O Grande Gatsby

OGrandeGatsbyCinemadoMeuJeitoDe M. Basílio

Baz Luhrmann é um diretor que divide opiniões. Sua filmografia é composta de ousadia e excessos, mas é no anacronismo que o cineasta australiano encontra seu público – que o ama ou o odeia. De fato, incomoda o carnaval estético que diretor cria em seus filmes, mas não se pode ignorar a habilidade que ele tem de criar identificação do público com histórias que são contadas desde que o mundo é mundo – e que apesar dos temas atemporais, necessitam de uma nova roupagem. Afinal, Romeo e Julieta é a tragédia mais adaptada da história e o cabaré Moulin Rouge já havia sido retratado em 1952, pelas mãos de John Huston. Depois do fracasso de crítica que foi Austrália, o diretor busca a redenção fazendo o que sabe melhor, repetindo o estilo que o consagrou. E assim, com ousadia, excessos e o velho anacronismo chega aos cinemas O Grande Gatsby (The Great Gatsby).

Na história, o aspirante a escritor Nick Carraway (Tobey Maguire) deixo o meio oeste em direção à Nova York, no ano de 1922, numa época em que a moralidade era menos rígida, o jazz explodia e as bebidas ilegais criavam impérios. Lá, ele vai morar próximo à sua prima Daisy (Carey Moulligan) e seu marido Tom Buchanan (Joel Edgerton), filantropo de sangue azul. Em meio a vários acontecimentos, Nick conhece Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio), seu misterioso e festeiro vizinho milionário. A partir daí, Nick é atraído ao superficial mundo dos super-ricos, sua ilusões, amores e traições.

Como Romeo e Julieta, O Grande Gatsby também é um clássico da literatura que já sofreu várias adaptações (só no cinema são cinco) e, portanto, necessita de uma nova abordagem. O problema começa quando Luhrmann confunde ‘nova abordagem’ com afetações e anacronismo.

Aqui, o diretor abusa dos conhecidos movimentos frenéticos de câmera, efeitos de edição e trilha sonora contemporânea (que leva a assinatura do rapper Jay-Z) para ilustrar o clima festeiro e a imoralidade dos anos 20, retratadas com tanto repúdio pelo ponto de vista do personagem Nick. Por um lado até funciona e apresenta um dos maiores clássicos do século passado para a geração MTV – acostumada a um estilo de narrativa frenético. O cuidado especial que o diretor tem com a direção de arte e o figurino (de Beverley Dunn, colaboradora do cineasta em Moulin Rouge) também é um ponto a se destacar – não será surpresa se o filme receber indicações, e o prêmio Oscar da categoria.

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Por outro lado, os mesmo excessos técnicos e os anacronismos também atrapalham a trama. A montagem frenética do diretor impede a visualização de elementos da produção – como o próprio figurino, a direção de arte e o competente elenco (que merece um parágrafo próprio). O anacronismo também a nula alguns pontos positivos do roteiro e descaracteriza a elegância dos anos 20 na história, transformando alguns momentos do texto clássico em um desfile de escola de samba.

O roteiro, adaptado por Craig Pearce e o próprio Luhrmann, é a principal vítima das afetações do cineasta. Estão lá os temas centrais da obra – às críticas à sociedade aristocrata dos anos 20 e ao american way of life – porém são todos ofuscados pelos excessos. Quer dizer, do que adianta retratar o outro lado da moeda na sociedade americana se os trabalhadores braçais são mostrados trabalhando em câmera lenta no contra-luz, como se protagonizassem um comercial da Dior?

Ao elenco, por outro lado, são só elogios.  A passividade de Tobey Miguire é perfeita ao personagem Nick Carraway, que é ao mesmo tempo protagonista e coadjuvante de sua própria história (a cena em que Nick, em meio a um turbilhão de acontecimentos, se lembra do próprio aniversário é um bom exemplo). Carey Moulligan e Joel Edgerton emprestam traços inexpressivos e canastrice aos seus respectivos personagens, mas é Leonardo DiCaprio e seu Jay Gatsby que brilham na tela. DiCaprio empresta seu habitual carisma e charme e recria o verdadeiro grande Gatsby do cinema, sem dever nada aos seus antecessores.

Enfim, com O Grande Gatsby, Baz Luhrmann emula seus filmes anteriores, apresenta um clássico para as novas gerações e repete a formula que o consagrou. Por outro lado, deturpa os temas centrais da obra, tornando-a refém de seus excessos. Desta forma, o cineasta continua dividindo opiniões. E nós, expectadores, saímos do cinema com a sensação de já termos visto este filme antes.

7/10

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