R.I.P.D. – Agentes do Além

Vez ou outra Hollywood revela algum diretor comercial que não tem nenhum talento a não ser o de saber encadear uma série de estereótipos e lugares-comuns que funcionam, apesar de não apresentarem nada de novo, e que sabe lidar bem com gêneros específicos. Esse é o caso de Robert Schwentke, responsável pelo sucesso da adaptação de H.Q. RED – Aposentados e perigosos (2010) – espécie de misto de Cocoon (1985), de Ron Howard, com Procurado (2009), de Timur Bekmambetov – e que agora aparece com outra adaptação de uma graphic novel de inspiração pulp: R.I.P.D. – Agentes do além (2013).

O filme em si não tem nada demais, nenhum grande atrativo a não ser a diversão pura (principalmente por ele haver sido lançado com cópias 3D, tal como dita a nova moda), porém o que chama a atenção são o punhado de chavões com que o diretor trabalha, mas que em suas mãos funcionam, de forma a fazer com que R.I.P.D. atinja seu principal objetivo: o entretenimento vazio e puro por pouco mais de uma hora.

Não que retirar do espectador a tarefa de pensar sobre algo possa ser visto como algum tipo de êxito (muito pelo contrário), porém nos dias de hoje, em que as pessoas trabalham tanto que mal tem tempo de refletirem sobre alguma coisa e onde pouquíssimos filmes conseguem a tarefa de distrair o público com alguma coisa que tenha pelo menos algum tipo de qualidade, quem consegue fazê-lo, pelo menos se destaca. Ora, para perceber isso, é só observar a premiação anual do Globo de Ouro, onde os filmes indicados aos prêmios da categoria correspondente a musical/comédia – que costumam ter um caráter comercial maior do que os que aparecem entre os indicados na categoria drama –, se comparados com obras do passado pertencentes ao mesmo gênero, chega-se à conclusão que são belas porcarias, mas quando confrontados com a maioria dos filmes atuais, vê-se que hoje em dia quem se sobressai são os melhores dos piores.

Em R.I.P.D., portanto, não há nada de novo: as personagens são as mesmas dos tipos de filmes que flertam com o gênero ação, ou seja, homens da lei durões e que abusam do poder conferidos a eles, que, enganados, deixaram de confiar em todos e que, após fazerem alguma grande bobagem e serem retirados do caso que investigavam, decidem por resolvê-lo mesmo assim colocando a sua própria conta em risco. Não é muito diferente de MIB – Homens de preto (1997), de Barry Sonnenfeld, com a diferença de que, ao invés de caçarem alienígenas, os agentes de R.I.P.D. correm atrás de almas que vagam pela Terra e, por isso, eles estão mortos e assumem avatares humanos.

Jeff Bridges representa a si mesmo, persona que assumiu definitivamente depois que venceu pela primeira vez um Oscar de melhor ator e se entregou, assim, a papéis cômicos que parodiam sua personalidade. Da mesma forma é Ryan Reynolds, espécie de primo pobre e sem talento de Sandra Bullock (quase uma versão masculina ou de calças da atriz), que desempenha sempre o cara durão (porém carinhoso com quem ele ama) com a mesma expressão facial de sobrancelhas cerradas e sorriso cafajeste. E óbvio, ainda há no filme uma historinha de amor água com açúcar para causar identificação no espectador, bem ao estilo Ghost – Do outro lado da vida (1990), de Jerry Zucker. Ryan Reynolds substitui, assim, Patrick Swayze, mas a personagem é a mesma, ou seja, uma alma que tenta se comunicar com sua amada e protegê-la de alguém que traiu sua confiança e que contribuiu de forma direta para a sua morte.

 Da mesma forma que RED parodiava os filmes de ação, R.I.P.D. satiriza o universo da ficção científica, porém força a barra em alguns elementos, como na citada história de amor, assim como na amizade entre Bridges e Reynolds, que rapidamente se convertem em amigos e parceiros inseparáveis, sendo que, há um minuto, o primeiro não queria saber da idéia de ter um parceiro. Outro ponto fraco da trama diz respeito ao fato dela se iniciar com uma cena que funcionará como flashback para a narrativa ser contada sob o ponto de vista de Reynolds, sendo que tal coisa não faz a menor diferença ao final das contas e não há nenhum motivo para que isso ocorra, algo que vem se tornando lugar-comum atualmente. Mesmo assim, como dito, em um mundo onde a maior parte do que entra em cartaz nos cinemas é uma grande porcaria, pelo menos ser o melhor dos piores já é alguma coisa, ou é um sinal de que, quem gosta do bom cinema (principalmente o clássico), deve correr para as montanhas ou para um mosteiro, e, tal como um monge eremita, passar a buscar justificativas filosóficas para o tanto de lixo que se tem visto ser despejado nas salas de exibição. Paciência…

5/10

Jefferson Assunção é crítico de cinema e cineasta. Administra o blog A Tela do Aventurar e é colaborador do site O Formalismo.

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