Mama

Mama

Hollywood se esqueceu da receita de um bom filme de horror. Berço de clássicos do gênero como O Iluminado, Carrie – A Estranha, O Bebê de Rosemary e (na minha opinião o melhor)  O Exorcista, o cinema norte-americano há tempos não nos apresenta nada realmente assustador – sendo ofuscado pelo já desgastado cinema oriental e o péssimo terror-documentário. De fato, Hollywood se esqueceu da receita do susto, mas ainda tenta. Mama é fruto desta tentativa. Tentativa digna de uma atenção especial.

Na história, diante da crise financeira que assolou os EUA em 2008, um homem desesperado mata sua esposa e sócio e sequestra suas duas filhas. Na fuga, os três se refugiam em uma cabana abandonada no meio da floresta e, antes que pudesse dar fim à sua angustia, o homem é brutalmente assassinado pelo espiríto que habita aquele lugar. As crianças são deixadas a merce dos cuidados maternos do tal espírito, a Mama do título. Cinco anos depois, as meninas são encontradas em condições deploráveis, desumanizadas, andando de quatro e alimentando-se de insetos, frutas e carne crua (uma provável referência às duas meninas lobo, encontradas em condições semelhantes na Índia, na década de 20). Cabe então aos tios, Lucas (Nikolaj Coster-Waldau) e Annabel (Jessica Chastain, deslumbrante), a tarefa de reintegrar as meninas à sociedade. Infelizmente para os eles, elas carregam consigo o atormentado espírito da cabana.

O filme acerta ao dar a sua história um ar de fábula: o prólogo se inicia com um sutíl lettering com os dizeres “Era uma vez…” e se encerra com rabiscos infantis, narrando os cinco anos das meninas ao lado de “Mama”. Esse clima fantasioso é provavelmente uma das maiores contribuições de Guilhermo Del Toro, produtor do filme, ao produto final. Esse contraste entre a estética da fábula e a estética realista causam um leve desconforto, dando um clima assustador ao filme. Outro contraste interessante está no conflito da protagonista. Na primeira vez que vemos Annabel, a personagem está comemorando uma não gravidez. Ela não está preparada para ser mãe e parece negar a responsabilidade. Diferente da alma penada que dá título ao filme, que é impulsionada por seus instintos maternos.

As atuações não comprometem. Chastain, que este ano foi indicada ao Oscar, se mostra cada vez mais versátil ao escolher seus papeis. Aqui ela limita sua atuação à sustos e gritos – trabalho muito semelhante ao feito pela atriz Naomi Watts em O Chamado, há dez anos atrás. O destaque fica mesmo por conta das duas atrizes mirins Megan Charpentier e, principalmente, Isabelle Nélisse. Enquanto Charpetier convence como a irmã mais velha, afetada pelas lembranças de sua antiga família e que aos poucos se reintegra a sociedade, Nélisse brilha e assusta de verdade como a irmã mais nova (!), sem a necessidade de efeitos especiais.

Os sustos, porém, param nas atuações e na ambiência. A Mama, ou Edith Brennan, é arrepiante a princípio, mas, como no já citado “O Chamado”, perde todo o seu glamour ao revelar seu rosto, feito por computação gráfica. Para assustar, o diretor Andrés Muschietti, usa e abusa do efeito mais antigo do cinema: o de aproximar o personagem (ou algo) em direção ao espectador. Não vou dizer que não assusta as cenas em que o espírito cadavérico se arrasta em sua direção, numa sala escura de cinema. Porém, após repetir o efeito pela décima vez, confesso que a sensação se torna cômica. Sem contar que o mesmo efeito é usado desde 1895, a partir do filme A Chegada do Trem na Estação (na conhecida primeira exibição pública de um filme, o público também se assustou com o trem se movendo em sua direção).

Enfim, mesmo com um roteiro formuláico e um tanto clichê, personagens digitais e direção mediana, Mama é um ótimo candidato a lavar a alma do terror hollywoodiano. Um filme que a industria precisa. Tenho certeza de que não falo só por mim: chega de Jigsaw, fantasmas asiáticos obcecados por cabelo e, acima de tudo, Atividades Paranormais.

7/10

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