Vendo ou alugo

“Minha tese é a seguinte: se meu vizinho lançar o vídeo do churrasco dele no esquema da Globo Filmes, ele fará 200 mil espectadores no primeiro final de semana. […] O sistema Globo Filmes faz mal à idéia de cultura no Brasil, atrofia o conceito de diversidade no cinema brasileiro e adestra um público cada vez mais dopado para reagir a um cinema institucional e morto.”

(Kleber Mendonça Filho)

Apesar do filme Vendo ou alugo (2013), de Betse de Paula – de O casamento de Louise (2001) e Celeste e Estrela (2002) e filha de Zelito Viana, produtor de grandes clássicos do Cinema Novo – não haver sido realizado sob a tutela da Globo Filmes, a frase do cineasta e crítico de cinema Kleber Mendonça Filho que abre esse artigo serve para exemplificar o atual estado do cinema brasileiro como um todo, particularmente o da ala do chamado “cinema comercial” – expressão das mais prostituídas e mal utilizadas (afinal, como dizia François Truffaut, todos os filmes, comerciais ou não, são comercializáveis, “ou seja, constituem objeto de compra e venda”) –, filão esse do qual o mais novo filme de Betse de Paula faz parte.

Mesmo mostrando-se verdadeira em partes, essa frase de Kleber Mendonça é, no final das contas, ambígua, pois, como dito, guarda algo que se demonstra como real dentro do panorama imediato da cinematografia nacional, porém também se mostra hipócrita. Obviamente, praticamente ninguém – exceto os executivos da Globo Filmes e de outras distribuidoras/produtoras de cunho “comercial” – discorda do fato de ser um absurdo projetos cinematográficos vendáveis por si só serem financiados com dinheiro público (mesmo que se considere aí uma suposta isonomia por parte dos editais de leis de incentivo). Entretanto tais projetos conseguem em quase cem por cento das vezes se pagarem e obterem lucros quando colocados “à venda” no mercado, o que não ocorre com os filmes considerados como não comerciais, que por vezes nem chegam às salas de exibição de cinema, ficando relegados ao universo paralelo das mostras e festivais, isso quando não permanecem poucos dias ou semanas em cartaz e o público em sua grande maioria nem se dá conta de sua existência.

Ou seja, o âmago do problema não está na velha e estúpida oposição “cinema comercial x cinema fruitivo (ou voltado para o raciocínio e não para o entretenimento rasteiro)”, e sim no sistema de financiamento em si. Afinal de contas, trocando em miúdos, no Brasil, o financiamento da cultura funciona através de isenção fiscal concedida pelo governo a uma empresa através das chamadas leis de incentivo ou o chamado fundo, que é constituído com dinheiro público de reserva para custear a cultura. Então, não há pressão nos ombros do produtor cultural para haver retorno em cima daquilo em que se investiu, tal como ocorre em outras economias capitalistas ao redor do mundo, no chamado sistema industrial, propagado por Hollywood. É simples, basta prestar contas ao governo após a execução do projeto, não é preciso devolver parte do lucro para, assim, pagar o financiamento, que, nesse caso, seria na verdade um empréstimo. A questão é que, nessa altura do campeonato, o sistema está viciado, bem como aqueles que estão inseridos nele. No final das contas, a verdade é que, se amanhã ou depois, as leis de incentivo forem extintas, a maioria dos produtores culturais não saberá se virar de outra forma para financiarem seus projetos.

De qualquer forma, a questão é que, como dito anteriormente, os filmes de cunho comercialista, em qualquer outro país teriam financiamento fácil e garantido, uma vez que qualquer produtor com visão marqueteira vislumbraria aí uma oportunidade de obter um bom lucro em bilheteria e iria atrás de dinheiro para custear esse filme, principalmente se ele contasse com grandes estrelas no elenco – a chamada adoração à vedete por parte do público, como dito nos idos dos anos 1950 por André Bazin na Cahiers du Cinéma.

No caso do Brasil, não podemos nos esquecer de que a média de público que costuma assistir às produções da Globo Filmes e afins (por volta de um milhão de pessoas), em uma análise aprofundada, não é um número grande, uma vez que não corresponde a nem dez por cento da população brasileira, fator esse que revela a disparidade diante dos produtos estrangeiros, principalmente das superproduções vindas de Hollywood. Mesmo assim, como tudo depende do ponto de vista pelo qual é analisado, dentro da realidade do cinema brasileiro atual, onde muitas produções sequer chegam às salas de exibição, um milhão de espectadores é um número que pode ser considerado alto.

O que chama a atenção é o fato da maioria das produções voltadas para o comercialismo por si só realizadas no Brasil, principalmente as do gênero comédia, possuírem estética publicitária, narrativa folhetinesca e ideário de telenovelas. Pode-se citar produções como Se eu fosse você (2006), de Daniel Filho – além de sua continuação de 2009 –, A mulher do meu amigo (2008), A mulher invisível (2009) e O homem do futuro (2011), os três de Cláudio Torres, Cilada.com (2011), de José Alvarenga Jr., De pernas pro ar (2010), de Roberto Santucci, Muita calma nessa hora (2010) e E aí… comeu? (2012), ambos de Felipe Joffily, Os penetras (2012), de Andrucha Waddington, além dos recentes Odeio o dia dos namorados (2013), de Roberto Santucci, O concurso (2013), de Pedro Vasconcelos, Vai que dá certo (2013), de Maurício Farias, Giovanni Improtta (2013), de José Wilker, dentre outras.

Todos os filmes citados têm em comum as características expostas acima. E eis que se chega a Vendo ou alugo, comédia que ri da decadência da burguesia brasileira através da personagem de Maria Alice, dona de um casarão no bairro do Leme, no Rio de Janeiro, em meio a uma favela que se desenvolveu nas últimas décadas. Ela mora com a mãe (uma jogadora compulsiva de pôquer), a filha (uma hippie que acabou de voltar de uma viagem pela América do Sul) e com a neta, uma adolescente com os hormônios à flor da pele e prestes a completar dezoito anos. Todas sobrevivem com pensões pessoais e pequenos bicos e trambiques – apesar de viverem endividadas –, uma vez que gastaram toda a herança deixada pelo falecido pai de Maria Alice, e tentam inutilmente há sete anos vender a casa, que se encontra completamente deteriorada. Eis que, ao fazer uma oferenda para Iemanjá na praia, Maria Alice se encontra com uma antiga amiga, que trabalha como corretora de móveis de luxo. A tal amiga envia seu filho, um ex-viciado em drogas, para levar possíveis interessados na casa para visitá-la, como, por exemplo, um gringo que trabalha para uma rede de hotéis localizados em locais considerados perigosos, destinados a pessoas que desejam passar por algum tipo de aventura.

Através dessa sinopse, fica claro perceber que cada personagem funciona como um estereótipo da população brasileira em geral. Há a burguesia decadente, que ainda explora os mais pobres (caso da empregada de Maria Alice, que há bastante tempo trabalha praticamente de graça, pois não há dinheiro para pagar seu serviço), fato visto não de forma crítica, mas comum, uma vez que essa personagem da empregada é construída como alguém ao mesmo tempo subserviente, que trabalha mesmo sem ser paga, e como aquela que atrapalha a ordem social da vida dos ex-ricos. Há o traficante, que frequenta a casa de Maria Alice e lhe fornece drogas. Há também o pastor, talvez a única personagem construída através de um estereótipo que funciona, pois ele é o típico caso do ex-criminoso que se tornou religioso e se “arrependeu” dos erros do passado, fato quase comum nas Igrejas Evangélicas.

E por aí vai. Praticamente, não há uma personagem que não escape da estereotipização pobre. Alguns dirão que a comédia é construída dessa forma. De certa forma, há razão nisso, porém deve-se lembrar de que essa é a forma de humor utilizada pelas telenovelas e pelos programas de humor contemporâneos, que mais criam preconceitos – relegando os negros, os homossexuais, os pobres, as mulheres e etc. a posições de inferioridade na sociedade –, do que criticam uma determinada situação de forma inteligente, sendo esse o verdadeiro humor perspicaz, apresentado nos primórdios do cinema e da televisão.

E o pior, o ideário visto em Vendo ou alugo é típico dos programas humorísticos de TV atuais (como Zorra total e Vai que dá certo), que enxergam o Brasil através da caricatura, como o país da bagunça, em que tudo se resolve através do jeitinho, e das telenovelas, com um final feliz e autoexplicativo (faltando apenas um vilão que pratica maldades e tem uma risada característica).

Já o problema da ocupação da favela pelo BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais) é mostrado ao espectador como algo distante da realidade da burguesia, mesmo se sabendo que o casarão onde transcorre a narrativa de Vendo ou alugo se localiza literalmente ao lado de uma favela. Esse fato faz lembrar o filme Um lugar ao sol (2009), de Gabriel Mascaro, documentário que aborda a realidade de pessoas que vivem em luxuosas coberturas, onde, em certo momento, uma das entrevistadas que mora em frente a uma favela diz que quando há tiroteios no local, ela imagina que o que ocorre ao lado é um estouro de fogos de artifício. Ou seja, Vendo ou alugo tenta construir como alheia a situação da favela ao lado, e ainda ri da pacificação da mesma empreendida pela Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro e da triste situação passada pelos cidadãos de bem que ali vivem e sofrem com bandidos, traficantes e alguns policiais corruptos e que abusam de seu poder. Daí vem outra situação absurda: os policiais do BOPE que aparecem em uma das cenas finais do filme são vistos como corruptos e fanfarrões, ao contrário de Tropa de elite (2007), de José Padilha, que mostra o BOPE como uma instituição incorruptível e limpa de perversões. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Obviamente que existem membros do BOPE que cometem atos questionáveis moral e eticamente, porém não são todos.

Por último, há a estética publicitária, clean, higienizada e com cores vibrantes de Vendo ou alugo, algo que se tornou comum na atual produção brasileira, principalmente a do chamado cinema comercial. É quase como se os filmes devessem ser produtos a serem vendidos através de imagens bonitas e de felicidade plena. Enfim… Paciência, essa é uma realidade que ainda vai assombrar o cinema brasileiro durante muito tempo, pois não faltam ignóbeis por aí a propagá-la.

1/10

Jefferson Assunção é crítico de cinema e cineasta. Administra o blog A Tela do Aventurar e é colaborador do site O Formalismo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s