A Morte do Demônio

Fede (Federico) Alvarez é um diretor uruguaio que chamou a atenção após a divulgação de seu curta-metragem “Panic Attack” no YouTube. Sua notoriedade chegou a Hollywood e logo foi “apadrinhado” por um dos seus maiores ídolos, Sam Raimi, para a produção da versão longa de sua ficção científica. Mas o que na verdade aconteceu foi que ele e seu co-roteirista Rodo (Rodolfo) Sayagues Mendez acabaram sendo direcionados a trabalhar no projeto de refilmagem de “Evil Dead”.
O orçamento foi de aproximadamente 14 milhões, contando também com Bruce Campbell (antigo protagonista da franquia) como produtor. Diablo Cody (“Juno”, “Garota Infernal”) também teve uma pequena participação no roteiro.

Um dos maiores desafios de um remake é superar (ou estar à altura) o original. Uma ideia que provocou receio nos grandes fãs do “Evil Dead” (Uma Noite Alucinante) de 1981, dirigido pelo próprio Sam. Mas Fede estava confiante porque ele também é um desses fãs. E para preservar a essência do original, recriou a história com novos personagens apropriados para um contexto pertinente. Fede investiu em motivações e conflitos afetivos, trazendo os irmãos Mia (Jane Levy) e David (Shiloh Fernandez) a um chalé na floresta, afastado do resto do mundo, para que Mia tentasse ali se livrar do vício das drogas. David, em processo de redenção, está disposto a fazer o que for preciso apaziguar sua relação com a irmã. Em complemento, temos Olivia (Jessica Lucas), uma enfermeira que está disposta a se responsabilizar pelos métodos de tratamento da amiga em abstinência, que tem como princípio não permitir que ela fuja da casa quando houver uma recaída. A partir desta trama é que Fede marca seu primeiro ponto positivo, ao trabalhar com carisma e envolvimento na relação público x personagens.

Enquanto Jane Levy fica à frente na interpretação, Nat (Elizabeth Blackmore) é a namorada de David e, no quesito desenvolvimento de personagens (que o original praticamente não tem), ela é a mais fraca, tendo mais relevância quando está possuída do que viva. Já Eric (Lou Taylor Pucci) é o responsável pela evocação da entidade maligna, mas, em resposta ao grande equivoco, torna-se um personagem resistente e útil, ganhando algum prestígio em pelo menos três cenas. Não coincidentemente, as iniciais dos cinco amigos formam a palavra “DEMON”. Para completar o time, resta Grandpa, um cachorro que vem com David cuja única finalidade é guiar os personagens com seu faro.

EvilDeadFloresta

Findo o prólogo, começamos com uma câmera de ponta-cabeça (referência a uma sequência do original), indicando o sentido da única crença pela qual o filme responde. O enquadramento faz com que vejamos o carro cercado pela floresta descendo e descendo cada vez mais pela tela, como uma possível alusão ao inferno. A ausência de qualquer religião é um elemento esperto porque não evoca opositores e, ao invés disso, o filme procura canalizar a contrapartida para a ciência – usando termos como delírios, vírus e tranquilizante. Mais tarde, os personagens descobrem que o conflito só pode ser encarado no campo do misticismo, instruídos pelo invulnerável Livro dos Mortos. Nesta versão são apresentadas três formas de derrotar o demônio e, felizmente, temos a oportunidade de assistir às três.

O segundo maior desafio que o longa assume é o – arriscado – compromisso de ser “o filme mais apavorante que você já viu. Pode parecer pretensioso para muitos, sendo este um dos princípios de Alvarez na produção. O uruguaio afirma já ter participado de diversas produções de terror e tem experiência com efeitos especiais práticos em set, o que lhe permitiu gravar, por exemplo, a já famosa cena da língua cortada, usando cordas (como uma marionete) em uma língua falsa. Talvez o horror aqui não esteja em sua forma mais aterrorizante, mas com certeza é digna de asco, repulsa e aflição. E não só é mais realista no sangue (foram usados cerca de 5 mil litros) e na maquiagem mas também é mais sensato que o original, um conjunto que permite maior verossimilhança para a experiência.

Uma escolha que pode não ter caído muito bem (e eu adiei o assunto propositalmente) foi o prólogo. Uma menina ensanguentada vaga pela floresta até ser capturada por dois homens. Ela acorda amarrada a um tronco diante de seu próprio pai. A situação em que o próprio pai ateia fogo na filha pode parecer desumana, até que ela se revela possuída pelo demônio. Talvez as pessoas sintam mais medo quando estão chocadas, mas nesse caso, o efeito foi desfavorável porque a pancada acabou anestesiando o público. Em todos os minutos que se seguem o terror é gradual e crescente, mas sensorialmente enfraquecido pela prévia daquilo que ainda estava por vir. Nem tudo foi perdido: há investimento em cenas chocantes, reviravoltas e procura surpreender o espectador, fugindo muito da narrativa do filme original, com detalhes e alterações que fazem valer o ingresso (o uso da serra elétrica é espetacular).

A melhor característica do filme – e é aquela que lhe atribui o tom de pânico – é que ele nunca blefa. Os acentos sonoros correspondem a verdadeiras imagens de terror. A atmosfera, quando crescente, garantidamente nos leva a um momento crítico. Não há enganos, não tem essa de personagem assustado se vira e vê que era só o amigo ou um animalzinho passando. O som rege o horror de cada cena, partindo do suspense sem qualquer trilha à desesperadora e apocalíptica orquestra. O brusco silêncio e gritos ensurdecedores também participam da narrativa e da montagem, concluindo ou mudando a trajetória de alguns episódios. Para o grand finale minuciosamente arquitetado, a trilha épica toma o palco para ampliar a magnitude da situação.

Outros elementos do filme também merecem uma análise, como por exemplo o fato da figura da mãe estar sempre morta (das duas famílias). Nessa versão não há menção de uma floresta viva, ainda que exista a cena dos cipós. Mas é diante da “mãe natureza” que Mia é possuída em um ato que mais se parece com dar a luz ao contrário – a negação da vida. Só é estranho que ela seja a única a ser possuída de tal forma, já que todos os outros são meramente “contaminados”, o que nos leva a pensar na hipótese de que tudo pode se tratar de uma metáfora para a condição de Mia. A garota “que já havia morrido uma vez” ingeria novamente e passaria a destruir suas amizades, uma a uma, em decorrência de seus demônios internos. Isso provavelmente daria um sentido alternativo para a cena da ressuscitação.

A batalha conclusiva é essencialmente vermelha, desde a roupa e arma ao carro da personagem, num cenário banhado em sangue e chamas. No campo da arte, percebemos também que David usa uma camisa muito parecida com aquela que Ash usa no filme de 81 (ele também é lançado contra estantes como Ash). A fotografia é competente e traz vários enquadramentos louváveis. Pode-se dizer que todo o humor do filme original foi deixado de lado para dar espaço integral ao horror, gerando um remake digno de reconhecimento. Com $25,7 milhões arrecadados no fim de semana de estreia nos EUA e mais de $50 milhões ao redor do mundo até o momento, “Evil Dead” traz tudo aquilo que o espectador do gênero quer ver.
A sequência já foi garantida e Fede já está trabalhando no roteiro de “Evil Dead 2”

9/10

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