A Família

Durante muitos anos o ator Robert De Niro foi considerado um dos maiores intérpretes de sua geração, vinda a partir do início dos anos 1970, além de um grande propagador do Método do Actors’ Studio criado principalmente por Lee Strasberg a partir dos pressupostos de Constantin Stanislavski. Após muitos trabalhos sérios e caracterizações de personagens meticulosas, ele resolveu se entregar a papéis humorísticos que, de forma tanto jocosa quanto sarcástica, riem das personas criadas pelo ator no passado, que se especializou em viver personagens duronas e com problemas psicológicos sérios. Isso pode ser visto desde Ninguém é perfeito (1999), de Joel Schumacher, Máfia no divã (1999), de Harold Ramis, Entrando numa fria (2000), de Jay Roach (bem como em suas malfadadas continuações), O espanta tubarões (2004), animação de Vicky Jenson, Rob Letterman e Bibo Bergeron, Machete (2010), de Robert Rodriguez, passando até por grandes bobagens, como As aventuras de Alceu e Dentinho (2000), de Des McAnuff e Showtime (2002), de Tom Dey, e por um trabalho de cunho um pouco mais sério (O lado bom da vida [2012], de David O. Russel), que trouxe-lhe uma indicação ao Oscar depois de mais de dez anos sem ser lembrado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, além de uma parceria infeliz com outro gênio de sua geração: Al Pacino em As duas faces da lei (2008), de Jon Avnet.

Dessa forma, seria no mínimo curioso caso, após essa última indicação ao Oscar, Robert De Niro não aceitasse novamente um papel em um filme que risse dos tipos que ele deu vida no passado. Assim, chega-se a A família (2013), de Luc Besson, onde De Niro interpreta novamente um gângster, após alguns longos anos sem fazer esse tipo de personagem. Porém, além de ser um papel de um criminoso do baixo clero da máfia, tal como o ator acostumou-se a viver nos filmes do cineasta Martin Scorsese (que é o produtor executivo desse novo filme de Besson) – que incluem Caminhos perigosos (1973), Os bons companheiros (1990) e Cassino (1995) –, sua personagem é também uma espécie de azarado por natureza, cujas intempéries da vida o perseguem arduamente, característica essa que ainda conta com a “contribuição” do fato de ele e sua família viverem metidos em inúmeras confusões nas quais eles mesmos se meteram.

Dessa forma, Luc Besson cria uma estrutura narrativa com ecos de seus filmes policiais do passado, como Nikita – Criada para matar (1990) e O profissional (1994), que contavam com um estilo moderno, com uma montagem que remetia à linguagem dos videoclipes, muita ação e algumas tiradas cômicas. Porém, em A família, tudo se transcorre no nível humorístico, como se Besson misturasse referências aqui e acolá ao universo de Scorsese com algumas das melhores comédias contemporâneas – como Na mira do chefe (2008), de Martin McDonagh, Segurando as pontas (2008), de David Gordon Green, e Se beber, não case! (2009), de Todd Phillips –, colocasse tudo em um liqüidificador e batesse, chegando-se, assim, a seu filme.

A história é a da família Manzoni, cujo patriarca, Giovani, é um gângster ítalo-americano do Brooklin, em Nova York, que delata seus companheiros para o FBI e entra para o programa de proteção à testemunha, tendo de mudar seu sobrenome e ir viver em outro país. Dessa forma, eles se instalam na Normandia, França. Ali eles irão passar por inúmeras confusões que incluem a explosão de um supermercado por Maggie (em uma performance histriônica e caricata de Michelle Pfeiffer, características essas de sua personagem), a incursão de Warren (o filho mais novo) no mundo da troca de favores típico da máfia – que ele implanta em sua escola – a paixonite de Belle (a filha mais velha) por um professor e a relutância de Giovani descobrir de onde vem a sujeira do encanamento de sua casa, sua tentativa de fingir para os vizinhos ser um escritor sem, com isso, ser incomodado, e em escrever suas memórias. Besson pega, portanto, os estereótipos típicos dos ítalo-americanos e os desnuda através de suas próprias características de modo a criar uma espécie de paródia ou sátira do universo do crime, sem, no entanto, soar bobo, sem sentido ou sem vida.

O filme possui uma estrutura interessante, que evolui em um crescendo de violência que culmina com um final sangrento e funesto, onde toda a família se envolve para fugir de seus perseguidores, que descobrem seu paradeiro através de um simples detalhe que diz respeito a uma “brincadeira” de Warren que ganha o mundo e chega até a prisão onde se encontram os mafiosos delatados por Giovani. Assim, A família se traduz em uma tragicomédia (ou melhor, uma comédia trágica) com toques farsescos, que peca em alguns aspectos – o envolvimento amoroso da filha com o professor, que destoa do resto da trama e a faz se estender por demais, além do pouco aproveitamento da personagem Robert, um agente do FBI vivido por Tommy Lee Jones. Porém esses pequenos erros são compensados por grandes acertos humorísticos, como o modo com que Belle reage a uma tentativa de realização de sexo sem consentimento por parte de alguns novos colegas de escola metidos a valentões (que inclui uma surra em um deles com uma raquete de tênis), ou mesmo a homenagem a Scorsese (e ao mesmo tempo piada metalíngüinstica) em certo momento em que Giovanni é convidado para comentar uma exibição em um cineclube de Deus sabe quanto amei (1958), de Vincente Minnelli (filme que tem a ver com sua “nova profissão”), e, por um acidente, acaba sendo passado Os bons companheiros, o que faz o mafioso lembrar-se de seu passado. Além disso, há o modo como os gângsteres que estão atrás de Giovani e de sua família se vestirem, um estilo que trás à lembrança os anos 1920, 1930, 1940 e 1950, com chapéu e casacões pretos.

Outro ponto interessante é o fato do filme ser narrado em vários momentos por dois pontos de vista: o de Giovani e o de Malavita, o cachorro da família. Inclusive o título original do filme é o nome do animal, que, no final das contas, diz respeito a uma ambigüidade, pois a palavra malavita pode estar se referindo também às provações passadas pelo clã Manzoni, uma vez que esse vocábulo designa inferno em italiano.

Nada de excepcional, porém ótimo quando comparado ao universo de bobagens que vem sendo lançadas nos últimos tempos, A família acaba se destacando nesse cenário de mediocridade atual e pelo menos consegue fazer o que se esperava dele: arrancar boas risadas de seu espectador e fazê-lo sair do cinema refletindo sobre alguma coisa, não importando o que seja.

7/10

Jefferson Assunção é crítico de cinema e cineasta. Administra o blog A Tela do Aventurar e é colaborador do site O Formalismo.

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