A Filha do Meu Melhor Amigo

O panorama atual do dito cinema comercial vem revelando principalmente uma grande safra de comédias, gênero dos mais difíceis de realizar e de atingir o gosto do público. Infelizmente, raramente tem surgido algum filme desse estilo que fuja do lugar comum. A maioria tem apelado para supostas piadas que esbarram em preconceitos e estereótipos rasos, quando não apostam na pura, simples e nojenta (por natureza) escatologia. Felizmente, esse não é o caso de “A Filha do Meu Melhor Amigo” (2011), de Julian Farino, que só chega agora aos cinemas. Curiosamente, o projeto de execução desse filme estava parado desde 2008, quando constava na lista negra de roteiros que esperavam algum estúdio interessado em financiá-lo. Quem o leu à época, o definiu como um misto de “A Primeira Noite de um Homem” (1967), de Mike Nichols, e “Entrando Numa Fria” (2000), de Jay Roach, duas obras que esbarram no choque de gerações e em famílias desajustas socialmente.

Comparações à parte, não deixa de ser interessante o paralelo com pelo menos “A Primeira Noite de um Homem”, uma vez que “A Filha do Meu Melhor Amigo” trata de um relacionamento entre duas pessoas de idades distintas. Enquanto o primeiro chocou a geração dos anos 1960 com novos padrões femininos estabelecidos pelas revoluções e contraculturas da época através do retrato de um jovem que se relaciona sexualmente com uma mulher mais velha e depois se apaixona por sua filha, o filme de 2011 de certa forma inverte a situação e a torna um pouco mais complexa, apesar de não se aprofundar tanto nela. Para começar, a trama se passa em um bairro de classe média de Nova Jérsei, palco para inúmeros preconceitos e tradicionalismos que se tornam uma espécie de súmula da família americana comum. Ali conhecemos duas famílias: os Ostroff e os Walling, cujos patriarcas, David e Terry, são amigos inseparáveis há anos e vivem de frente um para o outro, mas escondem algo. Eles são infelizes em seus respectivos casamentos. Terry tem problemas sexuais com sua frígida esposa e David não se dá bem com sua mulher há anos, algo que o leva a várias noites seguidas dormir no sofá, o que é revelado por ele com certo constrangimento.

Nesse contexto, aparece Nina, a filha de Terry, que há anos viaja pelo mundo e não vê os pais. Ao brigar com o namorado (que a trai) com quem planejava se casar apenas para irritar seus pais, ela retorna a Nova Jérsei com o rabo entre as pernas, para surpresa de todos. A partir daí, ela começa a se interessar por David e os dois começam a nutrir um relacionamento às escondidas, isso até a enxerida mãe de Nina descobrir tudo.

Narrado através do ponto de vista da filha de David, Vanessa – que foi amiga de Nina na adolescência, mas da qual se distanciou a medida que ambas cresceram – a trama é revelada através de uma narração em voz over da personagem, como se ela estivesse escrevendo um livro ou um diário em que rememora as situações passadas pelas duas famílias após o retorno de Nina. O interessante é que, com isso, as personagens passam a ser questionáveis, pois elas estão sendo vistas através dos olhos de alguém que está inserido de forma direta em toda a trama e que a vê com um olhar extremamente crítico.

O que torna “A Filha do Meu Melhor Amigo” um filme curioso e que se destaca no atual panorama das comédias é o fato dele lidar com um tema ainda considerado tabu e polêmico em nossa sociedade: o relacionamento entre pessoas de idades diferentes (e pior, entre um homem e a filha de seu melhor amigo), algo que se esperava já estar superado, mas que é utilizado pelo diretor Julian Farino (que veio da TV para fazer seu primeiro trabalho no cinema) de modo a trabalhar os preconceitos das comunidades tradicionalistas e patriarcais, e ainda de quebra falar sobre a temática da busca pela felicidade nas sociedades modernas, principalmente nos EUA, vendido como o país da liberdade plena, mas que, com seu american way of life, termina por esconder dentro dos subúrbios de classe média, insatisfações familiares que se perdem em meio à idéia de que o matrimônio é algo eterno, mesmo quando o amor esfria e a felicidade termina.

Dentro disso, Farino retira o humor de situações do dia-a-dia (que confere certa leveza ao filme), o que, no fundo, transforma seu filme em um profundo drama, algo que é indicado pelas atuações: Terry com sua dificuldade de expor o que lhe incomoda, David com sua expressão de peso nos ombros e culpa, Paige (a esposa de David) com sua forma rude de tratar o esposo, e Vanessa, com seu modo depressivo de lidar com sua vida, o que a faz ter medo de se tornar adulta e abandonar o conforto do lar dos pais. De certa forma, a passagem de Nina pela vida de todos carrega mudanças que os farão tornarem-se pessoas melhores, algo que transforma A filha do meu melhor amigo em um rito de passagem, porém sem incorrer em algum moralismo bobo, um risco possível para esse tipo de filme. O que o torna interessante é que todos sofrem mudanças no decorrer da trama, menos Nina, que apesar de ganhar certa maturidade, continua a mesma menina/mulher indecisa de sempre.

Dessa forma, A filha do meu melhor amigo termina com um suposto final feliz, onde todos superam seus problemas pessoais (pelo menos aparentemente), mas não seus preconceitos. Infelizmente o título em português nada diz sobre o filme e perde o sentido original, porém seu título original (The Oranges), que faz referência à laranja – algo também expresso nos cartazes de divulgação – diz respeito à idéia da fruta que pode ser descascada em busca de sua poupa, seu interior, o que ocorre no filme, uma vez que ele trata de um quase desnudamento do interior das famílias tradicionalistas americanas. Melhor crítica do que essa não há, pois ali é retratada uma sociedade hipócrita que finge aceitar com naturalidade relacionamentos entre pessoas de idades diferentes, porém continua sem compreender que as razões do amor e da busca pela felicidade não podem ser explicadas ou entendidas, apenas aceitas. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência…

7/10

Jefferson Assunção é crítico de cinema e cineasta. Administra o blog A Tela do Aventurar e é colaborador do site O Formalismo.

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