Guerra Mundial Z

Após praticamente dois anos desde o início das filmagens, chega aos cinemas de todo o mundo “Guerra Mundial Z”, dirigido por Marc Foster (“Mais Estranho que a Ficção”, “007 – Quantum of Solace”) e estrelado por Brad Pitt, com quase duas horas de duração.
O filme tem suas particularidades, não só por inusitadamente lançar Pitt ao gênero, mas também por ser palco de vários problemas de produção. O orçamento inicial teve um aumento de aproximadamente 50% (de 125 milhões para algo em torno de 190 milhões) e até agora arrecadou US$ 128 milhões mundialmente (US$ 66 milhões só nos EUA) em seu primeiro fim de semana. Com o marketing, as contas finais chegam a quase 400 milhões. O alto investimento faz de “GMZ” o filme de zumbis mais caro da história, deixando os produtores receosos por um grande prejuízo porque, para haver lucro, o filme precisaria faturar (a grosso modo) pelo menos 1 bilhão.

Normalmente vemos no cinema o apocalipse zumbi evocar uma metáfora crítica sobre as variáveis da condição humana. Dessa vez, entretanto, não parece ser o caso, visto que o maior investimento dramático tem foco simples e exclusivamente na sobrevivência. Este fator também define os demais personagens, que não possuem qualquer profundidade e constituem nada mais que uma “ponte” passageira para o protagonista. A própria situação delicada e repentina em que se encontra o pai de família Gerry Lane, tendo que proteger sua esposa e suas duas frágeis filhas, por si só já proporciona uma identificação com o espectador. Mas isso não quer dizer que o filme para por aí e seja só mais um enlatado desmiolado ou superficial. Uma das características que mais atribuem valor a obra é a criatividade – e até um certo grau de originalidade.
Adaptação do livro “World War Z: An Oral History of the Zombie War” de Max Brooks (que também escreveu “Guia de Sobrevivência contra zumbis”), o filme se desvincula quase totalmente da obra literária, onde Gerry Lane deixa de ser um coletor de relatos sobre os ataques para o livro que escreve, para atuar como um agente da ONU envolvido na missão de buscar informações sobre a origem do vírus. Foi criada uma trama alternativa que capturasse a essência do livro, mas contada de uma forma bem mais “tradicional” (aos moldes hollywoodianos). Ainda que o longa abandone a abordagem social, política e econômica, mantém o abrangente aspecto geográfico, onde passamos pela Pensilvânia (Filadélfia), Coréia do Sul, Israel e País de Gales e também em variados cenários e situações, como dentro de um avião, nas escadas e na sacada de um prédio, multidões desesperadas, uma base militar marítima, bicicletas à noite debaixo da chuva, um supermercado e um laboratório infestado de mortos-vivos.

As características desses zumbis foram definidas por Foster de modo a parecerem mais verossímeis, perigosos e orgânicos. Eles ficam em um estado de dormência, vagando lentamente, até que encontrem um estímulo que os transformem em criaturas frenéticas. São realmente velozes e se lançam como pregos, usando a cabeça para atravessar qualquer coisa que esteja entre ele e o alvo. Se uma dessas criaturas é “desligada” diante das outras, elas são capazes de se enfurecer. Não são comedores de cérebro ou famintos pela carne humana, mas fundamentalmente mordedores cujas mandíbulas batem como castanholas. Em grupo, eles se amontoam como insetos, onde a comparação mais justa equivale a um formigueiro, fazendo o vírus engolir cidades como um tsunami. Um conceito trazido por um dos personagens os relaciona com a natureza e sua essência assassina que não resiste em deixar rastros de sua fraqueza para que no final possa ganhar os créditos pelo feito. E é através da fraqueza humana, em seu viés biológico, que o filme consegue sua resposta paliativa, conquistando espaço para um desfecho curioso e inovador (em devidas proporções).

O filme pouco amedronta e menos ainda causa repugnância, não há sangue ou corpos despedaçados. Isso porque a censura é PG-13, ou seja, proibido apenas para menores de 13 anos, se estendendo a um número maior de espectadores. Há, entretanto, uma recompensa de um ritmo quase tão frenético quanto os próprios zumbis, com muita ação e o dobro de tensão, como se assistíssemos com uma boa quantia de adrenalina contida. Já o 3D é plenamente descartável, não acrescentando em absolutamente nada, exceto pela otimização de alguns sustos.

Plan B é a produtora de Brad Pitt que comprou os direitos do livro. Então, oficialmente, ele também é um dos produtores do filme, junto com a também distribuidora Paramount. Isso ajudou Marc Forster a abrir várias portas, mas nem tudo foram flores ao longo do processo. Pelo contrário, foi quase uma verdadeira guerra. Faltaram investidores no projeto. A polícia húngara (Budapeste) chegou a confiscar 85 pistolas e fuzis do set por serem identificadas como armas reais, não réplicas. Acidentes com alguns dos 900 figurantes que compunham a multidão, fora os problemas para alimentá-los também. A saída inesperada do diretor de efeitos especiais John Nelson. O possível desentendimento entre Marc e Brad durante as filmagens ao ponto de se comunicarem por meio de um intermediário. Pelo menos dois roteiristas tiveram de abandonar o projeto por conta de outras ocupações e o terceiro ato teve que ser reescrito e refilmado (aproximadamente 40 minutos). Talvez você consiga imaginar o clima. O lançamento do filme foi adiado 6 meses, o que pelo menos garantiu mais tempo aos técnicos para trabalharem nos efeitos visuais.

A versão descartada fazia de Gerry um combatente experiente em matar zumbis, Karin se tornava uma mãe que oferecia seu corpo a um militar em troca de abrigo para ela e as filhas e a partir daí, a missão de Lane era voltar para resgatar sua família, o que garantiria uma sequência.
Aliás, o projeto todo foi idealizado como uma trilogia, mas os estúdios estão esperando para ver qual o resultado desse primeiro investimento. A alteração ficou por conta de Damon Lindof (Prometheus), contratado pessoalmente por Brad Pitt.
E, sem querer desmerecer  outra alternativa, o final definitivo parece realmente melhor, mas é um desfecho que sofre de ritmo, esfriando um pouco uma história que costuma foi intensa desde seus primeiros minutos.

O elenco principal conta também com Mireille Enos (Caça aos Gângsteres) interpretando Karin, esposa de Gerry e a israelense Daniella Kertesz (AfterDeath) como a oficial Segen. Com a sequência garantida pelos produtores, o filme já se torna um jogo para tablets e celulares. É um filme simples em critérios intelectuais, complexo em seu backstage, mas um ótimo entretenimento que dá vontade de assistir outra vez, com potencial para agradar e divertir os fãs do gênero.

8/10

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