Elysium

Além de ter sido fundada por judeus, Hollywood desde sempre contou com cineastas, produtores e técnicos descendentes de estrangeiros, fato que remete à própria colonização dos EUA, que começou com as treze colônias inglesas e, logo depois, após a sua declaração de independência, adquiriu territórios de outros países através de guerras e compras. Os grandes donos de estúdio da chamada Meca do Cinema – título irônico, contrário a suas origens judaicas – também sempre souberam identificar os proeminentes talentos europeus, trazendo-os para a América – casos, por exemplo, de F. W. Murnau, Ernst Lubitsch e Paul Leni nos anos 1920, e Alfred Hitchcock entre o final da década de 1930 e início da de 1940. Além disso, Hollywood soube receber bem aqueles que fugiam da perseguição nazista ou que não concordavam com os ideais hitleristas.

Praticamente da mesma forma funciona até hoje, com a diferença de que, atualmente, essa acolhida dos estrangeiros subsiste através de certas estratégias de marketing, que incluem a “ajuda” da própria Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e das distribuidoras americanas. Em primeiro lugar, há a distribuição de cópias legendadas dos filmes vindos de fora dos EUA, que tentam fazer o público americano se acostumar com os realizadores de outros países e fazer com esses filmes obtenham alguma bilheteria considerável para, em seguida, levar esses cineastas para Hollywood. Em segundo, há a concorrida dos realizadores ao Oscar – quer seja na categoria melhor diretor, roteiro ou filme estrangeiro – como forma de torná-los conhecidos entre os americanos, fato que ocorre desde os anos 1950 (essa estratégia foi tentada com Federico Fellini, Ingmar Bergman, Gillo Pontecorvo, dentro outros), mas que só vem dando certo hoje em dia, o que pode ser comprovado pelos casos de Michael Haneke, Fernando Meirelles e Neill Blomkamp, por exemplo, que conseguiram chegar aos bolsos dos investidores internacionais e dos estúdios americanos.

Blomkamp, cineasta sul-africano descoberto pelo neozelandês Peter Jackson, que produziu e financiou seu primeiro longa-metragem, o impactante Distrito 9 (2009) – potente fábula de ficção científica sobre o abandono sofrido pelas paupérrimas nações africanas por parte dos países desenvolvidos e sobre a luta de classes passada em uma favela da África do Sul invadida por alienígenas–, obteve com ele indicações a melhor filme do ano, roteiro e efeitos especiais no Oscar, além de uma bilheteria considerável, sendo logo aclamado como uma revelação e, obviamente, levado para Hollywood, onde logo trataram de dar-lhe um orçamento alto (mais de cem milhões de dólares, quase quatro vezes maior do que o de Distrito 9) para uma nova produção.

Assim, Blomkamp realizou Elysium (2013), que chega agora aos cinemas brasileiros com o status de uma das maiores e mais importantes superproduções do gênero ficção científica dos últimos tempos, status esse completamente justificável. Para começo de conversa, o filme rememora a melhor tradição do cinema B de ficção científica dos anos 1950, 1960 e 1970 (e mesmo 1980, via John Carpenter e George Romero, ou mesmo Paul Verhoeven e o Ridley Scott de Blade Runner – O caçador de andróides [1982], no que diz respeito aos filmes A) –, tradição essa vinda da literatura do século XIX e do início do XX, com autores consagrados como H. G. Wells, Jules Verne, Philip K. Dick, George Orwell, L. Ron Hubbard, Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Richard Matheson, dentre outros. Esses autores, assim como o citado cinema B, têm como principal característica o estilo realista-fantástico, ou seja, que apresenta narrativas naturalistas escondidas sob uma roupagem quimérica, porém de universo metafórico e fabular em relação ao mundo em que vivemos. Obviamente, as semelhanças acabam por aí, pois Elysium, como citado anteriormente, teve um orçamento altíssimo e foi produzido através de computação gráfica, ao contrário dos filmes B das épocas passadas, que eram realizados com pouquíssimo dinheiro e contavam com efeitos especiais feitos manualmente.

Elysium narra a história de Max, latino que vive na Terra no ano de 2159, em um cenário pós-apocalíptico, quando o planeta encontra-se abandonado pelos governantes, que deixaram todos os indesejáveis (como os latinos, asiáticos, africanos e outros seres humanos de origem pobre) largados às doenças consideradas incuráveis e às epidemias, à falta de saneamento básico, à exploração (leia-se semi-escravidão) e à burocracia institucional, para viverem em um novo planeta: Elysium (ou Elísio em latim, local da boa-venturança), que, no final das contas, é uma espécie de satélite artificial da Terra (com aspecto de condomínio fechado pomposo cuja natureza lembra o quadro O jardim das delícias terrenas, de Hieronymus Bosch), onde residem todos os pertencentes às nações mais desenvolvidas, como os EUA, a França, a Inglaterra e a Alemanha. Max é um ex-ladrão de carros que sempre sonhou em viver em Elysium, até que um dia passa por um acidente em seu trabalho que o leva a se expor a uma alta carga de radiação, o que o condena à morte certa dentro de cinco dias, isso caso ele não consiga chegar clandestinamente em Elysium, onde poderia acessar uma das várias cápsulas localizadas nas residências de cada um dos moradores do local, que curam digitalmente qualquer tipo de doença ou enfermidade, caso se possua uma identificação, que é dada apenas aos habitantes de Elysium e não aos excluídos da Terra.

Assim, Max recorre a Spider, um amigo responsável por levar pessoas ilegalmente a Elysium (através de pagamento prévio). Para pagar a viagem, Max tem de prestar um serviço a Spider: pegar informações localizadas em um aparelho ligado ao cérebro de um megaempresário, dono da Armadyne, fábrica de robótica na qual Max trabalhava. A questão é que o empresário, a mando da secretária de Estado de Elysium, planeja reiniciar o sistema que controla o planeta para, dessa forma, ela dar um golpe e tomar o poder das mãos do presidente Patel. Quando consegue as informações, Max se torna procurado, pois com elas, ele pode reiniciar o sistema para que todos os cidadãos da Terra façam parte dele e, conseqüentemente, tornem-se iguais aos membros da sociedade de Elysium.

No filme de Blomkamp, as alegorias pulam da tela direto aos olhos do espectador. Primeiro há o fato da Terra haver sido largada a Deus dará pelos mais poderosos, logo se concluindo de forma óbvia que nosso planeta representa o terceiro mundo e Elysium os países ricos ou, em uma metáfora mais mordaz, os EUA, haja vista a cena em que habitantes da Terra tentam entrar em Elysium e são perseguidos por robôs, o que logo remete à tão protegida fronteira americana com o México. Se em Elysium também vivem pessoas de outras nações que não apenas os EUA e que não são segregacionados por suas origens, entende-se por aí uma referência à globalização, que excluiu as fronteiras do mundo capitalista. Por isso, em Elysium os marginalizados foram deixados na Terra para viverem sem amparo algum, pois o sistema capitalista não necessita deles, que devem, segundo essa lógica, serem jogados na lixeira. Além disso, o fato dos habitantes da Terra serem em sua maioria latinos, remete a algo real: aqueles que têm origem em nações de ascendência hispânica do continente americano e que possuem grandes riquezas escolheram ir viver em grandes mansões em Miami após as recentes ascensões de governos de orientação de esquerda em seus países de origem, uma vez que tais pessoas não concordam com as políticas de distribuição de renda desses governos.

Outra coisa, a personagem do presidente Patel lembra Barack Obama, pois tal como o atual presidente americano, Patel tem ascendência fora dos EUA. Enquanto Obama é filho de um queniano com uma texana e nasceu no Havaí, Patel, pelo próprio nome, dá a entender que é descendente de indianos. Porém, ele pode também ter nascido originalmente na Índia, país aliado dos EUA, e daí possivelmente se entende o porquê dele ser um fantoche nas mãos da secretária de Estado, Delacourt (que lembra Hillary Clinton), que se subentende ser natural da França, mais uma referência à globalização. Aliás, caso Patel seja mesmo uma alusão a Obama, isso seria uma forma de Blomkamp dizer que o atual presidente americano é um mero boneco com poucos poderes, que na verdade se concentram nas mãos de seu congresso.

Entretanto, o que mais chama a atenção é o fato de uma empresa de âmbito mundial, como a Armadyne, controlar todo o sistema que move Elysium, circunstância essa que alude ao capitalismo moderno, onde quem domina os governos e o mundo são as grandes empresas, que, além disso, são donas dos meios de produção e do capital. Dentro dessa análise alegórica do filme, cabe ressaltar também que os próprios robôs são uma clara menção aos humanos, que cada vez mais têm se automatizado graças às máquinas que os controlam no dia-a-dia do mundo contemporâneo e os fazem escravos da tecnologia e seres alienados. Ademais isso, essas personagens dos robôs também se relacionam à falta de humanidade de nossa sociedade, principalmente no que diz respeito aos meios burocráticos ligados ao governo. Isso se torna claro na cena em que Max visita seu oficial de condicional, um robô, que aumenta sua pena sem ouvir em nenhum momento sua justificativa para estar presente ali diante dele. Nesse caso, é bom deixar claro que, no filme, não existem ciborgues ou andróides nem na Terra, nem em Elysium, apenas robôs sem aspecto humano que são controlados pelos homens.

Outra metáfora diz respeito às cápsulas de cura para doenças e enfermidades presentes nos lares de Elysium, que se liga ao fato real dos mais pobres terem pouco acesso à saúde, caso, por exemplo, de Frey, amiga de infância de Max, que é enfermeira e, mesmo trabalhando no parco sistema público de saúde, sofre com sua filha pequena que tem leucemia. Além disso, a própria idéia do controle governamental também se reflete em outra personagem: Kruger (nome de origem alemã), espécie de mercenário contratado pelo governo para perseguir aqueles que tentam entrar de forma ilegal em Elysium ou mesmo que tentam roubar segredos de Estado, o que remete aos funcionários da CIA. Nessa personagem, assim como na de Delacourt, se concentra um dos principais temas do filme: o poder que sobe à cabeça daqueles que exercem grande influência sobre o mundo e que os fazem tomar decisões que prejudicam a todos, exceto a si mesmos.

De forma interessantemente esperançosa, Blomkamp termina Elysium com um final feliz, como se ele estivesse dizendo que, mesmo com toda a destruição causada pelo homem a seus semelhantes e a seu habitat, ainda é possível crer em algum tipo de revolução realizada pelos mais pobres que modificará a ordem do mundo. Nesse ponto, não é demais dizer que Elysium é uma espécie de filme socialista, que acredita na igualdade e comunhão dos povos, sem divisão de classes, e com a distribuição de renda em voga. Talvez por aí se entenda porque, quando Max consegue reiniciar o sistema, fazendo com que todos os seres humanos se tornem semelhantes, as primeiras imagens mostradas sejam de meninos africanos correndo em meio a uma favela, relembrando as próprias origens de Blomkamp. E que venham mais filmes do diretor, sem dúvida uma das maiores revelações recentes do cinema.

10/10

Jefferson Assunção é crítico de cinema e cineasta. Administra o blog A Tela do Aventurar e é colaborador do site O Formalismo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s