Lovelace

Garganta profunda arrecadou mais de US$ 600 milhões de dólares. Linda Lovelace recebeu US$ 1250,00.”

Esses dizeres, que constam antes dos créditos finais de Lovelace (2013), de Rob Epstein e Jeffrey Friedman, dizem muito sobre o filme que acabou de ser projetado. Ele narra a história de Linda Lovelace, considerada oficialmente a primeira atriz pornográfica da história do cinema. Mesmo Garganta profunda (1972), de Gerard Damiano, tendo causado polêmica à época (sendo, inclusive, alvo da censura), e, com isso, tendo levado a atriz ao posto de símbolo sexual e, paradoxalmente, ícone da revolução sexual e do feminismo (ainda que sem querer), esses não são os principais motes de Lovelace, nem mesmo os bastidores da indústria pornográfica – como se mostrou, por exemplo, Boogie nights – Prazer sem limites (1997), de Paul Thomas Anderson –, e sim a vida de Linda, ou seja, a mulher por trás do mito.

Epstein e Friedman optam por, assim, revelarem quem foi a verdadeira Linda Lovelace e quais os motivos que a levaram a participar de um filme pornográfico. Para tanto, eles resumem já de início toda a polêmica e sucesso de Garganta profunda com sons diegéticos de programas de rádio e TV, além de falas de personagens, que aparecem de forma cacofônica e aleatória em uma cena onde Linda se encontra tomando banho em uma banheira, uma maneira simples de mostrar que esses sons são vozes em sua cabeça e por isso eles são revelados de maneira tão dissonante. Com isso, os diretores já dão de cara a seguinte dica: esse não será um filme sobre o universo da pornografia, nem sobre as controvérsias que ela envolve, embora esses temas estejam lá apenas como um subtexto para a trama principal.

Logo após, há um corte para uma cena onde Linda e sua amiga Patsy tomam banho de sol enquanto fumam um cigarro. Um letreiro diz que a história se localiza no ano de 1970, em uma cidade pequena da Flórida. Essa cena, assim como as seguintes que mostram Linda antes da fama, servirão para resumir a educação em que ela foi criada. Sua mãe é católica fervorosa e subserviente a seu esposo. Ambos são infelizes no casamento, porém nada revelam sobre isso e preferem manter o matrimônio, uma vez que sua religião (segundo os preceitos do “até que a morte os separe”, ou do “o que Deus uniu, o homem não rompe”) prega a união eterna. Essa cena e as seguintes resumem essa educação católica e espartana de Linda pelo fato de sua mãe sempre estar lhe dando reprimendas por coisas aparentemente fúteis, como por exemplo, em certo momento que a moça leva um tapa no rosto apenas por ter chegado um pouco mais tarde em casa do que o combinado. Porém, logo à frente, descobrimos que Linda engravidou jovem e teve de dar seu filho para adoção, e que, quando tinha dezoito anos, sua mãe teria engravidado da irmã de Linda, fatos esses que levam a entender os porquês das repreensões e da educação rígida por parte da mãe, pois, obviamente, ela não quer que ocorra com a filha o que ocorreu com ela. Aliás, diga-se de passagem, todas as mães são assim, o que faz, a partir disso, o filme carregar um aspecto de universalidade e identificação perante o espectador.

Em seguida, Linda conhece Chuck, e ambos começam a namorar. O rapaz se apresenta um gentleman no início, indo inclusive visitar os pais da moça e arrancando elogios deles. Quando não agüenta mais as reprimendas da mãe, Linda vai viver com Chuck e logo os dois se casam. Ele é dono de um bar onde apresenta filmes pornográficos caseiros e onde jovens dançarinas se exibem. Os problemas começam quando as garotas passam a fazer programas por conta própria e Chuck é preso erroneamente sob a acusação de associação com a prostituição, como se ele fosse agenciador ou cafetão das moças. Linda consegue pagar sua fiança, mas não os advogados e os outros gastos.

Dessa forma, Chuck vislumbra uma maneira de arrumar dinheiro rápido: levar Linda a participar de um filme pornográfico. Ele tem contatos com grandes produtores que financiam e realizam esse tipo de cinema: seus amigos Butchie Peraino e Anthony Romano, além do diretor Gerard Damiano. A princípio, eles não querem uma moça magra, sardenta e de olhos saltados como Linda, uma vez que, segundo sua alegação, o público quer moças loiras, de seios fartos e glúteos grandes. Porém, Chuck lhes mostra um filme caseiro revelando as intimidades entre ele e Linda, onde ela realiza sexo oral nele. Todos ficam impressionados com o “talento” da moça em fazer o que se chama na indústria pornográfica de “garganta profunda” e logo mudam de idéia, colocando-a para estrelar um filme, de mesmo nome da “técnica” sexual citada. A premissa do mesmo é a mais boba possível: Linda vive a si mesmo, como uma moça que não consegue atingir o orgasmo até descobrir que seu clitóris está localizado na garganta, e, portanto, ela só atingirá o prazer pleno através do sexo oral. Como estratégia de marketing, os produtores de Garganta profunda escolhem para Linda o nome artístico Linda Lovelace – algo como cordão de amor em inglês – substituindo seu sobrenome de batismo (Boreman), e também tratam de colocar nos créditos do filme, que a atriz interpreta a si mesma, como forma de levar à identificação do espectador, querendo dizer que a moça é uma pessoa comum.

Logo, o filme se torna um megassucesso, maior do que o de outros campeões de bilheteria do período, como Love story (1970), de Arthur Hiller, O poderoso chefão (1972), de Francis Ford Coppola, e O exorcista (1973), de William Friedkin. Apenas para abrir um parêntese, a comparação, em termos de sucesso, com filmes pertencentes a um tipo de cinema aceito para a época são válidas, pois, por fazer parte de um gênero espúrio, Garganta profunda tinha, por natureza própria, dificuldades em ser distribuído, podendo ser visto apenas em salas de cinema específicas – o que torna seu êxito financeiro ainda mais importante –, porém com seu feito retumbante, ele passa a ser exibido até em grandes complexos de cinema, logo roubando as manchetes dos jornais da época devido à sua enorme polêmica e coragem. A partir disso, dá para se entender porque o crítico e cineasta François Truffaut certa vez afirmou que no futuro o cinema pornográfico seria um gênero tão forte quanto os outros estilos fílmicos de caráter comercial (como a comédia, o policial, o drama, o musical, etc.).

Voltando a Lovelace, com o sucesso de Garganta profunda, do qual Linda aparentemente sente-se orgulhosa, se “termina”, assim, a primeira parte do filme. Primeira parte porque, até aí, o espectador é, de certa maneira, enganado por Epstein e Friedman, que invertem brilhantemente o eixo narrativo de sua história. Até então, imaginava-se que Linda havia aceitado atuar em Garganta profunda por amor a Chuck e por vontade de ter dinheiro o suficiente para ajudá-lo a se livrar da cadeia, o que em seguida se revela uma inverdade. O que se viu até aquele presente momento foi nada mais do que a superfície ou as coisas boas das quais Linda se lembrava de vida. Logo em seguida, serão revelados os porquês dela ter se sujeitado a fazer um filme pornográfico. A partir disso, a trama, até então vista sob o ponto de vista de Linda, passa a ser contada através de dois olhares: o de Chuck e o que corresponde à consciência ferida de Linda. Com isso, passamos a presenciar a encenação das mesmas cenas vistas antes, porém a partir de outros ângulos que mostram que Chuck não era quem se pensava ser, ou seja, um marido carinhoso e zeloso que levou sua esposa ao universo da indústria pornográfica por vontade dela própria. Ao contrário, ele deixou de ser o homem afável do início do relacionamento entre eles para se tornar alguém violento e truculento, que bate na esposa e a obriga a fazer coisas que ela não quer.

Então, fica claro que o modo com que Linda passou a receber seu sucesso repentino foi apenas uma forma de agradar o marido. Aliás, a violência de Chuck e o fato do casamento entre ele estar indo morro abaixo, é algo perceptível antes inclusive da mudança no eixo narrativo, quando, por exemplo, o rapaz manda a esposa sentar no colo de Anthony durante uma festa após o lançamento de Garganta profunda e ela responde de forma grosseira, dizendo-lhe para ele mesmo se sentar no colo do chefão. Esses fatos também já eram perceptíveis anteriormente a partir do modo superprotetor com que Chuck tratava Linda, o que mais à frente revela outro segredo: ele era o responsável pelas finanças da esposa, não a deixando tocar em nenhum centavo, desperdiçando todo o dinheiro com uma mansão na Califórnia, carros caros, festas, drogas e produtos sexuais que estampam a marca Lovelace, como bonecas infláveis e pênis de plástico, espécie de protótipo dos hoje famigerados sex shops.

A situação piora quando Chuck adquire uma dívida com Anthony e obriga Linda a se prostituir para que ele possa pagar o produtor. Linda acaba vendo que não pode contar com ninguém. Tanto é que, certa noite, quando ela foge de Chuck e vai para casa de seus pais, ela tem de ouvir da boca de sua mãe que a partir da hora em que ela se casou, não há mais escapatória, e pior: se Linda apanhou do esposo foi porque ela fez algo de errado e mereceu tal castigo. Lógico que a culpa não é de sua mãe por pensar desse jeito, pois, afinal de contas, ela foi criada dentro de uma educação católica e subserviente diante do homem.

Nesse tour de force através da trajetória de Linda contada na tela, Epstein e Friedman optam por não estabelecerem propriamente uma linha narrativa clássica, com qualquer tipo de ordem cronológica. Pelo contrário, os fatos vão aparecendo aos poucos de modo a ilustrarem cada momento passado por Linda e, também, a forma embaralhada com que ela se lembra de tudo, pois, afinal de contas, tal como dito anteriormente, o eixo principal da narrativa é visto sob o ponto de vista dela. Assim, em determinando instante, a história dá um salto enorme, indo parar em outro momento, quando Linda está fazendo um teste de polígrafo para provar para um determinado editor de livros se o que ela conta sobre sua vida é verdade e, portanto, se ela pode publicar sua autobiografia. Logo em seguida, é mostrado que ela conseguiu fugir de Chuck e, com a ajuda de Anthony (que apesar de tudo é um homem honrado), se separou e se tornou livre para seguir seu caminho. Linda se casou novamente, teve um filho, e publicou sua autobiografia, se tornando, inclusive, uma ativista na luta contra qualquer tipo de violência física ou sexual desferida à mulher.

Essa escolha por uma narrativa fragmentada leva a constatar-se nas entrelinhas que, mesmo Linda nunca tendo tido a intenção de se tornar um ícone do feminismo, ela acabou se tornando um por vias tortas, não pela coragem de estrelar um filme pornográfico, uma vez que ela foi obrigada a tal, e sim por tudo que simbolizou sua luta pelos direitos da mulher em se tornar independente do homem em um mundo dominado pelo patriarcalismo. Além disso, essas escolhas por parte dos diretores no modo de contarem a história de Linda levam o espectador aos poucos, principalmente no momento de inversão do eixo da narrativa, a quebrar seus próprios preconceitos e hipocrisias, uma vez que se passa a ver que Linda teve de fazer tudo o que fez por causa das agressões de Chuck, o que leva a questionar se essa não seria também a realidade de outras atrizes pornográficas e até mesmo de garotas de programa.

De modo a inserirem o espectador no universo de Linda Lovelace, Epstein e Friedman optam por uma imagem marcada pelo granulamento típico de muitos filmes caseiros dos anos 1960 e 1970, tal como eram as várias obras de cunho pornográfico lançadas à época. No início, os tons da fotografia são vivos, logo assumindo matizes próximos ao azul e de caráter obscurantista, que também é visto nas sombras que parecem fantasmas a perseguirem Linda.

Lovelace termina com um reencontro de Linda com seus pais, que a acolhem após descobrirem através da mídia que a filha sofria violência física, mas os erros do passado continuam a perseguir a todos. De forma metafórica, Epstein e Friedman encerram seu filme com um grande plano geral da vizinhança onde vivem os pais de Linda, ao mesmo tempo isolando as personagens na imagem, que passam a parecer meros insetos ou pequenos pontos no enquadramento, forma dos diretores dizerem que, mesmo juntas, essas personagens são seres solitários no mundo, e ao mesmo tempo uma maneira de passarem a idéia de que, nos arredores de qualquer vizinhança ou comunidade, não só podem, como devem se esconder histórias de vida como a de Linda, ou piores do que a dela, mais uma vez um jeito dos cineastas romperem com a hipocrisia de seus espectadores, que muitas vezes podem acreditar que um tipo de história como a que se acabou de ver não pode estar próxima de qualquer um ou mesmo dentro da casa de qualquer pessoa. Pois é, a verdade é que nossos preconceitos, infelizmente, nos movem, e de vez em quando é bom assistir a um tipo de filme como Lovelace para se levar um soco no estômago que nos faça despertar para o fato de que existem outras pessoas com sofrimentos maiores do que os nossos e que, nem por isso, elas desistem da vida.

10/10

Jefferson Assunção é crítico de cinema e cineasta. Administra o blog A Tela do Aventurar e é colaborador do site O Formalismo.

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