O Último Elvis

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Vou começar esta crítica contando um caso que aconteceu comigo, há algum tempo. Estava eu, conversando com o vocalista de uma banda cover relativamente famosa em minha cidade, especializada no grupo britânico Oasis – que por acaso gosto muito. Conversávamos sobre uma grife de roupas criada por Liam Gallagher, que o vocalista cover dizia estar interessado em adquirir. Ingenuamente, indaguei a ele o por que de estar interessado nesse tipo de marca? – imaginando que ele fosse responder que queria apenas tornar sua performance mais verossímil nos palcos. Ao invés disso, olhando fundo em meus olhos ele me respondeu com toda a convicção: “Preciso usar esta marca, porque… Você sabe… Eu sou Liam Gallagher”.

Contei o caso apenas para ilustrar o quão mentalmente afetado está Carlos Gutiérrez, protagonista do longa Argentino O Último Elvis (El Último Elvis). Carlos, que também é um vocalista cover, come, respira e age como o rei do Rock, negligenciando sua família e a si próprio. Os delírios são ainda maiores: o personagem foi capaz até de nomear sua única filha de Lisa Marie e de chamar insistentemente sua mulher de Priscilla, respectivamente os nomes da filha e esposa de Elvis. Frustrado, trabalhando como um operário durante o dia e sentindo o vazio de viver uma vida que acha que não lhe pertence, Carlos decide chutar o balde e dedicar-se totalmente à música, até um inusitado acidente mudar completamente o rumo de seus planos, deixando sua mulher inválida e forçando-o a cuidar sozinho de sua filha. A partir dai começa a jornada de autoconhecimento – Carlos ao se aproximar da filha, descobre o pai responsável que existia em si mesmo, além de uma outra identidade, que ele pensava ter enterrado tempos atrás.

Sobre o roteiro, o conflito do filme é excelente. Ao mesclar o dilema sobre a busca (e a perda) pela identidade – já abordado em filmes como O Lutador, de Daren Aronofsky – e a necessidade de um amadurecimento forçado, devido à circunstâncias inesperadas – como em Kramer vs. Kramer – ,o diretor e co-roteirista Armando Bo (que também assina Biutiful) nos entrega uma história sincera e realista. A mesma excelência está aplicada aos personagens e nas atuações. O estreante John McInerny está perfeito como Carlos e péssimo como Elvis – ele não se parece, ou canta como Presly. E isso é exatamente o que o roteiro pede. Seus delírios se alternam em cenas hora dramáticas, hora engraçadas, sem nunca cair no caricato. É possível enxergar as diferenças entre Carlos e o emulado de Elvis através das diferentes expressões do ator – destaque para as cenas em que o próprio McInerny interpreta os clássicos do rei. Destaque também para as brilhantes cenas em que Carlos encara sua própria imagem refletida num espelho, hora caracterizado como Presly, sorrindo, e outra como o operário frustrado. É como se ele buscasse no reflexo a imagem do rei do rock, na esperança de que aquilo lhe traga algum conforto. Um fato interessante é que McInerny não é ator e, ironicamente, de fato faz covers de Elvis na Argentina. Ele é arquiteto e foi inicialmente contratado para assessorar outro ator, que faria o papel de Carlos.

A direção também é precisa, que usa de vários planos com câmera na mão para nos dar um sentimento maior de realismo, além de longos planos contemplativos. O problema do filme é justamente este. Ao abusar doslongos planos, o filme parece arrastado em certos momentos, principalmente no clímax. O texto, que apesar de excelente, carece de situações dinâmicas, que dariam um certo ritmo à história. A soma destes dois fatores resulta em um final sonolento, de longas sequencias e muitos diálogos. O motivo deste desequilíbrio pode ser talvez a falta de experiência do diretor, que até então trabalhava apenas como roteirista.

Enfim, O Último Elvis é um filme que nos ganha com sua história tocante e seus personagens cativantes, o que rende bons momentos até certo ponto. Porém, se o rei estivesse vivo, cheio de energia, aposto que ao termino da sessão definiria o filme apenas com um de seus mais famosos refrões: “A little less conversation, a little more action, please”, traduzindo, “um pouco menos conversa e um pouco mais ação, por favor”.

6/10

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