Se puder… Dirija!

Definitivamente, por mais duro que seja afirmar isso, o cinema (com raras exceções) deixou de ser uma arte para se tornar, na contemporaneidade, um balcão de negócios, onde se sobressaem não mais aqueles com idéias e ideais diferentes do comum e que enxergam além do óbvio, e sim os que conseguem reunir em um filme o maior número possível de aspectos vendáveis por si só. Pode-se atribuir a isso o fim da Era de Ouro dos estúdios cinematográficos de Hollywood, que trouxe para o lugar dos antigos chefões desses estúdios donos de empresas que nada tinham a ver com cinema e fizeram com que essa arte se transformasse em um mero negócio que visa apenas os lucros, fenômeno esse que afetou o resto do mundo através da ascensão do cinema publicitário principalmente a partir dos anos 1980, esse de estética clean e higienizada.


Tanto é assim que, hoje os filmes brasileiros de épocas anteriores aos anos 1990, assim como alguns atuais, são criticados por uma suposta falta de qualidade – tanto em termos de imagem quanto em aspectos sonoros – quando comparados com filmes americanos dos mesmos períodos, filmes esses que estabeleceram padrões naquele momento inalcançáveis e hoje praticamente acessíveis, quando se conta com um orçamento razoável. Entretanto, é irônico notar que tais obras brasileiras do passado criticadas – essencialmente as pertencentes ao Cinema Novo, ao Cinema Marginal e à chamada Boca do Lixo – foram grandes sucessos de público quando de seus lançamentos (com exceção da maioria absoluta dos filmes do Cinema Novo).

Assim se chega ao cinema brasileiro comercial contemporâneo, onde o pastiche ou a paródia realizados em relação ao produto estrangeiro em forma de antropofagia e/ou deboche – tal como era feito na época das Chanchadas e posteriormente das Pornochanchadas – deu lugar à mera imitação que retira a marca da criação da obra e coloca a marca da reprodutibilidade técnica propagada por Walter Benjamin nos anos 1950[1].

Desse cenário catastrófico – onde obras de aspecto deplorável absurdamente são financiadas com dinheiro público provindo das leis de incentivo – saem boa parte das comédias despejadas aos montes durante todos os últimos anos nos cinemas brasileiros, que acabam por entupir as salas de exibição dos shoppings centers com milhões de espectadores, uma vez que, atualmente (principalmente), a qualidade vem sendo medida através de números e não a partir de algo de inteligente que possa conter a obra cinematográfica.

Dessa safra saiu o sofrível Se puder… dirija (2013), de Paulo Fontenelle, em que a velha história do pai relapso que trabalha bastante e não tem tempo para seu filho é novamente narrada, mais uma vez com um final feliz que julga construir uma moral fabular (sem no entanto consegui-lo de fato) através de uma narrativa de cunho essencialmente moralista que seria linda caso fosse ali feita uma crítica ferrenha ao capitalismo selvagem que leva a maioria das pessoas a trabalharem loucamente para darem algum conforto a seus filhos sem, no entanto, terem tempo para eles. Esse formato de narrativa obviamente é apenas uma estratégia para fazer pais levarem filhos aos cinemas, para que, nesses tempos onde o “fenômeno” explicado anteriormente ocorre, possam se divertir despretensiosamente ao lado de suas crianças em um momento fugaz onde elas não aprenderão nenhuma lição, nem crescerão como indivíduos. Nada de novo, pois esse modelo já tinha sido usado no divertido Um herói de brinquedo (1996), de Brian Levant, e no recente (e detestável) Click (2006), de Frank Coraci, mais uma comédia da safra estrelada pelo pseudo-comediante Adam Sandler.

No caso de Se puder… Dirija as mesmas piadas escatológicas estão lá – como um cachorro com problemas intestinais e um acidente com uma chave de carro que cai em um vaso sanitário –, embora não de forma tão nojenta e grotesca como presente nos filmes de Sandler. Entretanto, o filme já começa mal ao ser vendido como o “primeiro filme brasileiro feito em 3D”. Durante cerca de uma hora e meia de projeção somente duas cenas se apresentam nessa tecnologia, sendo que em ambas são jogados objetos no espectador (no caso uma chuva de papéis picados), uma completa falta de compreensão do processo de projeção em três dimensões que vem sendo propagada por noventa e nove por cento dos filmes realizados com ela – com as exceções de Avatar (2009), de James Cameron, A caverna dos sonhos esquecidos (2010), de wener Herzog, A invenção de Hugo Cabret (2011), de Martin Scorsese e Pina (2011), de Wim Wenders. Fica claro que a estratégia de anunciar Se puder… dirija como um filme 3D é nada mais do que uma forma de aumentar o lucro obtido por ele, uma vez que os ingressos para se assistir à projeção em três dimensões são mais caros, mesma estratégia utilizada com o recente relançamento de filmes de animação da Disney não realizados em processo 3D em “novos” formatos dentro dessa tecnologia (“que coincidência”, Disney, a mesma distribuidora de Se puder… dirija, que aliás parece mais uma produção dos canais a cabo infantis).

E se já não bastasse isso, ainda por cima, Se puder… dirija é completamente mal construído, com o protagonista vivido por ninguém menos do que Luiz Fernando Guimarães – que vem se tornando especialista em interpretar personagens de pais idiotas – mal ajambrado dentro da narrativa, pois, além de um completo azarado (em que mundo ocorre uma sucessão de infortúnios a uma única pessoa como os que acontecem com ele?), ele ainda é um completo estúpido, que de fato não está nem aí para seu filho (e de repente começa a se importar) e sim para seu ego de suposto bom pai, e ainda por cima faz tudo errado, merecendo cada uma das desgraças que lhe ocorrem, fato esse que causa efeito contrário no espectador, que, ao invés de torcer para que tudo dê certo para o personagem, passa a torcer pelo oposto.

É simples, não há muito que falar sobre Se puder… Dirija, exceto de que ele, junto de mais uma série de produções comerciais recentes do cinema brasileiro tem copiado burramente o produto estrangeiro, essencialmente o vindo de Hollywood. Se pelo menos fosse uma cópia com alguma competência (se é que isso é possível), iriam recorrer às melhores comédias lançadas por lá nos últimos anos, como Superbad – É hoje (2007), de Greg Mottola, Segurando as pontas (2008), de David Gordon Green, e Se beber, não case! (2009), de Todd Phillips, por exemplo. Entretanto, obviamente, tem-se sempre de copiar dos piores exemplos. Há apenas de se lamentar e torcer para que o cinema brasileiro comercial (apesar que até o dito cinema não comercial é em sua grande parte ruim também, assim como o cinema em geral) não seja levado para o abismo, se é que ele já não se encontra lá…

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youtube=http://www.youtube.com/watch?v=XJuqYfjvCYM

[1] Benjamin (1955) falava da reprodutibilidade técnica referindo-se à obra de arte, ao cânone, algo que hoje em dia esvaiu-se pelas mãos da cultura cada vez mais massificada e de impossível diferenciação entre pop e erudito, dicotomia essa não mais aplicável hoje em dia. BENJAMIN, Walter. A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica. In: ADORNO, Theodor et al. Teoria da Cultura de Massa. Trad.: Carlos Nelson Coutinho. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

Jefferson Assunção é crítico de cinema e cineasta. Administra o blog A Tela do Aventurar e é colaborador do site O Formalismo.

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