Antes da Meia-Noite


De Diego Neves

Com a chegada de “Antes da Meia-Noite”, Richard Linklater (“Waking Life”) concretiza a “trilogia de menor bilheteria do cinema” – o que não necessariamente, asseguro, diz respeito à qualidade dos filmes. A fórmula é simplista, o tom é europeu e a pegada é existencial. O que torna a franquia especial vai de fora para dentro. Aparentemente, o trio, Ethan Hawke, Julie Delpy e o diretor texano, se reúnem a cada nove anos para levar às telas a esperada sequência de uma narrativa suspensa com cruéis reticências. Quase uma provocação ao espectador quando vem dizer que os homens estão condenados à eterna insatisfação.

Antes do Amanhecer” (1995) é um descontraído romance que mostra um dia de dois jovens que se conhecem em um trem. “Antes do Anoitecer” (2004) conta o dia em que estes mesmos jovens se reencontram nove anos após terem se separado. E “Antes da Meia-Noite”, com uma trilha igualmente apaixonante, mostra um dia das férias do casal. A base e a riqueza dos três filmes é o diálogo entre Jesse e Celine, que conversam desde pequenos e curiosos casos cotidianos a complexas reflexões sobre o homem, a mulher, a vida, a morte, futuro, religião, e amor. A dupla conversa como grandes amigos se descobrindo, sincronizados por uma intimidade admirável que proporciona uma sensação de naturalidade e improviso. Mas, apesar de Hawke e Delpy participarem da criação de ambos personagens, cada gesto, cada palavra pronunciada diante da câmera está rigorosamente descrita no roteiro, garante Linklater.

Mesmo ainda com a forte presença do humor, o que mais chama atenção é que, nos dois primeiros filmes, a história caminha num sentido em que percebemos a intenção de juntar duas pessoas separadas. Mas neste último, surpreendentemente a correnteza é contrária, o que naturalmente gera certa tensão. Jesse e Celine voltam nove anos mais velhos, aproximadamente com 41 anos, casados, com filhos e várias divergências. Jesse divaga sobre irem morar nos EUA para poder ficar mais próximo de seu filho, enquanto Celine considera aceitar um emprego no governo na França. Entretanto, o maior conflito entre eles não é geográfico, mas temporal. Em “Antes do Amanhecer”, Celine precisa ir embora pela manhã e em “Antes do Anoitecer”, Jesse precisa pegar o vôo no final da tarde. Em “Antes da Meia-Noite”, o tempo é um pouco mais abstrato: acompanhamos o estopim de uma conturbada bagagem de nove anos juntos. O espectador vai descobrindo o que aconteceu durante esse período gradualmente, de acordo com a evolução dos diálogos que trazem uma ambientação totalmente diferente dos dois filmes anteriores.

Não em Viena, nem em Paris. Dessa vez estamos em Messínia, sul Peloponeso, na inspiradora Grécia, o berço das tragédias, repleto de mitos e ruínas. Existe um embate persistente entre o passado (memórias) e o futuro (incertezas), que justifica a intensidade com que o presente é valorizado em cada cena, o que leva Linklater a realizar longas tomadas e longas conversas, dando consistência para a espera real do agora. Ainda que os personagens estejam mais maduros e os diálogos carreguem mesmo essa carga da meia-idade, de alguma forma, eles parecem ainda serem devotos à magia do dia em que se conheceram. Quando quase tudo está perdido depois de tantos conflitos sentimentais, o casal se permite restaurar suas percepções voltando no tempo em que tinham 23 anos e andavam descompromissados pelas vielas conversando sobre ciganas e macacos. Longe de ser encarado como uma relação sustentada por uma ilusão, o sonho foi real e é evocado unicamente para purificá-los dos pensamentos atrofiados pela vida adulta. Como diz a senhora mais velha na mesa, para que nunca se permitam “esquecer das pequenas coisas” ou deixarem de ser quem realmente são.

O primeiro filme carrega todos os traços de um filme genuinamente romântico, mas o segundo não tem sequer um beijo e conseguiu o mesmo efeito. Diante de um roteiro temperamental como este, o desafio de manter tudo isso romântico aumenta para Linklater. Em “Antes da Meia Noite”, pode-se presumir que os dois conseguem agora sentar num banco qualquer e contemplar o pôr-do-sol, desafiando o tempo, provando para si mesmos que puderam sobreviver mais um dia juntos, nem que para isso seja preciso viajar pelo “espaço-tempo continuum”. Linklater mostra que problemas aparecerão em qualquer conexão, por mais bela que tenha nascido a relação, e lutar por ela também é romântico.

   “Antes da Meia-Noite” é o terceiro capítulo de uma das mais “humanizadas” experiências do cinema, tanto pelas circunstâncias “não fictícias” em que é produzido, quanto pela narrativa inspiradora e verossímil. Por exemplo, Ethan Hawke não precisa fingir que lembra do dia em que se conheceram quando está em cena porque, oras, Hawke estava lá realmente. Quando estamos diante de Jesse e Celine, a vontade de também encontrar algo tão extraordinário em outra pessoa é inevitável, o que alimenta a esperança de que existem pessoas extraordinárias para serem descobertas por aí. Um filme verdadeiramente “de pessoas sobre pessoas”.

Linklater sempre achou improvável qualquer sequência para Antes do Amanhecer”. Duas surgiram e agora ele não parece descartar a hipótese de um novo encontro com esse casal daqui nove anos para darem notícias.

8/10

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