Obsessão

Quando do aparecimento de Spike Lee no cenário do cinema americano dos anos 1980, logo ele causou polêmica e deixou claro que suas obras eram feitas para se amar ou se odiar, sem meios termos. Talvez seu filme onde tal característica esteja mais clara seja o por vezes incompreendido Faça a coisa certa (1989). Incompreendido porque Lee fez questão de colocar um crédito final explicando que a situação exposta ali cabe várias interpretações. Polêmico porque pela primeira vez um cineasta negro e de origem humilde, vindo dos guetos do Brooklyn (após se mudar de Atlanta), ousou questionar a dominação branca através de uma suposta inversão de situações, onde um imigrante italiano que possui uma pizzaria em um bairro negro é questionado por seus clientes sobre as razões pelas quais não há retratos de ídolos negros em seu comércio e sim de ítalo-americanos, o que termina por causar uma verdadeira guerra entre todos. Fora das telas de cinema, Lee terminou por se demonstrar um verdadeiro ativista e questionador do retrato do negro nos filmes americanos (pelo menos em seus primeiros filmes), algo que se atesta essencialmente por suas críticas ferozes a Quentin Tarantino e outros realizadores, que muitas vezes esbarram na imbecilidade de ambas as partes.

Spike Lee abriu, portanto, caminho para alguns outros cineastas negros de origens análogas ou próximas às suas, como são os casos de John Singleton na década de 1990, que se tornou o primeiro afro-americano indicado a um Oscar de melhor diretor pelo filme Os donos da rua (1991), e, mais recentemente, Steve McQueen e Lee Daniels, o último também indicado ao Oscar em sua categoria por Preciosa – Uma história de esperança (2009). Daniels, antes de Preciosa, havia realizado o pouco conhecido, mas bem acabado, Matadores de aluguel (2005) e agora terminou de engatilhar dois projetos seguidos: Obsessão (2012) e O mordomo da casa branca (2013, que tem previsão de estréia no Brasil para primeiro de novembro desse ano).

Obsessão, que só chega agora aos cinemas brasileiros, flerta com as obras anteriores de Daniels, ao tratar do mundo do crime, como em Matadores de aluguel, e da questão do desencaixe social do negro na sociedade, da violência contra a mulher, da podridão do ser humano e da busca pela felicidade em universos corrompidos, temas que aparecem no citado primeiro filme do diretor e, mais precisamente, em Preciosa. Entretanto, o que torna Obsessão uma grande evolução por parte do cineasta é a forma como ele encaixa tais temáticas e acrescenta outras em um nível subtextual, que, como seria de se esperar, causa polêmica, mas ao mesmo tempo faz refletir, deixando lacunas para serem preenchidas, inúmeras intepretações e questionamentos a serem respondidos, como ocorre com toda grande obra.

O filme conta a história de cinco personagens: os irmãos Jack e Ward, o jornalista negro Yardley, o condenado à cadeira elétrica Hillary e sua correspondente (através de cartas) e futura esposa, Charlotte. A história é vista (e narrada) sob o ponto de vista da empregada afro-americana de Jack e Ward, que, além de uma espécie de figura materna dos rapazes substituindo a mãe deles que os abandonou, funciona como uma testemunha indireta de tudo pelo que as outras personagens passam. A trama ocorre na cidade de Moat County, na Flórida. Hillary foi acusado de matar o xerife local e, por falta de provas que poderiam tê-lo inocentado, está preso em uma penitenciária de segurança máxima e condenado à pena de morte. A questão é que o caso não se trata de um simples assassinato onde alguém foi supostamente injustamente acusado. Não, o tal xerife era, como dito por Anita (a empregada), em um depoimento à polícia, alguém odiado pela população negra por ter matado membros dessa comunidade e pelos brancos por motivos não explicitados.

Então, o fato de Hillary ter sido acusado e as provas de sua hipotética inocência não terem passado por exame pericial e terem sumido depois de encontradas, dá a entender que há algo mais, talvez uma questão político-social para o assassinato do xerife, principalmente se se atestar que o cenário é o dos anos 1960, de ódio entre brancos e negros, fundamentalmente nas cidades do sul dos EUA, ou mesmo de subserviência de negros perante os brancos (como se atesta a situação de Anita) e de luta pelos direitos civis por parte da população afro-americana, que vinha tendo como principais líderes Martin Luther King e Malcolm X. Ward é repórter do jornal Miami Times – onde escreve principalmente sobre os direitos civis, tendo se tornado, ao mesmo tempo, respeitado e persona non grata em seu meio –, e volta para sua cidade ao lado de Yardley, para investigar a situação de Hillary e publicar uma reportagem em forma de denúncia que critique de alguma forma os meandros da justiça nas pequenas cidades e que inocente Hillary. Ward apenas não contava que Jack fosse se apaixonar por Charlotte (que é bem mais velha do que ele) e disputar o amor dela com Hillary.

Dessa forma, Daniels insere outros subtextos, como a crítica à própria imprensa e ao modo como os jornalistas se enxergam como investigadores de polícia, bem como seu ego inflado que, por vezes, os cegam, fazendo-os cometerem erros que, inclusive, esbarram na ética profissional, como, por exemplo, o fato de muitos jornalistas não investigarem suas fontes, nem darem a voz para o outro lado da história. Além disso, o diretor questiona o que se entende como verdade sobre uma determinada situação, dando a entender que qualquer coisa pode ser vista sob inúmeros pontos de vista, que podem dizer tudo ou nada sobre aquilo que se trata. Afinal, o que é a verdade? Ela está nos olhos de quem a vê ou no mundo, portanto não podendo ser mensurada ou atingida? Isso fica claro quando Yardley publica a reportagem sem a autorização de Ward – e que esconde profundas mentiras exatamente por algumas informações constatadas não terem sido provadas –, o que acaba por se tornar uma denúncia e levar ao perdão de Hillary, que é solto, exatamente pelo embaraço causado e por isso aparecer em um jornal de grande circulação nacional.

O que ninguém imaginava é, que, mesmo não ficando provado se Hillary teria ou não matado o xerife, é que ele é um psicopata, algo que era perceptível nas visitas feitas a ele na prisão, porém só será realmente atestado quando Charlotte vai viver em sua companhia em uma casa que ele possui localizada em um pântano onde caça crocodilos para vender seu couro. E talvez por essa discussão sobre o que seria a verdade, se entenda uma opção vinda do roteiro, que, em um primeiro momento, soa como um erro, porém quando analisada a fundo, fica a pergunta se não seria uma escolha de Daniels e seu roteirista Peter Dexter (também autor do romance que deu origem ao filme). Trata-se exatamente da citada narração de Anita, que no início assume-se como um depoimento dado à polícia, que parte, assim, para um flashback (portanto em off screen) e depois se assume como onisciente e em formato voz over. Obviamente, uma personagem que participa ativamente de uma história não pode ser onisciente e nem saber como determinadas situações dela em que não participou ocorreram, nem dos sentimentos íntimos dos envolvidos – algo que foi demolido na literatura por Machado de Assis em Memórias póstumas de Brás Cubas. Como dito, quando esse recurso expositivo é analisado, ele deixa de ser um suposto erro para se tornar uma forma de Daniels dizer implicitamente a seu espectador que boa parte das histórias de origem oral (e também escritas) não podem ser encaradas como verdades absolutas, sendo, portanto, factíveis.

Outros pontos aparecem de forma subjetiva em Obsessão em caráter de subtexto: a homossexualidade enrustida (porém quase incontrolável) de Ward e seu apetite sexual destrutivo por negros (isso em uma das seqüências mais fortes do filme), a questão do preconceito racial dilatado em uma época de luta por direitos civis – algo enxergado principalmente na personagem de Yardley, que finge ser inglês para continuar empregado no Miami Times, e, mesmo assim, passa por situações de racismo, mas também no modo com que Anita é tratada por W. W., o pai de Jack e Ward (que também expõe os filhos a situações humilhantes), e pela atual esposa dele. Ademais esses motes, é discutida também a questão da mulher nas sociedades patriarcais, que é tratada como mero objeto que serve para satisfazer o homem sexualmente (caso de Charlotte), ou domesticada, como se atesta Anita, que, além de negra, é mulher, ou seja, dois motivos para sofrer preconceitos e ser vista como um reles “produto” de natureza autômata e cabrestística.

Charlotte, aliás, é provavelmente a personagem mais multidimensional da trama, que evolui de uma ninfomaníaca roceira que se corresponde com detentos para uma sofredora, isso quando descobre a verdadeira face de Hillary e realmente vê que deveria ter aceitado o amor de Jack. Os temas citados não são novos na filmografia de Lee Daniels, pois, como dito, estão presentes em Matadores de aluguel e Preciosa, porém, em Obsessão, eles aparecem acrescidos de outras temáticas, tudo mergulhado em um profundo subtexto que cria uma complexa camada metonímica, com a parte (as personagens do filme) dizendo respeito ao todo, isto é, a sociedade do sul dos EUA, carregada em preconceitos enraizados desde suas origens e hipocrisias que escondem obsessões e distúrbios sociais e, mais precisamente, sociopáticos.

O estilo de Daniels vem se tornando reconhecível, através da estética – cortes secos, jump cuts e faux raccords, montagem dinâmica como a de um videoclipe, uso de muitos close-ups e planos de detalhes, fotografia granulada, de luz estourada e de tons pastéis, sobreposição de imagens, utilização de muitas fusões, câmera na mão, suspensão do tempo através do slow motion – e da narrativa, que trata de temas análogos a obras anteriores e, a cada filme, ele parece evoluir, chegando a um detalhismo máximo. Essas minúcias aparecem, por exemplo, quando Charlotte e Jack estacionam o carro próximo à penitenciária onde se encontra Hillary e veem um homem estranho nos arredores, que aparece rapidamente na imagem, e que logo depois se revela como o tio de Hillary, que também vive no pântano e caça crocodilos, e que teria escondido o suposto fato (ou álibi) dele e do sobrinho estarem na noite do assassinato do xerife roubando o gramado de um clube de golfe.

A própria questão do pântano é outro ponto que se assume como metafórico para revelar a natureza opressora e claustrofóbica da situação em que as personagens se encontram, bem como o clima “úmido”, ou seja, a água se revela sempre como um elemento de clausura, de morte, que puxa as personagens para um redemoinho de destruição e definhamento – algo visto de forma alegórica em uma cena em que Jack, que até pouco tempo houvera sido um exímio nadador, se afoga no mar. O título original é outro indício simbólico: the paperboy, ou “o jornalista” traduzindo-se para o português. Ele poderia se referir tanto a Ward, quanto a Yardley, porém esse vocábulo da língua inglesa cabe outra tradução: jornaleiro, ou seja, vendedor de jornais, tarefa essa desempenhada nos EUA por garotos, principalmente nas cidades pequenas, e na qual Jack se insere ao comercializar o jornal de seu pai. Daí se entende que, portanto, ele será sempre aos olhos da sociedade um garoto inocente vendedor de jornais, que não tem maturidade suficiente para os problemas da vida, mas que, no final das contas, se mostra a mais madura de todas as personagens, bem como quem presencia todos os delírios delas.

Lee Daniels cria, assim, um inventário do sul dos EUA, tarefa das mais difíceis, e coloca o dedo na ferida dos americanos, sem, no entanto, lançar o indicador em riste e atribuir culpados para as situações expostas em Obsessão, preferindo o caminho da crítica e da sutileza, mesmo esbarrando em temas polêmicos, que são deixados em aberto para a própria construção do espectador. Continuando nesse caminho, Daniels tem tudo para traçar uma trajetória muito interessante, melhor do que as de Spike Lee e John Singleton, que, infelizmente, se venderam ao cinema de caráter meramente comercial e deixaram de ser polêmicos (ou no caso de Lee, apenas em entrevistas). Paciência, cada um escolhe o caminho que deseja seguir, e parece que Daniels não deixará seu cinema reflexivo e detalhista de lado. Pelo menos, é assim que se espera…

10/10

Jefferson Assunção é crítico de cinema e cineasta. Administra o blog A Tela do Aventurar e é colaborador do site O Formalismo.

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