Faroeste Caboclo

De M. Basílio

Em 1987 foi lançada a música Faroeste Caboclo – clássico folk da banda Legião Urbana (inspirada em outro clássico folk, The Hurricane, de Bob Dylan). Sua estrutura era diferente de tudo que o público Brasileiro tinha ouvido até então (de tudo cantado em português, ao menos) e narrava a dura trajetória de um personagem, da infância à fase adulta. A música mexeu com o imaginário de várias gerações, que tinham na ponta da língua cada um dos seus 168 versos e fantasiavam com os rostos e as situações ali descritas. Quase trinta anos depois a história finalmente ganha sua adaptação cinematográfica (e assim como o filme “The Hurricane” fez em 1999) dá cara aos personagens e acontecimentos – não destruindo o imaginário do público, como muitos apostavam, mas levando a história a outro patamar.

A trama todo mundo já conhece: João (Fabrício Boliveira) deixa Santo Cristo, depois de uma infância sofrida, e parte em busca de uma vida melhor em Brasília. Lá, conta com a ajuda do primo, Pablo (César Trancoso), com quem começa a trabalhar. Agora conhecido como João de Santo Cristo, o jovem se envolve com o trafico de drogas, ao mesmo tempo em que trabalha como carpinteiro. A redenção vem na forma de Maria Lúcia (Isis Valverde), jovem bela inquieta por quem João irá se apaixonar. Em meio a vários acontecimentos, João se envolverá numa guerra com Jeremias (Felipe Abbib) – pelo controle do tráfico e o amor de Maria Lúcia.

O filme surpreende logo na primeira cena, numa sequencia claramente inspirada nos clássicos do western spaguetti – os planos fechados, a trilha sonora e o suspense mostram que o título do longa não leva o substantivo faroeste à toa.

A direção do estreante René Sampaio equilibra de forma precisa os flashbacks, sempre fazendo um paralelo com o contexto atual da trama. Desta forma, a história já conhecida do público ganha dinamismo e dramaticidade. A direção também acerta ao dar vida à alguns momentos da música, exatamente como eles estão descritos – exemplo o belo momento em que João assiste, maravilhado, as luzes de natal de Brasília.

O texto de Marcos Bernstein, Victor Atherino e José Carvalho também acerta ao manter o contexto da história nos anos 80, mostrando os conhecidos problemas da nossa sociedade por uma outra abordagem. Estão lá o tráfico de drogas e a corrupção policial (já desgastados em Cidade de Deus e Tropa de Elite). Porém, aqui eles são apresentados com uma pitada de lirismo dignos de um Romeo e Julieta Brasileiro. Outro destaque é a liberdade que o roteiro toma em relação à música de Renato Russo. Enquanto na canção Maria Lúcia só é apresentada na segunda metade, no longa a personagem dá as caras logo no início, vagando melancólica pelas ruas de Brasília – como se faltasse algo em sua vida. Outro exemplo é o primeiro encontro dos protagonistas, que não é detalhado na música, mas aqui ganha uma cena regada a muita tensão – a paixonite instantânea de Maria Lúcia só se justifica se embasada numa possível Síndrome de Estolcomo.

As falhas no roteiro, porém, ficam por conta de algumas narrações em off – aquelas que descrevem em diálogos o que o personagem acabou de fazer. Essas e outras falhas incomodam, mas não comprometem o resultado final graças ao bem dirigido elenco.

Fabrício Boliveira, Isis Valverde e Felipe Abbib são competentes ao dar vida aos personagens imortalizados na música. Enquanto a química entre os protagonistas dá ao seu amor impossível uma naturalidade crível, exagero e canastrice preenchem muito bem o o surtado antagonista. O elenco de apoio também corresponde a altura – incluindo um corrupto Antônio Calloni e o saudoso Marcos Paulo.

No fim, Faroeste Caboclo irá dividir opiniões. Alguns irão gostar (principalmente a nova geração) e outros detestar – dizendo que o filme, assim como algumas adaptações de livros, destruiu um ‘clássico’, lesando o imaginário de milhares de pessoas. Com isso em mente, sugiro o seguinte exercício: antes da sessão, ouça a música e após o filme fique até os créditos finais (nem é preciso dizer que a canção também encerra o longa). Com o tempo, vocês irão perceber que a música continua imaculada. A única diferença é que agora João de Santo Cristo, Maria Lúcia e Jeremias também têm um rosto.

8/10

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