Oblivion

Na faculdade de cinema aprendemos a importância de não transformar seus filmes em uma “colcha de retalhos” – dito usado para dar nome àquelas obras que, de tantas referências, acabam não possuindo uma identidade própria. Essa expressão de caráter depreciativo é aplicada à vários cineastas hoje, numa época onde as salas de cinema são ocupadas majoritariamente por sequências, prelúdios ou adaptações de quadrinhos e nada realmente original aparece.
Oblivion, projeto antigo do diretor Joseph Kosinski, sofre desta falta de originalidade. Não por se enquadrar em alguma das categorias acima, mas por se tratar de uma colcha de retalhos.

Na história, Jack Harper (Tom Cruise) é responsável pela manutenção dos Drones – robôs programados para aniquilar qualquer vida alienígena remanescente – num mundo devastado pela guerra, travada há 60 anos, contra uma raça chamada por ele de “Escavadores”. Próximo do termino da missão, Jack passa seus dias extraindo os últimos recursos naturais do planeta, com direito a alguns souvenirs – como livros, discos e etc – enquanto é assombrado por misteriosos flashbacks. Monitorado por sua navegadora e companheira, Victoria (Andrea Riseborough), a dupla segue reportando suas atividades aos seus superiores, preocupando-se apenas em ser uma “equipe eficiente”. Tudo corre conforme o planejado até que Jack, em uma de suas missões, resgata uma misteriosa mulher (Olga Kurylenko) em estado de hibernação. A chegada desta mulher fará com que Jack comece a questionar tudo o que sabe, numa trama que irá decidir o futuro da humanidade.

A trama central de fato é original, fruto de um trabalho que o diretor vem desenvolvendo desde 2005, antes de se aventurar pelo cinema. O visual do filme é outro ponto forte. Kosinski, arquiteto de formação e que já mostrou habilidade com efeitos especiais em Tron: O Legado nos entrega sua visão do apocalipse: um contraste entre as áridas ruínas de monumentos históricos e um futuro elegante, frio, quase hospitalar em que vivem Jack e Victoria. A fotografia de Claudio Miranda (vencedor do Oscar este ano por As Aventuras de Pi), com seus planos gerais e diferença na colorização entre os ambientes, também ajudam a evidenciar esse contraste – que ainda inclui um terceiro ambiente, o recanto de paz de Jack, o local onde ele deposita todas as “lembranças da terra pelas quais valeram a pena lutar”.

O problema do filme começa no roteiro – do conflito ao desenvolvimento dos personagens. Kosinski e seus colaboradores nos subestimam de cara, com uma batida narração em off, que nos primeiros minutos de filme trata de nos explicar tintin por tintin toda a história até ali. Os personagens são tão profundos quanto uma poça no asfalto em dia de chuva. O saudosismo de Jack, mostrado com tanto lirismo pelo trailer, se limita a cenas arrastadas em que Tom Cruise (que não fazia o tipo “boa praça” desde Missão Impossível II) conversa com um enfeite de para-brisa, fantasia jogar baseball e escuta Led Zepellin. Os demais personagens são tão expressivos e vivos quanto o próprio cenário apocalíptico – destaque para Olga Kurylenko, que faz cara de paisagem como ninguém.

O maior erro de Oblivion, porém, está em suas homenagens ao cinema de ficção científica. A “colcha de retalhos” se cria aí. São nítidos os fragmentos de filmes do gênero ao longo da exibição: o problema de memória de Jack se assemelha ao de Douglas Quaid em O Vigador do Futuro; o visual e o discurso “a realidade é uma mentira” do personagem de Morgan Freeman é muito parecido com o de Morpheus em Matrix; a missão solitária dos protagonistas nos lembra de cara a missão de Wall-E e por aí vai –  para não entrar em mais detalhes de outras obras, como 2001 – Uma Odisseia no Espaço, Solaris, Lunar, Akira e Alien – O Oitavo Passageiro.  Abarrotado de referências, Oblivion passa longe de ser original, desperdiçando uma premissa e um visual que, a princípio, pareceram interessantes.

Enfim, assim como os roteiristas de a Ilha arruinaram uma história interessante ao entregá-la a Michael Bay, Joseph Kosinski arruína seu trabalho de anos ao optar dirigi-lo. Visualmente, Oblivion é excelente e por este, e outros motivos, Kosinski talvez deva limitar seu trabalho apenas à arquitetura.

5/10

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