O Cavaleiro Solitário

De M. Basílio

Em tempos de adaptações de HQ, reboots, remakes e sequência, a escassez de ideias em Hollywood também tem apostado em outro tipo de filme para atrair o público: releituras de seriados clássicos. Vez ou outra, temos bons filmes – exemplo os excelentes Star Trek (2009) e Anjos da Lei (21 Jump Street, 2012). A receita para o sucesso não está apenas em homenagear o material clássico, e por muitas vezes datado, mas sim em atualizar sua linguagem para a nova geração. Os que não seguem o método a risca, correm o risco de não só entregar um produto ruim, como também de manchar a memória daqueles que cresceram e se lembram com saudosismo dos momentos que dedicaram àqueles personagens e suas aventuras. E sob o comando dos experientes Jerry Bruckheimer e Gore Verbinski (de Piratas do Caribe) chega ao cinema O Cavaleiro Solitário.
Infelizmente, o longa resolve ignorar todos os elementos que fariam dele uma boa adaptação.

Na trama, que leva ao cinema as aventuras do “Lone Ranger”, herói de faroeste nascido nos programas de rádio da década de 1930, John Reid (Armie Hammer) é um advogado que, após ser dado como morto, se transforma no tal Cavaleiro – uma lenda da justiça. Com a ajuda de Tonto (Johnny Depp), um nativo americano, o herói precisará enfrentar os mais temidos bandidos do oeste e magnatas inescrupulosos, que desejam o controle da terra através da construção de ferrovias.

O pior é que filme falha logo no momento de prestar as homenagens – não do herói, diretamente, mas do gênero que o consagrou: o western. Fora o figurino e o cenário, não há nenhum traço na produção que remete a um faroeste clássico. A narrativa do filme opta por um estilo mais acelerado, e repete a estética de Piratas do Caribe, que alterna cenas de ação com piadas.
Então, não espere pela tensão do último suspiro antes do tiro, cavalgadas ao por do sol, closes e planos gerais contemplativos. Não há tempo a perder aqui. Principalmente quando se tem na bagagem toneladas de efeitos especiais e Johnny Depp vestido de indio. Ironia mesmo é o diretor cometer essas gafes, depois de dirigir a elogiada animação Rango – um filme digno de representar o gênero western.

Apesar de se tratar de uma história de origem, não há nenhuma construção dos personagens. Pegue o personagem principal, Reid, por exemplo: um advogado com sede de justiça e aversão à armas de fogo (algo mais inverossímil do que ressuscitar dos mortos, já que estamos falando do velho oeste, onde a bala comia solta). Mesmo depois de reconhecer o assassino de seu irmão, reviver sob circunstâncias misteriosas e capturá-lo, o personagem ainda insiste em manter seu código de honra estúpido e o deixa escapar. Na verdade, todas as suas decisões ao longo do filme são estúpidas, fazendo corar o pele vermelha Tonto e o público que assiste. E o que dizer da cunhada, a mocinha vivida por Ruth Wilson? O cadáver do falecido ainda nem esfriou e a moçoila já está se derretendo nos braços do cunhado. Por sorte, as últimas palavras do defunto foram “Ela sempre te amou. Cuide bem dela”. Sendo assim, tudo bem, né?

Quanto ao elenco, Hammer e seu Cavaleiro são totalmente ofuscados por Depp, que aqui interpreta mais um personagem bizarro. Porém, graças ao estilo do filme, ficamos com a sensação de já o termos visto assim antes (Oi, Cap. Sparrow?). Destaque mesmo é Helena Bonham Carter, que rouba as poucas cenas em que aparece e entrega uma personagem, no mínimo, diferente do que estamos acostumados (sem a maquiagem pesada imposta por seu marido Tim Burton).

O filme até tem seus momentos, principalmente nas cenas de ação. O produtor Jerry Bruckheimer sempre soube orquestrar muita bem a pancadaria e isso fica evidente no clímax – uma perseguição envolvendo cavalos e alguns trens.

Uma breve curiosidade: por ironia, a cena é muito parecida com o climax de “A Lenda do Zorro”.
Zorro, outro personagem mascarado das antigas, foi o nome que John Reid, O Cavaleiro Solitário fora conhecido durante muito tempo aqui no Brasil.

Enfim, eu poderia dizer que O Cavaleiro Solitário não é nenhum Scorsese, mas vale o ingresso. Mas seria uma mentira. Seu roteiro transforma suas duas horas e meia de duração num exercício torturador de paciência. O teaser poster do filme trazia os dizeres “nunca tire a máscara”. Sendo assim, figurativamente falando, espero que esse longa se esconda por trás do disfarce para sempre.

5/10

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