Em Transe

A definição de hipnose, a grosso modo, está na capacidade de um sujeito (o hipnotista) comandar – através de instruções e sugestões – e o outro (o hipnotizado) obedecer. Uma manipulação dos sentidos que visa a cura através de fragmentos de memórias adquiridas pelo hipnotizado ao longo da sessão. Em Transe, último trabalho do diretor britânico Danny Boyle, se disfarça de thriller psicológico, mas na verdade se trata de uma sessão de hipnose – em que diretor usa de experimentações para nos manipular através de sugestões e fragmentos da trama.

Na história, Simon (James McAvoy) é um leiloeiro endividado que se envolve com o criminoso Franck (Vincent Cassel) e sua gangue para roubar uma valorosa pintura. Durante o roubo, Simon é golpeado na cabeça e acorda com amnesia, sem a menor ideia de onde escondeu o quadro. Após as torturas e ameaças falharem, Franck recorre à hipnoterapeuta Elizabeth Lamb (Rosario Dawson) para hipnotiza-lo e descobrir a localização do quadro nos confins da mente de Simon.

Com exceção do excelente e acelerado prólogo – em que o personagem de McAvoy nos apresenta o conflito da trama, quebrando a quarta parede – , a história é aparentemente contada de forma não linear. Enquanto o filme progride, somos bombardeados de fragmentos da trama que só irão fazer sentido no final e é aí que começam as manipulações de Boyle. Durante as quase duas horas de filme, é difícil saber o que é real e o que e o que é sonho e isso nos coloca na pele do hipnotizado. Como Simon, precisamos saber o que aconteceu no dia do assalto e que fim levou o quadro.

Já é marca registrada do diretor manipular nossos sentidos e nos fazer sentir na pele do personagem – a aflição de uma crise de abstinência em Trainspotting e os delírios de solidão sofridos em 127 Horas são bons exemplos. Esse primor visual, com experimentações com câmera e edição mudam, a todo tempo, o foco nos elementos centrais da trama: no início nossa curiosidade está centrada na descoberta da localização do quadro, depois nos interessamos pela a história de Simon, depois pela a de Elizabeth. É como se o diretor comandasse nossos sentidos, nos ajudando a montar o quebra-cabeça da história até o clímax inesperado. Quase como uma verdadeira sessão de hipnose.

You just blew my mind, man!

Era de se esperar que Boyle fizesse um trabalho tão bem arquitetado, já que o diretor flerta com ao roteiro desde os anos 90. Ainda assim, o texto não é a prova de falhas e algumas situações soam forçadas e súbitas demais – exemplo o triângulo amoroso formado pelo trio de protagonistas. Essas situações nos despertam momentaneamente da imersão (a hipnose) da história, tirando um pouco da força das reviravoltas. Nada que comprometa o resultado final, que é salvo pelo talento e carisma dos atores. Enquanto Vicent Cassel e Rosario Dawson mostram competência na pele do vilão e da mocinha, McAvoy rouba a cena com seu carisma e sotaque carregado. O ator escocês grita, chora, ri e faz cara de mal quando necessário, tornando seu Simon convincente, provando ser um dos melhores atores de nossa geração.

Enfim, “Em Transe” acerta em cheio ao fazer referência aos seus próprios temas. Ele é arrojado e bem arquitetado como um bom golpe e sugestivo como uma sessão de hipnose. Isso mostra que Danny Boyle continua em forma, mesmo depois da consagração. Tendo isso em mente, que venha Trainspotting 2.

8/10

Anúncios

Uma ideia sobre “Em Transe

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s