Rush – No Limite da Emoção

Se você nasceu de 1990 pra cá, provavelmente vai se interessar por esse filme mais porque é o novo do Thor, ou melhor, do Chris Hemsworth. Se você não andou acompanhando filmes europeus nos últimos anos, ou não viu o penúltimo filme do Quentin Tarantino, também deve se interessar por Rush pelo mesmo motivo. Digo isso não de forma pejorativa, é apenas uma constatação, porque é difícil encontrar alguém que ainda acompanhe o tema catalisador deste filme que é o campeonato de Fórmula 1. Alguns podem até acompanhar a F1 ainda, mas a categoria mudou demais e muito pouco se parece com a época retratada no filme. Fatalmente, você só guarda dessa época alguma vaga lembrança de ter escutado o brado de alguém que torcia por Emerson Fitti-fuckin’-paldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna.

Infelizmente, isso se deve à crise dos pilotos brasileiros na Fórmula 1 desde a morte de Senna. Aí é que chegamos ao assunto da estreia da semana. O maior trunfo de Rush é também seu calcanhar de Aquiles. Tratar de Fórmula 1 neste momento de crise pode atrair apenas os saudosos da época áurea do esporte. Mas não se iluda, é um filmaço! Rush faz o que nenhuma adaptação cinematográfica jamais fez: contar uma história sobre a Fórmula 1. O ineditismo, então, é a maior qualidade do filme, no meio de tanta repetição e clichê nos roteiros de Hollywood. É claro que temos lá o close dos pistões dentro do motor e os carros tremendo quando acelerados, bem no estilo já visto em filmes de carros, mas é só. O maior circo de corridas de carro do mundo já foi retratado em inúmeros documentários, mas em uma adaptação poeticamente livre, baseada em fatos reais ainda não tinha acontecido.

Podemos começar falando da impecável ambientação setentista. Roupas, penteados e estilo dos personagens são maravilhosamente bem executados. Para os amantes da velocidade então, nem se fala, porque os pilotos e, principalmente, os carros de corrida são fielmente reproduzidos. A própria fotografia dá a sensação de estar vendo aquele televisor Telefunken de tubo de 1970. É muito legal rever aqueles carros, hoje antiquados, de volta em alto desempenho, como foram vistos na década de 70. Não só aqueles considerados lindos por unanimidade como as alvirrubras McLaren e Ferrari (isso mesmo, nessa época o carro da Ferrari tinha muito mais branco), mas também Lotus, Ligier, a Tyrrel bizarra de seis rodas e até a Hesketh branquinha sedenta por patrocínios (detalhe tão especial pra categoria, que movimenta muita grana e sem auxílio monetário as equipes não sobrevivem, como acontece ainda hoje).

No elenco, o badalado Chris Hemsworth representa um James Hunt típico de quando os playboys mandavam no mundo. Discordo de críticas que julgaram o ator como canastrão no papel de Hunt, pois ele executa uma canastrice honesta. O rapaz estava interpretando um cara cujo lema era “Sexo, o café da manhã dos campeões” (e ele fazia muito sexo!) e que se contentou por ser campeão uma única vez! James Hunt era o canastrão dos canastrões! Ele era um bom vivant, não um bon pilote, que foi cara de pau o bastante para se tornar um grande piloto da F1. Daniel Brühl, como sempre, dá show! Caracterizado como Niki Lauda, o camarada toma o filme para si. Tudo bem que acaba sendo mais fácil se destacar ao interpretar um personagem caricato como um rato, que além do mais, é construído como herói durante a maior parte do filme. Até o momento mais impactante do enredo vê-se uma dicotomia maniqueísta entre Niki Lauda – o mocinho obstinado, que consegue o que deseja de formas mais difíceis – e James Hunt – o belo vilão que tem tudo à mão, mas que afunda nas consequências dos próprios atos.

A bela trilha de Hans Zimmer deixa clara essa dicotomia e embala com maestria a flutuação entre bons e maus momentos dos dois protagonistas. Depois do acidente do piloto austríaco é que fica claro como o filme não conta apenas um causo da Fórmula 1. Ele se torna muito intenso quando trata de relações humanas entre pessoas comuns, porém de ego e estado de espírito extraordinário. Ou alguém acha que é trivial correr a mais de 200 km/hora? Não é. Ainda mais quando a Fórmula 1 era espartana se comparada com a atual, tão segura e high tech. Ou os caras são movidos por serem estrategistas frios e calculistas ou por serem playboys inconsequentes. Neste ponto, percebe-se que ser mocinho ou bandido entre pilotos de corrida depende do ponto de vista. Com esta reflexão é que o filme termina, da mesma forma como acaba a temporada de F1. A adrenalina diminui aos poucos, o ronco dos motores cessa e logo resta o silêncio da tela escurecida. Só sobrou aquela sensação de não ter nada pra fazer nas manhãs de domingo.

9/10

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