Turbo

A história do cara que está sujeito a viver uma vida medíocre, sem graça, essencialmente pré-selecionada para ele, mas que quebra com os padrões de sua sociedade, qualquer ela seja, é uma história velha, clássica, contada muitas vezes.
Mas nunca antes, ela foi contada do ponto de vista de um caracol.
Sim, um simples e pequenino caracol.
Turbo é apenas um caracol de jardim.
MAIS um caracol de jardim dentre uma legião de caracóis em seu jardim. Um jardim dentre vários jardins. De um bairro. Dentre vários bairros. De uma cidade. Dentre várias cidades… E por ai vai.
Enfim, Turbo não poderia estar em circunstâncias mais mundanas.

Mas há algo sobre ele que o separa dos demais.
Turbo é absolutamente apaixonado por velocidade. Por corridas, em particular. Corridas de carros. E após mais um entediante dia de frustrante trabalho no jardim, não há nada que o agrade mais do que assistir mais uma reprise das corridas de seu campeão favorito, Guy Gagné.
Mas não há nada pior para uma criatura extremamente lenta do que ser apaixonado por aquilo que é, essencialmente, seu exato oposto. A paixão de Turbo por velocidade é tida como um anomalia, quase uma abominação.

Porém, após uma série de fortuitos e improváveis eventos, Turbo sofre um incrível “acidente” que lhe dá exatamente tudo aquilo que sempre quis: toda a velocidade pela qual sempre desejou! Velocidade o suficiente para fazer o que bem entender! Por ventura desse nova e admirável nova habilidade, ele acaba caindo nas mãos de alguém em uma situação muito similar a sua! Um humano, dócil e gentil, preso em uma vida medíocre e sem esperanças! Juntos, porém, eles iriam longe!

Turbo é a clássica história do “underdog”, do herói improvável, do mais improvável dos heróis, que, munido de um poder, de uma habilidade que ninguém esperava que ele tivesse, vai longe. É a história que a Dreamworks sempre contou. É a história que a Pixar quase sempre contou. É a história que quase toda animação quase sempre conta. E Turbo não se distancia muito da fórmula. Mas muito mais do que apenas o conto do “underdog” que supera todos os problemas e que se sobressai sobre todos os obstáculos, Turbo é a história de um cara, de uma caracol, aliás, que não aceitou a triste e patética condição sobre a qual foi jogado e, por fortuito evento do destino, teve a capacidade e a possibilidade de escapar disto! É uma história sobre fugir daquele péssimo papel que a sociedade sobre a qual você se encontra lhe deu, e fazer muito, MUITO MAIS com sua vida!

É claro que as circunstâncias de Turbo são extraordinárias, e sem suas recém-ganhas habilidades, ele pouquíssimo poderia ter feito consigo mesmo. Mas é sobre isto que Turbo é. Fazer o melhor, o máximo, com as oportunidades que lhe são dadas, enquanto é tempo, pois nunca se sabe quando este tempo poderá se encerrar.

Nisto, Turbo também é sobre se encontrar. Em seu pequeno e humilde jardim, Turbo estava preso não só em uma vida assustadora monótona, como sujeita ao acaso. Diariamente, um ou mais corvos passavam por ali e catavam algum outro caracol, alguém que ele conheceu sua vida inteira. É como se, por ventura, diariamente alguém, das várias pessoas com as quais você interage diariamente, morresse, bem em frente aos seus olhos, pela mais estúpida das razões, e o pior, você estaria acostumado com isso. Lidaria com o fato como se fosse algo normal, corriqueiro. Porque é. Mas após se desviar de seu jardim e ser levado a um lugar completamente diferente, Turbo encontra outros com os quais se daria bem mesmo sem suas habilidades. Outros caracóis de espíritos muito idênticos ao seu. Apaixonados por velocidade. Por aventura. Desafiantes. Aventureiros. Velozes? Não. Mas, apesar de sua natureza, destemidos.

A relação que se estabelece entre Turbo e o humano que acaba o adotando é tocante, embora tenha pouquíssimo aprofundamento. Acontece por acaso e se fortalece, essencialmente, apenas pelas habilidades e conquistas de Turbo. O único fator de real interesse é de que a relação de Javier, o humano, com o seu irmão, se assemelha enormemente com a de Turbo e a de seu próprio irmão, que é involuntariamente levado na aventura de Turbo.

Hoje em dia, já há um estereótipo sobre as animações da Dreamworks. Todas as animações do estúdio tem personagens que fazem a mesma cara, a mesma expressão. A “Dreamworks face”.
Com Turbo não seria diferente. Os personagens de Turbo haveriam de “sofrer” desta “condição.
Mas em Turbo há um grande diferencial. Embora também conte com humanos em seu elenco, os principais personagens de “Turbo”, os caracóis, mal tem algo que poderia ser considerado um “rosto”. Diabos, eles mal tem algo que poderia ser considerado um “corpo”, no significado clássico da palavra! Você já viu um caracol, ainda que em outro desenho. Eles tem o que é essencialmente um torso… E olhos. Olhos, que, por se encontrarem sozinhos e longe do resto, são bem estranhos! E também sem braços, isso são duas das principais ferramentas de expressão para personagens animados que eles não tem.

E isto seria um problema para o filme, não?
Seria. Porém, o potencial dos personagens não se perde por isso. Por, em grande parte, a famigerada “Dreamworks face” se concentrar nos olhos, e por estes serem, essencialmente, o único veículo de expressão emotiva dos personagens, os caracóis botam pra fuder. Sério. Nunca se expressou tanto através dos olhos, e é claro, da trilha sonora, que nessas horas é de grande ajuda, em uma animação americana quanto neste filme. Com tão poucas possibilidades expressivas, os animadores souberam muito bem onde estavam suas fraquezas e suas vantagens e se apoiaram nelas, pois caracóis nunca se expressaram tanto e tão bem quanto neste filme.

Embora o filme seja exibido praticamente apenas dublado no Brasil, a equipe de dubladores original é de invejar. Turbo é dublado por Ryan Reynolds e o elenco de dubladores com Samuel L. Jackson, Paul Giamatti, Bill Hader, Luiz Guzmán, Michael Peña, Snoop Dogg, Ken Jeong e Michelle Rodriguez!

7/10

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