Bonitinha, mas Ordinária


De Emerson Reis

Como já disse Otto Lara Resende “O mineiro só é solidário no câncer”.
Na terceira adaptação cinematográfica da famosa obra “Bonitinha, mas ordinária” de Nelson Rodrigues, o diretor Moacyr Góes (O Homem que Desafiou o Diabo, 2007), honra o texto do autor fazendo o máximo para que permaneça fidedigna a obra, mas peca quando nos apresenta uma visão tão puritana da coisa que acabamos por não enxergar o sujo por trás da personalidade da bonitinha Maria Cecília.

O mineiro só é solidário no câncer: frase que permeia todo o filme, e praticamente todos os personagens á recitam como uma filosofia de vida advinda de Edgard (João Miguel) um ex Office boy (a estória foi adaptada para os dias atuais) bastante orgulhoso e de cabeça erguida perante os problemas financeiros passados por ele e sua mãe. Edgard recebe uma proposta tentadora de se casar com a puritana Maria Cecília (Letícia Colin), linda e de família rica, que fora violentada enquanto participava de um baile funk.

Edgard tem uma chance de ouro nas mãos, mas ele esconde um amor secreto pela professorinha Ritinha (Leandra Leal), há quem parece condizer com seus sentimentos. Mas o encarregado de arranjar todo o casamento Peixoto (Leon Goes) vai fazer a cabeça de Edgard até que ele se renda ao discreto charme da burguesia.

Décadas atrás mais precisamente nos anos 50, ter uma filha que não é casada e não mais virgem era motivo de desgosto para qualquer família, principalmente as tradicionais, o que faria todo sentido na época a correria que foi para achar um marido idiota que aceitasse quaisquer condições. Transposto para nossos dias fica bem difícil de entender todas as razões, a não ser o fato de Maria Cecília ter um pai extremamente controlador e rico como é Dr. Werneck (Gracindo Júnior).
Um dos pontos principais a serem criticado por Nelson Rodrigues é toda a podridão da burguesia. Em uma sequencia chave onde Peixoto leva Edgard há uma festa regada a sexo e drogas na casa de Werneck, são claras as intenções criticas sugeridas e como toda a solução é apresentada com auxilio do dinheiro e poder.

“Uma tragédia no Paraíso”. É isso que Moacyr Góes tenta transpassar com as histórias de Edgard e Peixoto que praticamente seguram toda a carga dramática do filme que deveria ser divida com Maria Cecília, que apesar de cumprir seu papel como bonitinha (e muito bem), não consegue transpor nem a metade de ordinária. Em poucos momentos conseguimos enxergar a mesma vivacidade das antigas adaptações do filme, talvez pelo hibridismo da direção de Moacyr que já passou por vários gêneros e acabou misturando um pouco de cada dessa vez.

Nelson Rodrigues certamente se orgulharia de muitas coisas nessa nova adaptação, mas no geral iria dispensa-la como se não fosse sua e seguira a vida com base nos ensinamentos de Otto Lara Resende.

6/10

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