que passa toda a duração do filme sentindo-se, também, ansioso pelo retorno à Terra. E, na premissa de imersão completa, vive a principal falha de Gravidade. Ao impor uma trilha sonora pouco sutil, a produção acaba por anular em certos momentos o impacto da falta de som no espaço. Acompanhada sempre por inúmeros crescendos nos momentos de maior emoção, a trilha de Steven Price parece tentar manipular o espectador enquanto, simultaneamente, evita desencorajar aqueles para quem o silêncio poderia parecer estranho.

A verdade, porém, é que Gravidade é um daqueles raros filmes que não só merecem, mas precisam, ser vistos da maneira como foram concebidos – em 3D e na maior tela que você conseguir encontrar. Não é perfeito, mas é o mais perto que o cinema chegou em muitos anos no que diz respeito a este gênero. Deve ser visto mais de uma vez, analisado, esmiuçado, detalhado à exaustão. E, mesmo após inúmeras exibições, o expectador ainda estará na cadeira se perguntando: como? Como foi possível compor algumas daquelas cenas? Como foi possível criar, na Terra, um espaço tão real?

E nestas questões vive o real brilhantismo de Gravidade – e, essencialmente, a magia do cinema.

Nota: 9/10

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