O Homem de Aço

De M. Basílio

Analisar um filme em comparação a outro nem sempre é uma boa ideia. Neste caso, porém, é inevitável. Superman – O Filme, de 1978, é um clássico quase irretocável. Sua produção megalomaníaca, seu elenco estelar e seu pioneirismo técnico abriram as portas para os filmes baseados em histórias em quadrinhos, o tornando referência quando se trata em adaptações do gênero – o filme foi a maior inspiração para a bem sucedida trilogia do Cavaleiro das Trevas,  por exemplo. Em 2006, quase 30 anos depois do original, um novo filme foi lançado, sob a direção classuda do jovem Bryan Singer. Mesmo dividindo opiniões, o filme cumpriu aquilo que propôs: uma simplória homenagem ao filme que há muito havia feito o homem acreditar que podia voar. Passado-se sete anos, o público, e principalmente os fãs, ansiavam por um novo filme do herói – que desse uma nova roupagem à história e a apresentasse à nova geração. E sob a sombra imponente do filme setentista (e de Christopher Reeve) chega aos cinemas O Homem de Aço. Infelizmente, apesar de bom, o novo longa do herói está há anos luz daquela primeira interpretação.

Assim como o longa de Richard Donner, “O Homem de Aço” é uma filme de origem.
E em 75 anos de existência do personagem pouco se mudou sobre ela.

No condenado planeta Krypton, o cientista (e bom de briga) Jor-El (Russel Crowe) envia seu único filho ao planeta Terra. Lá, o garoto é criado pelos bondosos Jonathan e Martha Kent (Kevin Costner e Diane Lane), que o batizam de Clark e moldam seu caráter. Em meio a dificuldades e alienação, o jovem descobre ser de outro planeta e parte em uma viagem ao redor do mundo, para descobrir o seu real propósito. Já adulto, Clark (Henry Cavill) assume sua identidade como Homem de Aço (nada de Superman ainda) ao mesmo tempo em que a Terra sofre uma invasão alienígena comandada por um de seus conterrâneos, o extremista General Zod (Michael Shannon).

Assim como no filme original, o Homem de Aço acerta em seu prólogo em Krypton. Saem as magníficas fortalezas de cristais e entram exóticas e sombrias paisagens (com direito a criaturas selvagens e veículos). Se antes Krypton tinha um aspecto mais lúdico e fantasioso, agora ela é crível e palpável, tornando o planeta natal do herói um lugar mais realista aos olhos da nova geração. Russel Crowe não é Marlon Brando, mas dá conta do recado. Sua postura imponente, seu olhar melancólico e ao mesmo tempo esperançoso dão ao seu Jor-El a personificação digna do eterno Don Corleone (que também estava no projeto apenas pela grana).

Toda a primeira metade do filme é empolgante e não deixa nada a dever aos seus antecessores. O texto de David S. Goyer equilibra muito bem os flashbacks, que intercalam a infância e adolescência de Clark, com suas viagens de autoconhecimento, já adulto. O roteirista já havia feito parecido em Batman Begins, também em colaboração com Nolan. O roteiro ainda faz um paralelo à história, nos apresentando Lois Lane (Amy Adams). No filme, a intrépida repórter é a única pessoa intrigada com os misteriosos e constantes atos heroicos ao redor do mundo.

O diretor Zack Snyder também acerta ao abrir mão de seu habitual estilo (os movimentos lentos e acelerados, aliados à colorização contrastada sempre me lembraram comerciais de perfume, mesmo). Aqui o diretor opta por uma estética mais documental, com câmera na mão, principalmente nas cenas de ação. Essa escolha faz aumentar o realismo nas insanas sequencias em que o Homem de Aço enfrenta seus inimigos.

Os problemas do filme, porém, começam na segunda metade. Aí as comparações se tornam inevitáveis. Se no filme original as analogias com Jesus Cristo (idealizadas por Mario Puzo, escritor da trilogia O Poderoso Chefão) eram sutis – “por sua capacidade para o bem, eu envio você a eles, meu único filho”, dizia Jor-El, por exemplo – aqui elas são escancaradas – que vão desde a idade de Clark à uma constrangedora cena em que o herói plana no espaço, de braços abertos, em forma de uma cruz.

O roteiro, que até então era bem equilibrado, perde o ritmo assim que os vilões dão as caras. A partir daí, o filme abre mão de sua narrativa complexa, que antes trabalhava o desenvolvimento e a relação dos personagens, e cede à pancadaria generalizada – sem se preocupar, muitas vezes, com a própria lógica estabelecida. Afinal, por que foi preciso mais de 30 anos para Clark dominar seus poderes, se Zod e Faora (Antje Traue) levam apenas algumas horas? Nesse ponto, “O Homem de Aço” fica mais para um Transformers do que para um Batman Begins.

Impossível também não fazer comparações ao elenco. Henri Cavill é carismático, forte e sabe arquear as sobrancelhas muito bem, mas ainda lhe falta muita fibra para honrar a memória de Christopher Reeve (o homem que nasceu para o papel). A fria e inexpressiva Lois Lane, da indicada ao Oscar Amy Adams, não lembra nada a espevitada e proativa personagem vivida por Margot Kidder. O mesmo pode ser dito do Perry White, de Lawrence Fishbourne, que abre mão da característica mais marcante do personagem vivido por Ned Beatty: sua verborragia. Os destaques são mesmo o General Zod, de Michael Shannon – que prova mais uma vez ser um dos atores mais versáteis da nossa geração – e, por incrível que pareça, o Jonathan Kent de Kevin Costner. O veterano ator sai do ostracismo em grande estilo e entrega um personagem tão memorável quanto o interpretado por John Glenn.

Por fim, “O Homem de Aço” deve agradar como um bom programa de fim de semana. Mas diferente do filme de 78, não será imortalizado pelo tempo. Já imagino o que muitos irão dizer ao ler esta crítica, então quero deixar bem claro: não não sou um dos viúvos de Christopher Reeve, mas uma coisa é fato. O filme definitivo do Homem de aço já foi feito. Há mais de 30 anos.

7/10

4 thoughts on “O Homem de Aço

  1. Nelson Henrique Almeida

    Legal sua crítica, Matheus, mas eu humildemente discordo em alguns pontos, achei esse filme espetacular (apesar de ter achado a Kripton um tanto “suja” e talvez a Kripton de Richard Donner seja bem mais elegante), não acho que as comparações entre o Super e Jesus tenham sido forçadas, escancaradas sim, com certeza mas acho que o Super realmente tem o “quê” de Messias a altura do que foi exposto então tá valendo. Quanto à questão de Zod e Faora conseguirem dominar em poucas horas o que Kal-El levou 33, já é explicada no próprio filme, Zod e todos aqueles guerreiros foram criados com aquele propósito e isso está cravado em seu DNA como assim é definido pelo sistema de “castas” de Kripton (me corrija se eu estiver errado). Acho que esse filme está pau-a-pau com o de 78, só que a roupagem dada à origem do Super foi atualizada. E sim, Kevin Costner está excepcional e emocionante! Já quanto à Henry Cavill, bem, pra mim ele também foi um Superman perfeito… À maneira dele, nesse ponto eu prefiro não comparar ele com Reeves, acho que ambos são perfeitos em suas determinadas épocas.

    Meus parabéns mais uma vez pelo review!

    Responder
  2. mbasilio Post author

    Nelson, muito obrigado pelo elogio. E suas opiniões são válidas e importantes, então sinta-se a vontade para postá-las sempre que achar necessário.
    Concordo quanto a sua avaliação de Krypton. Na verdade, todo o longa de Richard Donner é mais “elegante” que o dirigido por Zack Snyder. Por exemplo: Lembra se de como o filme era separado por três blocos distintos, todos muito bem delimitados? Krypton retratada como um mundo além da nossa compreensão, Smallville era uma referência ao cinema da era de ouro e Metropolis parecia uma história em quadrinhos em celulose. O diretor até explica muito bem a diferença entre esses momentos num documentário sobre os 25 anos do filme.
    É justamente esse tipo de cuidado que faltou ao novo filme.

    E assim como Krypton, as referências e analogias também eram inseridas de forma mais elegantes. O roteiro idealizado por Mario Puzo (um gênio) precisou de apenas diálogos para apenas sugerir – isso no fim da década de 70! – que um personagem, até então inverossímil, fosse tão importante para aquela realidade, quanto Jesus Cristo é para a nossa.
    Apenas diálogos. Nada de “tenho 33 anos” ou vôos em forma de cruz.
    David Goyer apenas pegou um conceito que já existia e o potencializou – subestimando o expectador que poderia descobrir isso sozinho (e conseguiu, na década de 70).

    Por fim, as incoerências do filme podem causar muitas discussões. Mas da maneira que vejo – e, baseada em algumas pesquisas primárias – elas existem sim. O sistema de castas não influência na adaptação dos Kryptonianos na terra. O filme pode até se defender, alegando que tenha algo a ver a evolução – daí aquele discurso desnecessário de Faora, enquanto ela briga com o herói. Mas mesmo baseando-se nisso, o longa se sabota.
    Ou então pra quê toda aquela cena em que Zod, com dificuldades de respirar e ouvir, engole Clark dizendo que está em vantagem por ter aprendido com sua mãe a filtrar os sentidos?
    Para mais informações, existe um site com uma lista de todas as incoerências do filme. Além desta, existem muitas outras (não as mencionei para evitar spoilers). Estão todas lá.
    Posso te mandar o link se quiser, é só desembolar no inglês.

    O filme não é desastroso, na verdade passa muito longe disso. Mas confesso, que ao fim da sessão a sensação que senti foi de como se tivesse tomado um banho de água fria.

    E falando assim, passa a impressão que sou um dos viúvos do filme original (como eu disse na crítica). Não sou. Sou apenas fã do personagem. E como todo fã, gostaria de ver ele melhor representado nas telas.

    Muito obrigado por ter lido, meu caro. Continue acompanhando.
    Abraços!

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  3. Pingback: Critica: O homem de aço (2013) | Café com Whisky

  4. Shiraklima

    É como eu digo por aí… Assistem ao filme, MAS NÃO assistem ao filme… Há um ou dois furos no filme, apenas… Há, sim, muitos detalhes no filme que passam despercebidos aos olhos dos menos atentos… Esses detalhes sempre foram do estilo Nolan/Goyer de contar estorias! Se em alguns momentos precisamos de explicações (e concordo como estas foram mostradas…), noutros os detalhes ficam no “ar”, esboçados em linhas de diálogo e ações… Então, será que um filme precisaria explicar TUDO MSM??
    1) Em que momento, fica claro que Kal-el precisou de 30 anos pra aprender tudo, amigos? Excetuando, claro, o voo… que ele experimenta aos poucos, ao sair da nave – uma clara referencia ao inicio do personagem, nas hqs, que ele apenas pulava.
    2) Zod mostra dificuldade por ser seu primeiro contato com a atmosfera terrestre… Assim como Kal-el ao entrar na nave… É dose, meu amigo atencioso…
    3) Existe sim, mesmo que de modo inconsciente, um saudosismo perpassando as resenhas sobre o filme…
    Conselho: ASSISTA AO filme… abraço…

    Responder

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